Diversidade

Mulher trans morta em SP sonhava ser médica e teve nome social ignorado em B.O.

por: Yuri Ferreira


Mais uma vítima da LGBTfobia em São Paulo. Dessa vez, Lorena Vicente, de 23 anos, entrou para as estatísticas do país que mais mata pessoas trans no mundo. O crime aconteceu no Jardim São Luís, zona sul da capital paulista. A suspeita é que o assassino seja um familiar de Lorena.

Lorena completava o ensino médio no EJA (Escola de Jovens e Adultos) e sonhava em cursar medicina. Entretanto, tudo foi interrompido após a jovem ser espancada e não resistir aos ferimentos.

– Por isqueiro, trans sofre agressão física, descaso policial e deboche em hospital

A morte de Lorena evidencia uma das mais perversas faces da LGBTfobia no país

Mesmo após a resolução do STF que postula transfobia como crime, a polícia não registrou a jovem com seu nome social no Boletim de Ocorrência e não revelou se está adotando esse linha de investigação para o crime. Uma lei municipal de SP exige que pessoas trans sejam identificadas por seu nome social em seus documentos oficiais.

Não é a primeira vez que uma tragédia relacionada ao preconceito contra a identidade de gênero de Lorena acontece: seu irmão, Petherson Roberto dos Santos, também foi assassinado há dois anos ao defender a irmã de ataques transfóbicos.

“Ela queria ser médica, mas sabia que era difícil. As pessoas transexuais não têm oportunidade, você não vê médico transexual, advogado transexual… A sociedade as vê como pestes, mas ela ia atrás, queria viver o sonho dela”, disse Severino Honorato, professor de História da jovem no ensino médio, em entrevista ao UOL.

“Nós, professores, quando perdemos um aluno sentimos que um pedaço nosso morre. O caso da Lorena é especial, ela era uma pessoa invisível para a sociedade, viveu momentos muito difíceis”, adicionou Severino. “Estou nessa escola há 22 anos e não aguento mais ver aluno meu enterrado”.

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. Mesmo que muita gente, como a deputada Erica Malunguinho, a primeira parlamentar trans da história de São Paulo, lute para mudar isso, ainda estamos muito longe da mudança e do fim da LGBTfobia. Erica esteve presente no funeral de Lorena, realizado ontem, dia 17 de outubro, na Escola Estadual Reverendo Jaques, no bairro do Jardim São Luís, em São Paulo.

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Lorena Vicente, estudante e trans de 23 anos, foi brutalmente assassinada na noite da segunda-feira (14), no Jardim São Luís, Zona Sul de São Paulo. – Ontem estivemos na Escola Estadual Reverendo Jacques, onde Lorena estudava, para prestar homenagem juntamente aos seus professores e colegas. – A estudante do Ensino para Jovens e Adultos (EJA) foi espancada até a morte. Há dois anos, em outro episódio igualmente cruel, o irmão da estudante foi espancado até a morte ao defendê-la de um agressor. – O caso de Lorena não foi noticiado! . Correspondendo à vergonhosa estatística do país que mais mata transgêneres no mundo, a história de vida de Lorena foi marcada pela violência e negação de sua humanidade. – Assim como todas as pessoas, Lorena tinha uma vida, toda cheia, de sonhos pela frente. Estava constantemente negociando seu pertencimento, quando teve seus anseios interrompidos pela transfobia. – Lorena gostava de escrever, sonhava em cursar medicina e estava muito próxima de concluir o Ensino Médio pelo EJA. Em uma das redações que fez para a escola, registrou seus planos: “O jovem acorda cedo, sai da cama com alegria, é mais um dia de aula para melhor sabedoria. Não posso uma aula perder, pois se tenho um objetivo tenho que exercer”. – #vidastransimportam #paremdenosmatar #mandataquilombo #alternânciadepoder #reintegraçaodeposse

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Foto: Arquivo Pessoal


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @yurifen.

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