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Inspirado em Frank Zappa, Milton Trajano retrata poesia minimalista do futebol

por: Kauê Vieira


Os traços falam mais do que palavras. Nada contra com quem, assim como eu, garante o pão de cada dia com a escrita. Aqui pra nós, você já parou para pensar no impacto de uma imagem, fotografia ou um desenho no seu cérebro? 

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Conhecedores como ninguém dos poderes dos traços cartunistas e chargistas resistem em um mundo, com o perdão da contradição, pautado pela imagem. Em minha defesa, o primeiro parágrafo desta matéria trata da imagem no sentido poético. Da observação, não no imediatismo das barras de rolagem. 

Milton dá poesia ao futebol

O Hypeness conversou com Milton Trajano, cartunista com mais de 20 anos de carreira e com passagens por veículos como Folha de São Paulo, Yahoo e Placar. Formado em Artes-plásticas, Trajano se considera um cartunista de nascença. 

“Comecei profissionalmente a carreira sendo um dos três vencedores do primeiro concurso de quadrinhos da Folha de São Paulo. Passei a infância me nutrindo dos antigos desenhos animados da década de 1960 e também os japoneses. O meu trabalho tem essa referência muito clara”, pontua. 

Especializado em retratar momentos esportivos, principalmente do futebol, Milton começou com tirinhas na Folha inspiradas na música ‘Camarillo Brillo’, de Frank Zappa. Ele fala ao Hypeness sobre o poder transgressor e criativo dos cartuns e como a relação entre lápis e o esporte mais popular do mundo se formou. 

“O desenho veio primeiro na minha vida. Acho que aquele momento mágico, em que se vê o traço de um giz de cera sendo deixado numa folha de papel, foi a paixão que tenho até hoje, cada vez que desenho. O cartum me mantém informado com as atualidades do futebol, pois tenho que caçar temas que rendam charges. Nesse sentido, é uma coisa que remete à outra, mas a paixão pelo futebol é independente do fato de ser um artista”, destaca. 

Sem deixar de lado a ironia do humor

Os trabalhos de Milton Trajano chamam a atenção pelos traços minimalistas e por fugir da obviedade. O futebol, você deve saber, atravessa um dos momentos mais chatos e caretas de sua história. O tal imediatismo invadiu redações de jornais e TVs, que apostam em debates arrastados e cansativos sobre o mesmo tema em uma tentativa desesperada de manter bons números de audiência. 

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Com Milton á coisa é diferente. Também pudera, não é qualquer um que consegue traduzir em desenhos em páginas de jornal a criatividade caótica de Frank Zappa. Por falar em criatividade o VAR, ou árbitro de vídeo, é o tema principal das últimas postagens na página do artista seguido por milhares de pessoas no Instagram.

“O futebol é tão cheio de problemas estruturais. O VAR é mais um que veio somar forças ao ‘timaço’.  É sempre uma situação cômica o fato de homem e máquina não chegarem a um acordo. Visualmente rende!”. 


Ao contrário de muitos atacantes por aí, para Milton Trajano a confusão e chuva de gols anulados pelo VAR auxilia no processo criativo como cartunista. Até porque, o que a gente quer mesmo é polêmica. 

“O VAR não atrapalha e nem ajuda no processo criativo. Já como cartunista, ele ajuda claro! Quanto mais polêmica, melhor para o cartum. Ainda que em detrimento disso, golaços sejam anulados. Mas mesmo essa coisa de narrador se esguelar gritando ‘GOL’ e depois dizer que não valeu, é muito engraçada!”, reflete. 

Velejando nesse infomar 

Anunciaram e garantiram por aí que o mundo ia se acabar. Em bom ‘internetêstermo para se referir ao ‘idioma’ usado nas redes sociais – ‘flopou’. Deu errado. Nem 2012 freou nossa existência. 

Outra vítima comum de profecias terminais, os jornais seguem firmes e fortes. Não com a mesma virilidade de antes, mas ainda é possível encontrar o bom e velho impresso na banca da esquina. 

O árbitro de vídeo ajuda no processo criativo de Milton Trajano

No entanto, não dá pra negar que as redes sociais transformaram o jornalismo. Há quem diga que pra melhor. A notícia não está mais sob domínio de meia dúzia de veículos de informação e a pluralidade de ideias contribui para que a imprensa (nós do Hypeness inclusos) exerça o papel de responsabilidade social que pauta os manuais de redação Brasil afora. 

Milton explica que as redes sociais não prejudicaram o seu trabalho. Pelo contrário, a visibilidade só aumentou. “A internet ajudou a expandir meu trabalho de uma forma impossível e inimaginável outrora”, celebra. 

O cartunista acrescenta, “desenho os gols em tempo real e já os posto. Segundos depois, a arte já se alastra pelas redes sociais, grupos de WhatsApp, etc! Não deixo de me surpreender com a boa repercussão do meu trabalho pela internet. Me deixa muito feliz, pois desde os tempos de escola, eu desenhava e gostava de ver aquela roda de amigos vendo os meus desenhos de futebol. Hoje essa roda chega até o Japão!”

Humor transgressivo 

Os cartuns são, historicamente, espaços de resistência. A luta dos negros norte-americanos pelos direitos civis não seria a mesma sem os traços do ilustrador Emory Douglas. 

O membro do Partido dos Panteras Negras ganhou fama nas décadas de 1960 e 1970 por desenhos publicados na revista do grupo pela liberação e poder negro. 


Milton diz buscar tratar de assuntos tão presentes no futebol como racismo e homofobia. Ele, no entanto, destaca o cuidado para não escorregar. 

“É uma questão delicada, e muito séria. Assim que procuro tratá-la. Sendo o futebol um meio machista por natureza, creio que haja maior resistência a se incorporar aos tempos atuais. O cartum é muito poderoso, claro. Mas como meu viés é o humor, tenho que ser duplamente cauteloso, porque sempre se espera um riso de algo que eu crie. Homofobia e racismo não são motivo de piada, em nenhuma circunstância”, encerra. 

Você pode acompanhar o trabalho de Milton Trajano no Instagram. 

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Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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