Ciência

Nem animal, nem planta nem fungo: um ser vivo surreal com 720 sexos e sem cérebro

por: Vitor Paiva

Se alguém aí acha a natureza humana complexa demais para ser compreendida, então prepara-se para conhecer o Physarum polycephalum, mais conhecido simplesmente como Blob. Trata-se de um dos organismos mais incríveis do já descobertos, capaz de espantar a qualquer um e questionar tudo que se pode imaginar a respeito da vida e do funcionamento da natureza. A começar por sua própria definição: ele se comporta em partes como um animal, em partes como um fungo, e ora como uma planta, mas não é nenhum dos três – e já existia 500 milhões de anos antes dos seres humanos.

O Blob não tem boca, estômago, olhos, braços, pernas, nem cérebro – mas é capaz de se mover, se alimentar, se regenerar em questão de minutos e ainda de aprender e até transmitir conhecimento. Como se não bastasse, não há, em seu funcionamento natural, a definição restrita a macho ou fêmea, mas sim 720 sexos diferentes para se reproduzir.

Claro que não se trata da noção cultural de sexualidade, mas sim dado referente ao número de células sexuais que esse inacreditável organismo é capaz de produzir com o objetivo da reprodução. Seu nome científico significa “bolor de várias cabeças”, mas seu apelido vem do clássico filme trash A Bolha Assassina (The Blob, em inglês), de 1988.

Normalmente de coloração amarelada, o Blob era considerado um fungo, mas foi redefinido nos anos 1990 como um organismo do grupo do mixomicetos, um bolor limoso, da família das amebas. Esse ser possui somente uma célula, ocasionalmente com muitos núcleos, capazes de replicar seu DNA, se dividir, e se mover a até um centímetro por hora. É normalmente encontrado em pontos com decomposição de folhas, troncos de árvore e outros locais úmidos. E não para por aí: através de um mecanismo de defesa que o coloca em uma espécie de hibernação e o torna “seco” diante de uma ameaça, o Blob é praticamente imortal.

Depois de seco, porém, ele revive com facilidade – inclusive se posto no micro-ondas com gotas de água por alguns minutos. Talvez seu ponto mais espantoso, porém, seja a capacidade de aprendizado: mesmo sem sistema nervoso central, a criatura é capaz de mudar seu comportamento padrão a partir de experiências, adaptando, por exemplo, seu caminho até um alimento. E experimentos em laboratório comprovaram que, ao se fundir com outro Blob, é capaz de transmitir esse conhecimento. Não é por acaso, portanto, que o Physarum polycephalum passará a ser exibido no zoológico de Paris a partir do próximo final de semana: Como bem disse Bruno David, o Blob é “realmente uma das coisas mais extraordinárias que existem hoje na Terra”.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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