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Com Marco Nanini, filme ‘Greta’ dá voz aos desejos e sexualidade dos excluídos

por: Brunella Nunes

“Eu quero ficar só”, demandou Greta Garbo certa vez. Essa é a frase de conexão entre a icônica atriz americana e o grande ator brasileiro Marco Nanini, protagonista do filme “Greta“. Com estreia marcada para o dia 10 de outubro, aborda assuntos como os desejos e a sexualidade de um setentão homossexual, sedento por amor, mas disfarçado de anseio por solidão.

O roteiro é livremente inspirado na peça “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, do dramaturgo Fernando Melo, lançada no início dos anos 1970 -  período de ditadura militar no Brasil. A obra abusa do deboche e representa o gay de forma caricata, talvez numa tentativa de escapar da censura da época.

Mas o diretor e roteirista cearense Armando Praça, que assina agora seu primeiro longa metragem, optou por dar outro rumo para a história, confrontando o lado cômico. “Quando vi uma montagem da peça, não me senti confortável em ver as pessoas rindo. Achei que isso estava mal colocado na leitura atual. Para mim era importante a gente olhar os personagens com empatia, solidariedade e retratar uma vida vivida com dignidade, argumentou durante a coletiva de imprensa em São Paulo.

Foto: Aline Belfort/divulgação

No filme, exibido na Mostra Panorama do Festival de Berlim de 2019, o enfermeiro Pedro (Marco Nanini) é um homem gay, solteiro e aficionado por Greta Garbo, estrela hollywoodiana da Era de Ouro do cinema norte americano. Ao saber do estado de saúde da melhor amiga e performer na noite, Daniela (Denise Weinberg), procura liberar logo um leito no hospital onde trabalha. No acaso do destino, acaba encontrando Jean (Démick Lopes), um paciente desesperado para ir embora. Pedro o ajuda a fugir e ao esconde-lo em sua própria casa, acaba se envolvendo afetiva e sexualmente com o homem acusado de cometer um crime.

A partir da sinopse, o melodrama com viés LGBT+ segue por um percurso de transformações nos três personagens principais. Pouco se sabe sobre Pedro. A interpretação é de que não passa de um cara qualquer, que chega à terceira idade sem família, sem companheiro, sem amigos e sem posses. Um ser que beira o tédio.

Foto: Aline Belfort/divulgação

 

A personagem Daniela em uma das cenas mais bonitas do filme. Foto: Aline Belfort/divulgação

A solidão é colocada em cheque o tempo todo. Daniela, a única amiga, insiste na ideia de que Pedro precisa aprender a ser sozinho, enquanto ele, sempre que pode, clama baixinho “I want to be alone” (eu quero ficar só - na tradução para o português), frase eternizada por Greta Garbo no filme “Grande Hotel”, de 1932. “Adoro personagens contraditórios. Essa é uma tentativa de se enganar, mas também uma fuga para a personagem. No caso do Pedro, ele não consegue deixar a vida cômoda”, explicou o diretor. Nanini complementou: “pra ele [Pedro] é quase um mantra falar isso. Uma oração. É aquela ilusão da estrela americana”.

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Não demora muito para que se crie um elo íntimo entre ele e o espectador, que mergulha em seus fetiches, aventuras e desventuras sexuais. Os desejos são representados também pela vontade de ser Greta Garbo, nem que seja só na cama. “Pode pensar em outra, mas tem que me chamar de Greta Garbo”, disse o enfermeiro em cena, sem vergonha de assumir suas fantasias. E a partir do momento em que Pedro começa a se envolver com Jean, abrem-se novas possibilidades para que ambos, enfim, sejam “alguém na vida”.

Marco Nanini se despiu para dar vida à uma ousada versão de Greta Garbo. Foto: Aline Belfort/divulgação

O filme ousa ao fugir do lugar-comum em diversos aspectos, a começar por se passar em Fortaleza e em nenhum momento fazer referência à típica imagem de destino de férias atribuída à capital cearense. Segundo Armando, houve uma ruptura desse pensamento, visto que a história é humana, não presa a um regionalismo. “A imagem que se constrói das cidades nordestinas é que são paraísos tropicais. São lindas, mas a realidade não é exatamente assim. A ideia é desconstruir a imagem publicitária de Fortaleza”.

Outro ponto é que na ficção a atriz Denise Weinberg interpreta uma mulher transsexual, enquanto a maquiadora e atriz transsexual Gretta Star interpreta uma mulher aparentemente cisgênero – embora isso não fique claro. É justo. Bom mesmo vai ser quando a gente não precisar mais designar uma mulher como “trans”, mas por ora é importante ressaltar a diversidade e a ocupação destes espaços.

O rompimento de padrões se firma ao colocar em cena uma pessoa de 70 anos nua, sem aquele corpo sarado, fazendo sexo com outro homem. “Gostei demais do personagem. É difícil encontrá-lo nos roteiros”, contou Nanini. Não é nada de extraordinário, mas quando se fala em cinema e costumes, com relação a o que as pessoas estão acostumadas a assistir, é uma combinação atômica.

Durante a coletiva, Armando pontuou sobre a necessidade de trazer à tona personagens marginalizados e invisibilizados. “O Pedro é alguém que conseguiu passar por cima de muitos ‘nãos’. O mais importante é falar de um personagem que quer ser amado como qualquer pessoa. É comovente essa vontade de conexão com os outros.

Se a busca do amar e ser amado deixa de acontecer, você está morto. E essa é a busca dele. Insistir nisso é lindo

 

O personagem Jean, que traz à Pedro novos sentidos para a vida. Foto: Aline Belfort/divulgação

Na rotina hospitalar, um tanto desesperadora quando se fala em saúde pública no Brasil, a imagem estéril e até glamourizada -  graças a séries como Grey’s Anatomy  -  é deixada completamente de lado. Embora enfermos, os pacientes deixam explícitos seus impulsos sexuais. É inerente do ser humano senti-los e enquanto houver forças para tal, o pudor pode falhar miseravelmente.

Entre tantos desejos, a liberdade é o cerne da trama, pois cada um dos personagens a almeja ou necessita de variadas formas: a liberdade sexual; a liberdade para ser quem quiser; a liberdade de escolha entre viver e morrer; e a liberdade em seu sentido mais literal, visto que dois deles correm o risco de serem presos. Afinal, quem é que não quer ser livre?

Apesar disso, não há dúvidas de que o filme enfrentará inúmeros julgamentos por parte carola, preconceituosa e conservadora da sociedade, que nutre os mesmos desejos, mas se esforça para mantê-los covardemente ocultos. Em “Greta”, escancaram-se as vontades. Pedro não teme ser quem é e não sucumbe ao peso da idade, às condições financeiras, aos padrões sociais. É alguém que busca conexões reais, transparentes e genuínas, seja com os outros ou consigo mesmo. Nunca é tarde demais para quem insiste em transcender.

Foto: Aline Belfort/divulgação

*OBS: o filme, distribuído pela Pandora Filmes, terá pré-estreia em São Paulo no próximo sábado (5/10), às 16h40, no Petra Belas Artes. Toda a renda da bilheteria será destinada à realização do Festival do Rio – um ato de resistência em nome da arte nacional, que vem sofrendo cortes de verba e apoio cada vez maiores. Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do cinema ou pelo site do cinema

 

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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