Entrevista Hypeness

‘Humor de alguém tirando sarro do outro não faz muito sentido para mim’, diz Monica Iozzi

por: Rafael Oliver

O Hypeness foi até o Rio de Janeiro bater um papo com a atriz e apresentadora Monica Iozzi. Atualmente no horário nobre da Globo, a ribeirão-pretana de 37 anos é conhecida e admirada por sua personalidade. Fala o que pensa e expõe suas opiniões, principalmente políticas. Ironicamente, sua vida pessoal e a profissional se misturam entre a ficção e a realidade, em situações que a colocam, por diversas vezes, no foco da mídia: foi condenada a pagar 38 mil reais a Gilmar Mendes por criticar o habeas corpus a Roger Abdelmassih. Logo depois, interpretou uma das vítimas do médico criminoso na série ”Assédio”. Em outra ocasião, Monica causou alvoroço após abandonar o Twitter e Facebook, alegando desperdiçar muito tempo. Hoje, em A Dona do Pedaço, interpreta Kim, uma  assessora de redes sociais que ajuda clientes a se tornarem web celebridades. 

Monica ficou nacionalmente conhecida no programa humorístico CQC, da Band, onde, segundo ela, ”atuava” como repórter. Recebeu grande aprovação do público e, após 4 anos de Band, despertou o interesse da área de teledramaturgia da Globo, onde voltou a exercer sua verdadeira profissão: a de atriz. Na emissora, também participou como comentarista do BBB e apresentadora do Vídeo Show. 

Ao Hypeness, contou como era o período em que trabalhou com os “homens de preto” do CQC, sendo, por certo tempo, a única mulher a integrar o elenco do programa. Falou sobre o ambiente hostil que enfrentava ao entrevistar políticos no senado, além de comentar o caso de agressão que sofreu por um senador. Disse o que pensa sobre mulheres fazendo humor e o humor que deprecia mulheres. Entre risos e gargalhadas, o papo sério também rolou solto e Monica Iozzi quebrou tudo (inclusive nosso microfone, mas valeu a pena) nessa entrevista exclusiva que você confere a seguir. 

Hoje você está na novela “A Dona do Pedaço” interpretando a Kim, uma agente de redes sociais. Ao mesmo tempo, você tem uns problemas com redes sociais: se cansou, saiu. Já teve de tudo, mas hoje fica só com Instagram. Por que resolveu sair das redes sociais?

A primeira vez que eu saí, eu fiquei 8 meses fora. Isso deve fazer uns 3 anos. Foi porque eu tava bem cansada do tempo que eu estava dispensando para isso. A gente estava vivendo em um ambiente um pouco mais tranquilo do que o que a gente está vivendo hoje, mas sabe quando você percebe que você está gastando o dia inteiro em uma coisa que não está te trazendo algo valoroso? Eu não precisava ficar tantas horas ali para me comunicar! E aí eu percebi que era melhor dar um tempo, ver o quanto aquilo fazia falta na minha vida ou não. Aí eu senti falta, queria conversar com as pessoas, comentar o que estava acontecendo no mundo, então resolvi voltar. E quando eu voltei, foi só para o Facebook e o Instagram, eu não voltei para o Twitter. Agora, eu resolvi sair também do Facebook e estou só no Instagram.

Falando em redes sociais, eu conversei com o Orkut – o próprio – e ele disse que a sociedade está ficando doente com as redes sociais. Você tem essa mesma opinião? Acha que é uma coisa muito superficial? É um universo paralelo banal? 

Primeiro que eu acho que ele não tem o direito de falar isso, porque ele começou com tudo isso! Ele tinha que ter vergonha na cara dele! [risos]. As redes sociais têm um papel sensacional. Precisamos aprender a lidar melhor com elas, a utilizar melhor essa ferramenta. A gente ainda está um pouco na promessa do que pode vir a ser esse mundo das redes sociais. E da internet, também, como um todo. A gente ainda utiliza de maneiras superficiais. São ferramentas tão maravilhosas. A gente pode ir além da selfie, além da propaganda, da auto promoção. Discutir coisas sensacionais e descobrir muito! Por exemplo, eu gosto muito de artes plásticas e eu comecei a descobrir novos artistas no Instagram! Usar as redes sociais de uma maneira mais proveitosa. Não estou falando que não é divertido fazer selfies ou postar coisas com amigos. No caso de pessoas que têm vida pública, é bacana usar como ferramenta de trabalho, fazer propaganda. Mas eu acho ainda estamos deixando a desejar.

Monica quebrou tudo nessa entrevista. Inclusive o microfone.

 

Por ironia do destino, você está interpretando uma personagem que é totalmente envolvida nesse universo. Como que você fez? Reaprendeu a gostar?

Eu acho que a Kim me trouxe um aprendizado muito particular. Eu não imaginava que existisse um universo tão vasto de pessoas que trabalham como influenciadoras digitais. Tem muita gente, com um público muito grande, são todos os temas possíveis, desde cachorro até moda, comportamento, venda de produtos… Enfim, tem tudo! Eu fiquei bem chocada. A quantidade de dinheiro é muito grande também. Porque a gente brinca muito na novela com esse formato. Têm as meninas que ficam ali se produzindo, postando. Eu acho que nas redes sociais na vida real é um pouquinho diferente, é profissional em um nível que eu acho que a Kim e as assessoradas dela ainda não alcançaram. Porque, se você parar para pensar, você ter uma celebridade que tem milhões de seguidores e essa pessoa vai vender diretamente o produto para esses consumidores sem precisar passar por uma agência de publicidade, sem vender esse anúncio no jornal ou em TV. Você acelera o processo e o alcance é muito mais rápido! Você pode fazer um story em 15 segundos e em outro você já está falando diretamente com o seu público. Tem um poder de grana, de mercado, que eu fiquei muito assustada! Eu realmente não imaginava! A gente pensa que quem faz sucesso na internet é a pessoa que pegou o celular, começou a falar uns negócios e de repente “wow!” 10 milhões de seguidores e a pessoa está rica! Não é bem por aí… Hoje já tem muita gente que trabalha de uma maneira muito profissional desde o começo. Isso eu fiquei chocada.

Qual é o motivo de haver uma resistência das mulheres no humor?

O que eu vejo a respeito disso é que tudo é muito intuitivo. Eu não sei se o que eu vou falar é uma regra geral. Eu acho que o humor, durante muito tempo, foi depreciativo. Era aquele humor que você ia tirar sarro da cara de outra pessoa. E nesse grupo de “outros” tinha o pobre, o nordestino, o gordo, o homossexual, a mulher — que durante muito tempo foi aquela figura muito bonita e estúpida, ou muito feia que gerava o riso por ser feia. E, talvez, por ser um dos grupos depreciados, fosse um pouco mais difícil a mulher estar no humor sem estar nesses dois papéis. É claro que sempre tivemos exceções incríveis, como Dercy Gonçalves. Mas se você parar para pensar, os programas antigos de humor era isso, e tinham somente uma humorista mulher. Tinha a Berta Loran, depois a Fafi Siqueira. Mulheres que faziam humor e não estavam nesses papéis que eu disse eram muito raras. Acho que agora com essa desconstrução desse humor tão depreciativo fica mais fácil para a mulher trabalhar com humor. Nos programas de hoje nós vemos que o número de homens e mulheres é bem próximo. E é um humor no qual nós vamos rir juntos de uma situação. Não vamos escolher um grupo e falar “vamos tirar sarro daqueles, vamos rir daqueles”. Eu acho que isso é sensacional e espero que continue assim.

Você participou de um famoso programa humorístico. Competiu com cerca de 28 mil pessoas. Como que foi trabalhar em um ambiente que só tinha homens, um ambiente de humor? 

No começo foi muito difícil. Eu não sou humorista. Eu não fazia stand-up. Eu nunca fui humorista. Eu sou atriz, eu tinha acabado de me formar na faculdade de teatro  e meu espetáculo de formatura foi uma tragédia grega! Então para mim tudo foi muito rápido e o começo eu não sabia muito bem o que eu estava fazendo. Eu realmente não sabia o que eu estava fazendo ali. Eu ia improvisando com o que aparecia e torcia para, de alguma maneira, aquilo gerar uma surpresa e, talvez, quem sabe, ficar engraçado.

Você bateu de frente com políticos. Tomou até porrada . Como foi isso?

Aquele lá/ morreu. Eu não lembro o nome dele (Nelson Trad, PMDB/MS). Ele era do Mato Grosso ou do Mato Grosso do Sul e era aqueles políticos de carreira. Aquele típico político brasileiro: homem, branco, de meia idade, que acha que pode fazer o que quiser com quem quiser. Era o político da velha política. Muitos deles que têm esse perfil, quando nós íamos conversar, perdiam as estribeiras, principalmente quando falávamos sobre denúncias. Eu era mulher, então havia um respaldo de não ser agredida fisicamente, mas já aconteceu. Os meninos apanharam muito, de sair machucados.

Como você sobreviveu àquele ambiente negativo? Você viu de perto a sujeira? Conseguiu entender o motivo de existir tanta sujeira naquele ambiente?

Ai, é uma tristeza, né? Eu acho que a política do Brasil foi desenvolvendo, ao longo de todos esses anos, um mecanismo tão bem estruturado. É tão fácil você roubar dinheiro público no Brasil, não tem uma estrutura que impeça que o roubo aconteça e depois a gente fica correndo atrás do prejuízo.Tem grupos muito bem estabelecidos, há muito tempo, que mamam na política desde sempre. Essas pessoas vão fazendo esses conchavos. É como se fosse uma fábrica, que já funciona há tantos anos e está tudo tão claro: quem é quem, quem rouba como. É tudo muito fácil, e você esperar que as pessoas sejam incorruptíveis… isso nunca vai acontecer. O ser humano é corruptível. A ideia é que a gente melhore com o passar dos anos, mas a gente precisa ter instituições mais fortes. Não tem como você impedir que pessoas desonestas entrem na política.O que eu fiquei assustada lá foi de ver como a coisa é institucionalizada. Eu percebia naquela época é que tinha gente boa lá dentro, sim. Aliás, pessoas admiráveis e com uma postura heróica. Mas a maioria realmente não estava ali pensando em melhorar a vida do povo. A maioria estava ali para se beneficiar e beneficiar um grupo específico. E isso me deixou muito chocada, mas também me fez admirar muito quem está lá pelos motivos corretos. 

E continuando sobre o CQC. Uma pergunta que hoje todo mundo faz para os humoristas, graças ao seu colega Rafinha Bastos: Qual é o limite do humor?

Essa não é uma pergunta que tenha uma resposta rápida, fácil, objetiva. Mas dizer que não existe limite, quer dizer, vale tudo para conseguir a risada do público? Eu também não acredito nisso. “Ah, mas é o bom senso”, pois é, mas também o que é o bom senso? Uma coisa pode soar ok para mim e você sentir que é completamente agressiva. Você precisa buscar esse equilíbrio: “como é que eu faço o humor alcançando o maior número de pessoas possível sem precisar agredir alguém ou um grupo para isso?”. Esse é o humor que me agrada, esse é o humor que eu buscava e que eu gosto de assistir. O humor de alguém tirando sarro de outra pessoa não faz muito sentido para mim. A ideia do humor é trazer alegria, então vamos trazer alegria para todo mundo!

Atriz, repórter ou apresentadora? Em uma ordem de preferência.

Eu acho que atriz em primeiro. É o que eu queria ser desde pequenininha! Eu lembro de ser muito pequena e estar assistindo novela e eu queria muito ser atriz. As minhas principais referências eram as novelas e filmes. Eu lembro de sonhar muito em fazer novela, queria muito ser a Renata Sorrah fazendo a Heleninha Roitman em Vale Tudo!

Há chances de te vermos novamente como apresentadora?

Claro! Eu amo! A gente pode ter várias áreas de interesse na vida. Estou mais focada em atuar agora, porque eu acho que ainda não consegui diversificar o meu trabalho como eu gostaria. Esse ano faz 10 anos que eu estou na televisão e as pessoas me conhecem muito pelo humor, que eu gosto muito, mas estou com vontade de fazer outras coisas. Já comecei a fazer e agora eu quero mergulhar mais. A minha grande paixão é essa. Mas eu pretendo voltar a trabalhar como apresentadora, mas com algo mais “meu”, que tenha a minha cara, a minha assinatura, que eu participe de todo o projeto.

Confira o vídeo completo no nosso Instagram.

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Agradecimentos: Thais Martinelli, Fabiana Silva e Rede Globo.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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