Reportagem Hypeness

Observatório do Racismo questiona normalização do preconceito no futebol

por: Kauê Vieira

O substantivo resistência descreve como nenhum outro o cenário atual do futebol. Quer dizer, o termo pode ser empregado em todos os momentos do esporte mais popular do mundo. Só que não no bom sentido. 

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O mundo do futebol resiste ao desenvolvimento com todas as forças. Afinal, quem não se lembra daquele comentarista de cara amarrada dizendo que lugar de mulher é não sei onde? Além do machismo e homofobia que desfilam na sua TV todos os dias, o futebol é representado pelo racismo

A modalidade imortalizada e até hoje protagonizada por negros elegeu os pretos algozes de uma sociedade estruturada pelo racismo, mas que não faz a menor questão de se desenvolver. 

Roger Machado e Marcão são os ÚNICOS técnicos negros na Série A

“A estrutura do esporte, do futebol, é muito racista. Temos jogadores negros, mas é chão da fábrica. Não temos dirigentes, treinadores ou comentaristas negros. Se a grande maioria dos atletas são negros, como não temos a representatividade nas bancadas? Cito o fato de não termos jornalistas e comentaristas negros – que influencia muito na falta de mudança do cenário”, explica ao Hypeness Marcelo Carvalho, fundador do Observatório do Racismo. 

A plataforma nasce para combater a discriminação racial no universo que cerca o futebol. Além de mapear os casos de racismo dentro de campo, o Observatório do Racismo propõe ações com torcedores e jogadores para virar o jogo. 

Marcelo diz que o ímpeto de não fazer vistas grossas  – algo corriqueiro na história brasileira – vem do fato de ter nascido com a pele da cor da noite. “O propulsor do projeto é o incômodo com a questão racial”, ele explica. 

“Quero pensar um mundo melhor para nossos filhos, para a meninada negra que vem vindo. Precisamos construir uma base legal. É o meu próprio dia a dia – um rapaz negro que aprendeu a ter algumas condutas por conta do racismo”, acrescenta.  

Os últimos anos ficaram marcados por campanhas contra o racismo. Desde a FIFA – entidade máxima do futebol -, até federações regionais, todo mundo busca seu lugar ao sol e formas de demonstrar comprometimento em prol da diversidade. 

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Aqui pra nós, pouca coisa muda com bandeiras, placas ou ações envolvendo jogadores. Recentemente, atletas negros da seleção da Inglaterra foram alvo de cânticos racistas e até saudações nazistas de torcedores da Bulgária. A comoção tomou conta das capas de jornais do mundo todo. Agora, além do pedido de demissão do presidente da federação búlgara, Borislav Mihaylov, pouca coisa aconteceu. 

Embora tenha entrado na pauta dos inúmeros programas esportivos de rádio e TV, o assunto foi abordado com certo constrangimento pelos membros da imprensa, em sua imensa maioria brancos. 

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Elton Serra é jornalista e colaborador dos canais ESPN e TVE Bahia. Ao Hypeness, ele aponta para a existência de um padrão de beleza que excluiu as pessoas negras, que tirando alguns ex-atletas de pele escura, são mantidos no limbo. 

“Ao longo dos anos, a televisão criou o estereótipo do ‘rostinho bonito’. Para muitos dos comandantes dos veículos de comunicação, esse perfil se encaixava em pessoas brancas. Isso perdura até hoje, salvo algumas exceções. No esporte, nem se fala. Esse preconceito se ampliava às mulheres, também. E mulheres negras. É um racismo estrutural que perdura há décadas”, enfatiza. 

Marcelo vai na mesma linha. O fundador do Observatório do Racismo acusa a imprensa esportiva de falar sobre racismo, machismo e LGBTfobia de forma rasa. 

“Vejo alguns debates de programas esportivos e 100% das pessoas na roda são homens héteros e brancos. O assunto nunca é tratado da maneira devida. Acho que a imprensa fala do caso porque muitas vezes não tem como fugir”, opina. 

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Dos 20 clubes disputando a Série A do Campeonato Brasileiro, apenas dois são treinados por negros. Marcão, técnico interino do Fluminense e Roger Machado, à frente do Bahia. 

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Machado, que nos tempos de jogador defendeu as cores do Fluminense, protagonizou um desabafo marcante sobre o cenário calamitoso. Depois de enfrentar o Fluzão no Maracanã, o técnico gaúcho foi sucinto e direto em seu depoimento sobre o racismo que estrutura a dinâmica do futebol. Veja a seguir. 

Minha posição como negro na elite do futebol condiz com isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou ao restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Você está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui.

Os debates sobre futebol são protagonizados por brancos

O assunto repercutiu além dos muros do futebol, mas não conseguiu espaço na monotonia dos noticiários futebolísticos. Causa estranheza, pois a grande parte da imprensa reclama da falta de criatividade das coletivas de jogadores e técnicos. 

Ora, como um prato cheio como o racismo no futebol não comove o suficiente para ser debatido antes de uma discussão ‘polêmica’ sobre impedimento ou árbitro de vídeo? “Falta entender que essa discussão é necessária. A maioria dos chefes ainda não entendeu o que é lugar de fala. Esse assunto ainda é tratado como publicidade na maioria das redações”, se posiciona Elton Serra. 

O jornalista soteropolitano destaca que “a imprensa esportiva não está preparada para discutir sobre racismo. Já escrevi sobre isso, inclusive.” 

O fato de se debruçar em análises técnicas e táticas tira da maioria a capacidade de buscar conhecimento além do esporte. Quando se deparam com temas como esse, não sabem abrir discussão. Logicamente que a falta de alguém com lugar de fala também influencia nessa acefalia cultural, mas a imprensa não está preparada para falar sobre temas como homofobia, misoginia e machismo, por exemplo, com raríssimas exceções.

O Observatório do Racismo cobra medidas concretas para a conscientização. Marcelo e equipe promoveram o encontro de Roger Machado e Marcão antes da partida entre Fluminense e Bahia. Os dois posaram para os fotógrafos vestindo uma camisa especial contra a discriminação. O diretor do Observatório do Racismo, no entanto, reclama da falta de parceria da imprensa esportiva. 

“A imprensa dá visibilidade para algumas ações feitas pelo Observatório do Racismo. Em outras não dá nenhuma. Não adianta falar só do incidente, temos que falar de ações que são feitas para combater o racismo. A imprensa tem papel fundamental quando noticia, mas precisa dar um passo à frente e tratar o tema com mais seriedade. Sem as piadas”, ressalta. 

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Existem vozes dissonantes como o próprio Elton Serra ou Breiller Pires, que propõem uma análise sociológica do futebol. Avisa nossa amigo que sociedade, polícia e futebol estão ligados.

“Futebol e sociedade se misturam. O futebol no Brasil surgiu nas elites, passou a ser popular e agora está se elitizando perigosamente. Assim é a nossa sociedade. O futebol tem a capacidade de mobilizar pessoas. Quando você usa o esporte como ferramenta de conscientização, você sabe que está atingindo milhares de pessoas. E o racismo acontece muito dentro do futebol. Se a gente não atacar esse problema, ele volta para a sociedade ainda mais forte”, reflete Serra. 

Evidente que a culpa não é só da imprensa. Os clubes parecem acomodados com a situação. O Observatório do Racismo recebe diversas denúncias de torcedores, mas encontra dificuldades de se aproximar das agremiações. 

“Participamos de ações com alguns clubes que nem citavam o nome do Observatório do Racismo como integrante. Precisamos do apoio financeiro dos clubes. Alguns clubes nos procuraram, davámos sugestões, mas não tínhamos retorno financeiro”, lamenta Marcelo.  

#ChegaDePreconceito 

O fato é que o futebol não está desassociado das nuances que formam o tecido social. Seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. Por mais que tentem te convencer que política e futebol são como água e óleo – não se misturam – não acredite, provavelmente esta pessoas está gozando de muitos privilégios. 

Elton Serra apresenta esta possibilidade ao falar com naturalidade de racismo e defender a diversidade em suas colunas ou comentários sobre futebol. Com isso, o comunicador assume o compromisso com a responsabilidade social que norteia o jornalismo. 

Acredito que reforçar nossa identidade é fundamental para a construção de um profissional. Nós somos formados pela bagagem que carregamos ao longo da vida. Ser negro, competente e com espaço relevante na sociedade só reforça a tese de que é possível ter uma sociedade igualitária. Para que isso aconteça, porém, é preciso lutar por esse espaço, prontamente negado por conta do racismo estrutural. É a nossa missão abrir esses espaços, que são nossos. O maior problema seria negar tudo isso. A luta não é por privilégios, e sim por igualdade. Felizmente, me sinto orgulho de ser negro e defender essa bandeira todos os dias. 

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Nessa linha, o Observatório do Racismo levanta a bandeira da campanha #ChegaDePreconceito, que pretende atingir “certa notoriedade por mostrar e denunciar” casos de racismo no futebol. 

“Não temos uma referência negra que pise no gramado”, diz Marcelo, que destaca a visibilidade alcançada com a fala contundente e necessária de Roger Machado.  

“[Roger Machado] É um atleta na ativa falando sobre a questão racial com embasamento. O Roger tá falando de racismo sem ter sofrido um incidente durante a partida. Por isso que surgiu a ideia de dar a camiseta ao Roger e Marcão. As falas deles ganhariam mais força com a camiseta, porque o Brasil veria que eles estavam fincando a bandeira da luta contra o racismo e a falta de oportunidade para pessoas negras”, conclui. 

Marcelo Carvalho, aliás, esteve na sede do Ministério do Esporte para apresentar o Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol, que reúne os casos de racismo no futebol brasileiro. Ele destaca dois fatores que contribuem para o aumento constante dos registros. 

“Os casos de racismo aumentam anualmente. Tivemos 43 em 2017 e 44 em 2018. Neste ano, estamos com 39 casos denunciados. Dois fatores contribuem com os números, o crescimento de uma direita intolerante e preconceituosa e a conscientização de jogadores e torcedores. Antigamente, o jogador vítima de racismo preferia não falar do assunto ou não denunciar. Hoje, há uma grande quantidade de atletas que sofrem racismo e não se calam. Os torcedores também começaram a perceber atos de racismo e denunciar. Eles nos mandam vídeos nas redes sociais e isso é fundamental para o aumento da conscientização”.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Observatório do Racismo/foto 2: Chris Brunskill Ltd/Getty Images/foto 3: Reprodução/FOX Sports/foto 4: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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