Matéria Especial Hypeness

Por que a luta por democracia não existe sem Angela Davis

por: Kauê Vieira

Angela Davis plantou encantamento por onde passou. A ativista norte-americana esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro em outubro e falou para milhares de pessoas sobre a importância da liberdade de mulheres negras para a garantia do desenvolvimento social. 

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Davis questionou um regime democrático que convive com opressões e, mais uma vez, apontou para a inviabilidade da sociedade capitalista. As reflexões de Angela sobre os rumos da democracia, a relevância do feminismo negro e a batalha pela liberdade atraiu multidões. Só em São Paulo, no Parque Ibirapuera, 12 mil pessoas assistiram ao debate encabeçado pela norte-americana. Parecia show. E era, um dos nomes mais importantes pela liberação de afro-americanos estava disposta e dividir um pouco de seu conhecimento. 

Na verdade, como de costume para esta senhora de 75 anos nascida em uma das cidades mais racistas dos Estados Unidos do século 20, Birmingham, Alabama, o altruísmo é mais importante. Mesmo ciente do impacto gerado por suas palavras, Angela Davis conclamou brasileiros e brasileiras a se apropriarem da obra de Lélia Gonzalez e Carolina Maria de Jesus, só para ficar em duas expoentes da trajetória pela emancipação negra no Brasil. 

“Eu não deveria ser uma referência. Não gosto de me ver como ícone”, reforçou durante seminário em São Paulo em que o Hypeness marcou presença. 

O início 

Angela Yvonne Davis veio ao mundo em um ambiente dos mais hostis. Davis nasceu em Birmingham, capital do Alabama, considerado um dos estados mais racistas dos EUA. Até os dias de hoje. 

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Os primeiros anos de vida da filósofa deram o tom para os enfrentamentos que viriam a seguir. Em seu bairro, Angela tinha que conviver com explosões de casas e igrejas. Uma das responsáveis por espalhar o terror era a seita racista Ku Klux Klan, que agia com violência extrema contra afro-americanos. 

Discurso para estudantes na Califórnia, em 1969

Talvez o maior trauma de sua vida tenha sido a notícia da morte de quatro garotinhas negras, vítimas de um ataque a bomba realizado por terroristas da Ku Klux Klan contra uma igreja de Birmingham. Angela fala com pesar sobre o assunto até os dias de hoje. 

“Não vamos fazer de conta que estamos celebrando o final da violência racista e o triunfo da democracia”, declarou Angela Davis ao Democracy Now durante o aniversário de 50 anos do ataque terrorista no Alabama. 

“Sempre disse que uma das minhas primeiras memórias de infância era o som de explosões de dinamite. Casas na rua onde nasci eram bombardeadas assim que se tornavam lar de pessoas negras. Tantas bombas atingiram o bairro onde cresci, que ele passou a se chamar ‘Colina da Dinamite’”, acrescentou.  

Luta por liberdade

A morte das quatro jovens negras foi o estopim para Angela Davis seguir seu destino. Com a experiência de quem havia organizado grupos de estudo de raça na adolescência e, claro, perseguida pela polícia, a jovem na casa dos seus 20 e poucos anos abraçou a luta pela emancipação negra. 

Os Estados Unidos viviam um momento de ebulição tremendo. Em meio ao discurso antagônico e complementar de Martin Luther King Jr. e Malcolm X – ambos na mira de autoridades do FBI –, Davis rumou para a vida acadêmica e se matriculou no  curso de filosofia da Universidade de Brandeis, em Massachusetts, onde conheceu o filósofo da Escola de Frankfurt Herbert Marcuse. A relação entre os dois fez com que Angela Davis decidisse viver na Alemanha. 

A angústia com a situação no país natal foi responsável pelo regresso de Angela Davis aos Estados Unidos. Voltou conhecida pelo posicionamento feminista e como membra do Partido Comunista norte-americano, além de manter relações com os Panteras Negras em Los Angeles. 

Aliás, foi na Califórnia que Davis iniciou a trajetória na UCLA (Universidade da Califórnia), onde viria a se tornar professora emérita do departamento de estudos feministas. Mas antes, em 1969, perdeu o emprego de professora de filosofia acusada pela associação com o comunismo e os Panteras Negras. O responsável pelo ato foi o então governador e futuro presidente Ronald Reagan, um verdadeiro paranóico com um suposto ataque comunista. 

“Quando penso que Ronald Reagan era governador da Califórnia e Richard Nixon presidente dos Estados Unidos…todo o sistema estava armado contra mim. Eles tinha todos os recursos, o FBI, a polícia e eles queriam me mandar para a câmara morte para mandar uma mensagem”. 

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O julgamento de Davis expôs o racismo judiciário dos EUA

Angela, que além de comunista lutava contra a segregação racial, entrou na mira do FBI. A vigilância da polícia federal dos Estados Unidos comandada pelo controverso J. Edgar Hoover aumentou em outubro de 1970. Davis se tornou a terceira mulher na lista das pessoas mais procuradas pelo FBI. 

Ela era acusada de ter adquirido armas para Jonathan P. Jackson, que invadiu uma corte na Califórnia e fez reféns em troca da liberdade de três prisioneiros negros, ‘The Soledad Brothers’, acusados de matar um agente penitenciário branco. Depois de fugir pelo país passando pelos estados de Illinois e Flórida, Angela Davis foi presa pelos oficiais do FBI em um hotel em Nova York. 

O julgamento 

A associação de Angela Davis ao terrorismo revelou uma faceta já conhecida da sociedade norte-americana. O racismo, claro. Veja bem, a Ku Klux Klan trocou o terror em bairros negros, destruiu famílias, inclusive a de Malcolm X, mas nunca sofreu sanções. 

Embora tenha sido autuado criminalmente, David Duke, um dos líderes da KKK, chegou a ter mais liberdade para disseminar seu preconceito do que Angela Davis de defender a igualdade de direitos. 

Portanto, os meses que seguiram o julgamento de Angela Davis serviram para escancarar o racismo que corrói o sistema judiciário dos Estados Unidos. O episódio gerou uma campanha pela sua liberdade por todo o país. 

Milhares de pessoas se organizaram em movimentos exigindo a soltura da professora universitária e ativista do movimento negro dos EUA. Angela Davis foi libertada pelo estado de Nova York em 1972, depois de 16 meses de prisão. 

“Uma pessoa negra que vive em um bairro negro a vida toda sempre vai dar de cara com o policial branco na espreita. Viver constantemente numa situação dessas e ser perguntada se aprovo ou não a violência. Isso não faz sentido algum”. 

Livre, Angela Davis não perdeu tempo e embarcou para uma espécie de turnê internacional. A norte-americana discursou na Alemanha e estreitou relações com Cuba, onde foi recebida por afro-cubanos. 

“Somente o socialismo permitirá que a luta contra o racismo seja bem-sucedida”, disse. 

Angela Davis mudou de patamar depois da perseguição do governo dos Estados Unidos. A ativista chegou a ser candidata à presidência e se tornou uma figura de destaque do feminismo negro e referência acadêmica. Davis luta contra o sistema carcerário norte-americano – o que mais prende no mundo -, contra a desigualdade de gênero e, claro, contra o racismo. 

Recentemente, Angela Davis, digamos, se apresentou para as novas gerações durante a ‘Marcha das Mulheres’ de 2017, um dia depois da posse de Donald Trump. A fala contundente de Davis renovou seus ideias e mostrou que sua luta perpetua por gerações a fio. 

“Nós representamos as poderosas forças de mudança que estão determinadas a impedir que as moribundas culturas do racismo e do patriarcado heterossexual se ergam novamente”.

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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