Entrevista Hypeness

‘Tem a questão do racismo’, diz Daniel Ganjaman, que assina trilha de série da HBO sobre maconha

por: Kauê Vieira

‘Pico da Neblina’ está disponível em mais de 70 países. A nova série da HBO apresenta uma São Paulo (talvez distópica) onde a maconha é legalizada. Dirigido por Fernando e Quico Meirelles, o seriado conta a história de personagens antagônicos, Biriba (Luis Navarro) – homem negro de origem periférica que abandona a vida do crime para, ao lado do sócio Vini (Daniel Furlan), de classe média, vender a erva dentro da lei. 

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Não vá tirando conclusões precipitadas, ‘Pico da Neblina’ não se opõe ou defende a legalização da maconha. A erva, aliás, nem é o assunto principal de um roteiro que atravessa as profundas desigualdades sociais provocadas por problemas históricos como o racismo

A afirmação é de Daniel Ganjaman, o conceituado produtor de nomes como Criolo e BaianaSystem assina a trilha sonora de ‘Pico da Neblina’. Ganjaman conversou com exclusividade com o Hypeness sobre como enxerga o cenário atual e quais seriam as consequências de uma possível legalização da maconha. Adianto, não é nada tão lindo como se pode imaginar. 

Daniel Ganjaman conversou com o Hypeness sobre nova série

“Eu tive uma reunião com o Quico Meirelles e ele explicou o que seria a história e me deixou o roteiro. Eu li e entendi que, na verdade, o fato de ter essa hipótese da legalização da maconha como pano de fundo traz esse peso. Já de cara chama a atenção para esse assunto. Mas não é o assunto principal. Acho que a série fala sobre relações pessoais, os conflitos sociais que existem no Brasil e que a hipotética legalização escancara isso”, pontua citando a discriminação racial.  

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“Aconteceu nos Estados Unidos também. Tem a questão do racismo, do preconceito e da desigualdade que fica muito evidente sob esse pano de fundo”, encerra Daniel Ganjaman. 

Avesso aos estereótipos, principalmente se tratando de um assunto tão estigmatizado por visões carregadas de racismo e conceitos equivocados, Daniel Ganjaman diz ter tomado cuidado redobrado na concepção da trilha sonora. O produtor fez questão de ressaltar a cultura canábica e seus significados. 

Existe uma cultura que envolve não só a questão política e social da legalização, mas envolve também arte, música, comportamento e a música está muito presente dentro dessa cultura. Na verdade, seria uma armadilha muito grande ir por um caminho óbvio do que a cultura propõe para a trilha sonora. Foi um desafio buscar formas de abordar e respeitar essa cultura que é forte, que tem representatividade política e social e como a gente poderia abordar isso sem cair em clichê. 

Daniel reconhece a importância de elementos do reggae, hip hop e psicodelia na construção de nuances do movimento cultural. Ele, no entanto, chama a atenção para fatores sociais debatidos ao longo dos 10 capítulos da primeira temporada. 

“A gente tentou não dar ênfase pra isso. A música ajuda a contar a história do que seria a música tocada no dia a dia de um moleque de periferia como o Biriba. E o que tocaria na casa dos pais de um cara como o Vini. A gente tentou passear por esse universo para contar essa história que é ampla e é diversa”, encerra. 

Negros e brancos e a legalização 

A relação com a maconha varia de acordo com o número do seu CEP. Com argumento de Cauê Laratta, que está à frente do roteiro ao lado de Chico Mattoso, Marcelo Starobinas e Mariana Trench, ‘Pico da Neblina’ apresenta Biriba, jovem da periferia de São Paulo que ganha o sustento por meio do tráfico de drogas. 

‘Pico da Neblina’ reflete o Brasil racista e desigual

Além de lidar com os riscos que a imposição social apresenta, ele se vê em um conflito provocado pela legalização. Vender a erva dentro da lei ou permanecer na ilegalidade? Eis que entra em cena Vini, um típico filhinho de papai da classe média paulistana. Dono do privilégio de jogar dinheiro pela janela, o rapaz deseja se tornar sócio de Biriba e Salim. 

Neste cenário de desequilíbrio racial proposto pela série, Daniel Ganjaman acredita que a realidade com a maconha legalizada não seria muito diferente. 

“Difícil prever, a gente vive num momento onde a discussão sobre drogas é lenta. Talvez seja a tônica do debate da sociedade atual, a questão dos privilégios, o que separa todos os brasis que a gente não conhece. Acredito que a hipótese da legalização da maconha acompanharia essa desigualdade. Difícil fazer uma reparação histórica dentro desse assunto. Nos EUA, a legalização parcial da maconha trouxe esse problema. Com antecedentes criminais nos Estados Unidos, você já é banido da possibilidade de comercializar maconha”, analisa. 

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Grana é o que não falta no chamado mercado da maconha. Nos Estados Unidos, uma transação entre a Harvest Health & Recreation e a Verano Holdings girou na casa do 850 milhões de dólares – maior acordo do setor de cannabis da história do país. 

“A maconha é dona de um mercado milionário, mais cara do que ouro. Isso gera uma receita enorme. E no Brasil não seria diferente. Primeiro que tem a terra produtiva e o clima favorável para uma hipótese de legalização. Existe um potencial consumidor gigantesco. Como no resto do mundo”, aponta Daniel. 

Os ganhos, porém, estão nas mãos de grandes empresários ou investidores. Todos brancos. Em Nova York, que acabou de descriminalizar a maconha, 86% dos presos por posse da erva são negros e latinos. Número oito vezes maior do que entre brancos. 

O que mudaria para os negros com a legalização?

“Tem uma questão de cultura que deveria falar mais alto. A própria proibição da maconha no mundo, que partiu dos EUA, apresenta um componente racial forte em relação aos negros e mexicanos. O que banaliza a libertação e proibição é balizada na proibição dos EUA. Existe um preconceito muito forte. Somos um país fundamentalmente racista desde a descoberta. Era preciso ter uma reparação de quem trabalhou com isso. Prioridades”, opina Daniel Ganjaman. 

E por que é proibido? 

Se o ganho financeiro é certo. Se o avanço na luta contra violência também é. Por que, afinal, a maconha está tão distante de ser legalizada no Brasil? 

“Acho utópica possibilidade de adentrar esse negócio [da legalização]. É utopia pensando em Brasil, ainda mais no Brasil de hoje, que é um Brasil distópico. Inacreditável. A ideologia briga com a ciência. A gente teria problemas”, critica o responsável pela trilha sonora de ‘Pico da Neblina’. 

O debate pouco avançou nas últimas década e a fixação do país com o proibicionismo cobra caro. O simbolismo se dá de diferentes formas, como no caso de um homem condenado a 3 anos de prisão por ser pego portando 534 gramas de maconha. Cocaína no avião da FAB, já cantavam Black Alien e Sabotage

Acontece também a partir de um raio-x do sistema carcerário brasileiro. Enegrecidas, as cadeias do país abrigam pessoas pegas com quantidades ínfimas de drogas. 

A série é exibida pelo HBO

O estudo mais recente feito pelo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) é de 2016 e mostra que cerca de 200 mil pessoas foram detidas por crimes relacionados com o porte de substâncias ilícitas. Números que correspondem a 28% das incidências penais de privação de liberdade no Brasil. 

Tenho pra mim que são muitas camadas que fazem com que isso chegue nesse tabu. É providencial não só para o conservadorismo e fundamentalismo religioso mas, principalmente, porque existe uma máfia de produção de diversas coisas que poderiam ser substituídas. Isso envolve a indústria farmacêutica, do papel e algodão. Tudo isso você encontra na cannabis, no hemp. Não só no psicoativo, mas na planta como uma forma de matéria-prima para diversos produtos.

O produtor musical afirma que há um grupo de privilegiados tirando grande proveito dos lucros milionários gerados pelo tráfico de drogas. Some isso ao conservadorismo e o debate sobre descriminalização ou legalização da maconha vira utopia. 

“Tudo isso envolve a indústria têxtil e a farmacêutica e movimenta muito dinheiro. As pessoas que lucram muito não têm interesse em mexer nessas possíveis alternativas que a planta poderia apresentar. É muito difícil mexer com os tubarões. Eles são praticamente os donos do Brasil. [A legalização] mexeria com o agronegócio e ele manda no Brasil. É uma commodity que envolve soja. São várias camadas e sem dúvida a parte financeira que mexe com pessoas poderosas dificulta muito qualquer progresso. Estamos regredindo. Mais do que nunca. O Brasil sempre foi atrasado”

Não é pró-maconha 

Em tempos de censura explícita e uma guerra contra suposta ideologias para estabelecer outras ideologias, ‘Pico da Neblina’ propõe um debate maduro sobre a maconha e como ela se estabelece na sociedade. 

Ganjaman reforça o intuito da direção de abrir espaço ao diálogo. Iniciativa valiosa em momentos de intolerância extrema.  

Não é uma série pró-legalização, ela expõe as feridas de uma forma ampla. Inclusive o lado bom e ruim do que viria a ser a legalização da maconha no Brasil. Por outro viés. Expõe os problemas que surgiriam em função dos problemas que temos. O Brasil é desorganizado em questão de oportunidade”. 

O produtor musical considera louvável o fato do seriado exibido pela HBO suscitar reflexões distantes de estereótipos, jogando luz sobre os efeitos positivos de derivados da maconha como o canabidiol, que auxilia no tratamento de epilépticos e portadores de doenças raras. 

O que acho interessante da série é que ela amplia a narrativa para um outro patamar. É importante as pessoas entenderem quais as questões têm importância dentro da discussão e a gente poder falar de uma forma que passe por cima de tabus. Não pode ser uma discussão burra, são vidas. Pessoas. É importante que a discussão não passe para o lugar do preconceito. Temos a violência urbana, o tráfico de drogas e os níveis absurdos de encarceramento em massa e extermínio da juventude negra. Tudo está ligado às drogas e à maconha. O primeiro passo com a coerência é pés no chão com fatos e não ideologias e fundamentalismo.  

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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