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Cannabis, o monstro dentro do armário | coluna: Viviane Sedola #1

por: Viviane Sedola

Tema tabu em grande parte do mundo, o uso de cannabis para fins medicinais ganhou grande destaque nos últimos meses no Brasil e acendeu o sinal de alerta da ala mais conservadora da sociedade. Para muitos, a cannabis é aquele monstro que habita o imaginário infantil. Se esconde dentro do armário e causa pavor nas crianças na hora de dormir.

O protagonismo do canabidiol, substância extraída da planta e também conhecida como CBD, se deve aos milhares de casos bem sucedidos de tratamento no Brasil de patologias como Parkinson, Alzheimer, diversas doenças e dores crônicas, além do controle de convulsões em pessoas que não respondem a tratamentos convencionais. Mas o que trouxe esse assunto para o centro do debate nas mídias e rodas de conversa, foi a consulta pública da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de duas propostas de regulamentação, uma sobre o cultivo controlado para uso medicinal e científico e outra sobre o registro de medicamentos.

A autoridade sanitária entende que regular o acesso é importante. Muitas vezes esta é a única opção que apresenta resultados de melhora para os mais de 10 mil pacientes que já pediram autorização excepcional para importar o óleo rico em CBD. Estima-se que o número de famílias que recorrem à ilegalidade para ter acesso ao medicamento seja ainda maior.

Diante da iminente regulação do uso medicinal da cannabis no Brasil, o medo do desconhecido se impôs, especialmente na camada mais conservadora da população. Desatualizadas sobre os reais impactos da cannabis não apenas no nosso corpo, mas na sociedade, essa parcela da sociedade teme que o impacto da liberação do uso terapêutico da cannabis no Brasil seja negativo.

O argumento é de que a liberação, mesmo que apenas para uso medicinal controlado, estimularia o aumento do consumo, inclusive de outras drogas, principalmente por parte de adolescentes e jovens. Então, vamos abrir esse armário e mostrar que o monstro, de fato, não existe.

O consumo entre os jovens, ao contrário do que se imagina, não foi estimulado com a liberação para fins terapêuticos.  Vamos aos EUA, onde mais da metade dos estados (33 e mais o distrito de Columbia) aprovou leis liberando o uso de cannabis medicinal e onde há um marco regulatório para o cultivo e produção de produtos à base de cânhamo. Além disso, 10 estados e o distrito de Columbia legalizaram o chamado uso adulto. Estudo recente, divulgado em julho pela conceituada publicação acadêmica JAMA Pediatrics, analisou dados de 1,4 milhão de estudantes norte-americanos do ensino médio. Esses dados foram coletados pelo órgão de prevenção e controle de doenças do governo entre 1993 e 2017.

O estudo divulgado pela JAMA Pediatrics concluiu não haver evidências de que a legalização medicinal tenha incentivado o consumo entre os jovens. O número de estudantes que informou ter usado cannabis nos últimos 30 dias se manteve estável em todos os estados, mas curiosamente apresentou queda de 8% justamente nos estados onde o uso adulto foi liberado.

A grande pergunta é por quê. Os pesquisadores atribuem a redução a alguns fatores, entre os quais o rígido controle etário feito pelos dispensários. Esse tipo de controle não existia nas vendas ilegais, que que apresentaram significativa redução com a abertura de comércios regulados. Outro ponto provável é que o acesso à educação visando redução de danos mostrou aos jovens que fumar cannabis pode prejudicar o seu desenvolvimento. Ou seja, falar sobre o tema é fundamental.

O resultado dessa pesquisa recente está em linha com outro estudo publicado na revista The Lancet Psychiatry , em 2015, comparando o consumo antes e depois da regulação em 21 estados dos EUA. Foram analisados dados de 1,1 milhão de garotos norte-americanos entre 1991 e 2014. A conclusão é que não houve alteração significativa no consumo de cannabis após a regulamentação. No grupo mais jovem houve queda no consumo, o que os pesquisadores atribuíram ao fato deles terem deixado de ver a cannabis como uma droga recreacional, passando a vê-la como medicamento.

A liberação da cannabis para fins medicinais é um perigo bastante imaginário. Assim como no caso do monstro ainda teremos que abrir a porta deste armário repetidas vezes até que possamos dormir tranquilos e sem medo. Esta coluna nasce hoje, justamente, com o intuito de lançar luz sobre os tabus e trazer clareza ao debate sobre o uso responsável da cannabis. Participe!

 

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Viviane Sedola
Viviane Sedola sabe que o tratamento com canabinoides pode mudar vidas. Por isso, no início de 2018 lançou a plataforma Dr. Cannabis, que conecta pacientes que precisam do medicamento à base de cannabis a médicos prescritores e fornecedores dos produtos, com o objetivo de tornar o tratamento mais acessível. Vivi sempre trabalhou com projetos de impacto, que geram riqueza e ao mesmo tempo ajudam a resolver problemas da sociedade. Foi co-fundadora da Kickante e atuou na área de venda do Groupon Brasil, depois de ter trabalhado na áreas de comunicação, marketing, captação de recursos e soluções digitais de várias empresas por mais de 14 anos.

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