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Quem é Shelly-Ann-Fisher, a jamaicana que fez Bolt comer poeira

por: Kauê Vieira

O atletismo jamaicano é temido no mundo todo pela qualidade e velocidade de seus atletas. A modalidade, porém, ganhou visibilidade pelo protagonismo dos homens.

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Shelly-Ann-Fisher, quebrando recordes de Usain Bolt

Não que as mulheres fossem menos rápidas. Pelo contrário, a vitória de Shelly-Ann Fraser-Pryce, que destroçou o recorde mundial durante o corrida de 100 metros no Campeonato Mundial de Atletismo da IAAF realizado em Doha, no Catar, dá o tom sobre o tamanho do silenciamento provocado pelo machismo

Aos 32 anos, Shelly-Ann registrou o impressionante tempo de 10.71 segundos, seu quarto título na modalidade e o oitavo título mundial da carreira. Com isso, a jamaicana bateu Usain Bolt, se tornando a maior vencedora dos 100 metros rasos. 

O desafio de manter o desempenho depois dos 30 anos no atletismo é enorme. Shelly-Ann não só deixou Usain Bolt comendo poeira, como entrou para a história dois anos depois do nascimento do filho Zyon. 

“Aqui estou eu, quebrando barreiras e inspirando uma nação de mulheres a continuarem a sonhar. Acreditar que tudo é possível se você acredita, sabe?, disse ela logo após a vitória, que foi acompanhada pelo filho. 

São dois ouros olímpicos na carreira da jamaicana

Shelly-Ann Fraser-Pryce nasceu em Kingston, no final da década de 1980. A jovem cresceu na Waterhouse – um dos bairros mais violentos da capital jamaicana. Ela, literalmente correu para não se tornar parte da triste estatística que cerca a comunidade do país da América Central. 

Assim como acontece com muitas pessoas, sobretudo homens e mulheres negras desfavorecidos socialmente pelo racismo, Fraser encontrou no esporte oportunidade de crescer e orgulhar a família. 

Os primeiros passos vieram aos 21 anos. E que passos. Em 2008, Shelly-Ann Fraser-Pryce se tornou a primeira mulher caribenha a conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, na China. 

A vitória foi o suficiente para torná-la lenda entre os moradores de Waterhouse. Fraser ganhou respeito, um mural e deixou todo mundo feliz da vida. “O mural estava pronto assim que voltei de Pequim. Fiquei chocada. Onde eu moro, apenas pessoas mortas são desenhadas em muros”, disse ao The Guardian. 

O melhor ainda estava por vir. Quatro anos depois, em 2012, a atleta se tornou a terceira mulher a vencer duas medalhas de ouro CONSECUTIVAS em olimpíadas. Fraser-Pryce garantiu o primeiro lugar em Londres. 

Shelly-Ann Fraser-Pryce é filha de mãe solteira. A jamaicana foi criada por Maxine, que vendia produtos na rua para garantir o sustento e estudo dos filhos. Já adulta, criou a ‘Pocket Rocket Foundation’, organização sem fins lucrativos que oferece bolsas de estudo para jovens atletas carentes. 

Mães atletas 

Depois de uma conquista atrás da outra, a atleta se afastou do esporte para dar à luz ao primeiro filho. O retorno aconteceu justamente durante o mundial do Catar. 

“Estar aqui, fazer tudo isso de novo aos 32 anos, e segurando meu bebê. É um sonho que se realiza”, declarou em um momento que se imortaliza como um dos mais bonitos do esporte. 

O mundial de Doha proporcionou outro momento inspirador. Assim como Fraser, a norte-americana Allyson Felix, de 33 anos, quebrou o recorde de Usain Bolt no revezamento 4×400 – dez meses depois de dar à luz. Allyson se tornou a única atleta, entre homens e mulheres, a ganhar 12 medalhas de ouro no campeonato mundial, recorde até então pertencente ao ‘raio’. 

Allyson é uma das protagonistas da luta por igualdade entre homens e mulheres. A atleta peitou a própria patrocinadora, a Nike. Depois que retornou às competições após o nascimento da filha Camryn,  ela viu redução de 70% nos valores de seu contrato de patrocínio

“Nossas vozes são poderosas. Nós atletas sabemos que essas histórias que estão sendo contadas são verdade, mas temos muito medo de dizer publicamente: se tivermos filhos, corremos o risco de nos cortarem (dinheiro) de nossos patrocinadores durante nossa gravidez e depois”, ressaltou. 

Allyson Felix, vencedora e símbolo de luta por equidade

A norte-americana encerrou o vínculo com a empresa norte-americana, mas conseguiu fazer com que a Nike, por meio de anúncio do vice-presidente de marketing global, oficializasse a implementação de uma política não discriminatória. 

Sem querer confundir sua cabeça, afinal trata-se de uma matéria sobre os feitos históricos de Shelly-Ann Fraser-Pryce, mas a luta por igualdade entre homens e mulheres no esporte não é exclusividade do atletismo. 

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A ‘Copa do Mundo’ realizada na França trouxe avanços e uma exposição nunca vista para o futebol feminino. O evento organizado pela FIFA também mostrou o abismo que separa homens e mulheres. No cenário brasileiro, as jogadoras ganham salários comparáveis aos da Série C

Portanto, o exemplo – não de superação – mas de talento absurdo de Shelly-Ann Fraser-Pryce, deve servir para que o mundo, de uma vez por todas, se livre das amarras do machismo. No mais, apreciemos o momento histórico de uma atleta como poucas. 

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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