Seleção Hypeness

A coisa está preta e boa: 11 lugares para fortalecer a consciência negra

por: Kauê Vieira


Novembro é o mês da Consciência Negra. Agora, se engana quem ainda insiste em resumir a maior representação da cultura brasileira aos 30 dias do penúltimo mês do calendário. 

As expressões culturais afro-brasileiras fazem parte do cotidiano de todos que habitam esta terra. Seja em hábitos alimentares como a mandioca ou em palavras como cafuné, a negritude está associada ao significado de ser brasileiro. 

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Portanto, não venha com essa ideia de resumir toda a tradição e representação negra ao mês de novembro. A consciência negra precisa estar presente todos os dias do ano. Afinal, o combate ao racismo se dá com ações práticas que subvertam a ordem de colocar o negro com o sujeito subalterno. 

Encontro de escritoras negras na Katuka, em Salvador

Só encarando a construção sócio-racial de frente para a garantia de um processo de desenvolvimento social justo e inclusivo. Não há como pensar o Brasil sem debater a presença negra.

Pensar a discriminação não está apenas em expor os inúmeros casos de violência, mas também de abrir espaço para centenas de expressões culturais e artísticas de uma gente preta que não quer mais ver a banda passar. 

O Hypeness preparou um roteiro que combina universidade, moda, música e gastronomia. Vamos? 

1- Afro Jam 

Afro Jam, toda última quinta do mês em SP

A noite paulistana ganhou uma alternativa ao hype e ao comportamento truculento de muitos seguranças de algumas casas de shows famosas. A Afro Jam surge inspirada na horizontalidade e nos tradicionais saraus das periferias da maior cidade do Brasil. 

O espaço fica no Bixiga, região central da cidade. Liberdade é palavra de ordem. O microfone permanece aberto a noite toda e as pessoas, devagarinho, se juntam no palco. O resultado é uma viagem de música e debate. Protagonizada por pessoas negras. 

Os encontros acontecem toda a última quinta-feira do mês e promovem uma experiência incrível para pessoas negras. A perversidade do racismo é tanta, que ele ensina que preto e política são palavras rivais. Ou que não dá pra aliar diversão com consciência política. 

Afro Jam, em São Paulo

A Afro Jam coloca a falácia por terra. Hever Alvz, um dos idealizadores do evento, faz questão de introduzir, entre um intervalo e outro, temas como a circulação de dinheiro entre pessoas pretas e a importância de não eleger um lugar específico como a ‘meca negra’. 

Endereço: Rua Treze de Maio, 825|Bela Vista – São Paulo

Na rede social: @afrojamsp 

Quanto: de R$ 5 a R$ 15 

2- Katuka Africanidades 

A Katuka é um espaço de cultura e encontros na Bahia

Deixando a capital paulista para Salvador. Depois da Nigéria, a cidade mais negra do mundo, a capital da Bahia é parada obrigatória para quem deseja se conectar com a cultura afro-brasileira. 

Para além dos clichês de praias e belezas naturais, a cidade com quase 3 milhões de habitantes oferece diversas opções culturais. Uma das mais especiais é a Katuka Africanidades. Gerida por um paulistano radicado há mais de 10 anos em terras baianas, a loja combina moda e literatura. 

“Aqui é uma esquina, um entroncamento, e pra nós que temos relação com as religiões de matrizes africanas o cruzamento de linhas tem um significado muito forte. Nós estamos numa esquina, número 1, aí a relação com o orixá Exu. O dinamismo, a comunicação, a força que permite mudança, que permite alteração”, diz Renato Carneiro, fundador da Katuka, em entrevista ao Hypeness

A loja fica bem pertinho do Pelourinho

Localizada no Centro Histórico de Salvador – poucos metros distante do Pelourinho – a Katuka promove debates e rodas de conversas literárias (regadas com acarajé e cerveja), além de dispor de um catálogo de roupas incrível. 

As peças são projetadas pelo já citado estilista Renato Carneiro, também sócio da loja. Aliás, a Katuka Africanidades tem selo Hypeness de qualidade. Nós estivemos lá e conversamos com Renato sobre a importância do empreendedorismo negro, sobretudo em uma cidade com as nuances de Salvador. 

“O que a gente tá se propondo a fazer aqui com a Katuka, mais do que qualquer outra coisa, é dinamizar mesmo o pensamento e fazer com que nós da comunidade negra e também os não negros passem a refletir mais sobre a questão racial. A gente não se limita só a questão racial, também a questão de gênero, questão da diversidade. São coisas dessa forma”. 

Endereço: Rua Chile, 1|Centro Histórico – Salvador

Na rede social: @katukaafricanidades

3- Era Uma Vez o Mundo 

Já foi visitar Jaciana e a boneca Dandara?

Embora o debate sobre cultura negra tenha se intensificado junto com a implementação das ações afirmativas, a questão financeira ainda é um problema. 

Os negros ultrapassaram os brancos no número de empreendedores, mas carecem de protagonismo nos chamados espaços de poder. Os Racionais Mc’s já cantavam que o sonho de uma pessoa preta não pode se limitar em ter um boteco na quebrada. 

Portanto, destacamos aqui o trabalho da empreendedora Jaciana Melquiades, que criou uma fábrica de sonhos para o brincar. A Era Uma Vez o Mundo oferece uma perspectiva diferente para a infância de meninos e meninas pretinhas com roupas e também bonecas. Na verdade, A BONECA. Dandara é a opção perfeita para você dar de presente neste Natal…pra vida. 


“A criação da Era uma Vez o Mundo tem uma ligação completamente direta com a minha própria vida pessoal e trajetória. Tem uma relação com a minha infância, com as pautas que tive na infância e que só tomei consciência com a maternidade. Quando comecei a pensar coisas que fizessem sentido para uma criança ter. Eu não encontrava essas coisas. Foi quando eu comecei a criar uma série de elementos. Boneco, elementos decorativos, coisas muito básicas para uso pessoal, mas que foram a resolução de um problema que eu identifico acontecendo desde a minha infância”, explicou Jaciana em entrevista ao Hypeness.

Endereço: Rua dos Andradas, 22. LJ 9B.|Centro – Rio de Janeiro 

Nas redes sociais: @eraumavezomundo

4- Terça Afro 

A Terça Afro é um lugar de cura

Aqui o conceito de ubuntu – provérbio africano da coletividade – se aplica perfeitamente. O Terça Afro é um espaço de aquilombamento em meio ao cinza que caracteriza a vida na cidade de São Paulo. 

A iniciativa é fruto da reunião de jovens gestores culturais e promove desde 2012 rodas de conversa em uma casa da zona norte da capital paulista. Mais que isso, o Terça Afro, que possui até livro publicado, é espaço de cura, de inspiração e diálogo. 

Em tempos tão duros e de pouca empatia, puxar uma cadeira e ouvir, ser ouvido, não tem preço. Você pode contribuir para sucesso do projeto na campanha de financiamento coletivo no link

Na rede social: @tercaafro

5- Biblioteca Comunitária Assata Shakur

A bilbioteca preta na quebrada da ZL

A negritude é um processo de conscientização. Embora negros como este repórter que vos escreve saibam da cor de sua pele, há uma caminhada longa até tomar posse ou, como diz o professor Kabengele Munanga, ter os usos e sentidos da negritude. 

Portanto, o trabalho realizado pela Organização Ujima – formada por um grupo de jovens negros e negras inspirados nos ensinamentos de Malcolm X e Assata Shakur  – tem que ser reconhecido e exaltado. 

Eles criaram, no fundão da zona leste de São Paulo, a Biblioteca Comunitária Assata Shakur. O espaço conta com uma série de títulos para adultos e crianças, todos escritos por autores e autoras negras. A ideia, como eles contaram em entrevista ao Hypeness, é demonstrar a importância da conscientização política para a emancipação contra o racismo. 

“Achamos ser essencial que haja espaços autônomos e comunitários assim nos bairros e regiões mais pretas. O ideal é que toda e cada região da cidade possa oferecer e proporcionar acolhimento e segurança ao nosso povo em espaços autônomos assim. A Biblioteca leva ‘Comunitária’ no nome também porque sua proposta é de construção (ou, melhor, reconstrução) do sentimento de comunidade preta”.

Doações de livros são bem-vindas. Faça contato pelo e-mail: 

ujimapovopreto@disroot.org

Na rede social: @bibliotecaassatashakur

6- Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos 

Igreja do Rosário dos Pretos, em Salvador

Voltamos para a terra boa da Bahia por um bom motivo. Talvez só em Salvador para assistirmos uma missa que une expressões do candomblé e catolicismo. Sim, é verdade que as tradicionais missas afro existem em outros pontos do país, mas a sensação de assisti-la em pleno Pelourinho é I-N-D-E-S-C-R-I-T-Í-V-E-L. 

Atabaques, contas, panos da costa dividem espaços com crucifixos e sermões. É, de fato, uma experiência necessária. Não pense duas vezes e se organize, pois uma das celebrações mais legais acontece na última quarta-feira de cada mês, às 18h, quando a missa homenageia Santa Bárbara, para quem acredita, sincretizada com Iansã. Vá com uma peça vermelha para agradar…

A Igreja do Rosário é um fruto da resistência de uma irmandade composta principalmente por negros escravizados de origem angolana. Nos fundos da igreja construída em 1704, há um cemitério onde estão enterrados negros e negras escravizadas. A igreja é o ponto central da tradicional festa de Santa Bárbara, celebrada todo o 4 de dezembro. 

Endereço: Largo do Pelourinho, s/nº | Pelourinho – Salvador

7- Sarau da Cooperifa 

Vamos na Cooperifa?

A zona sul de São Paulo tem um significado especial para a cultura do Brasil. Foram nas periferias desta parte da cidade que surgiram expressões que não só transformaram como salvaram a vida de muita gente. 

Racionais Mc’s, Criolo e Cooperifa. Este último símbolo maior da potência dos livros no caminho de mudança social. Toda terça-feira, das 20h30 às 22h30, o Bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá, é tomado de amantes da literatura. 

Assim acontece há 18 anos no evento realizado por Sergio Vaz e Marco Pezão, falecido recentemente. “Quando se fala em periferia muitos pensam em violência. Eu penso em cultura”, disse Vaz à Folha de São Paulo. 

Guiado pela arte, o sarau se escora harmonia e no amor para colocar por terra a imagem equivocada e preconceituosa de muita gente sobre a quebrada. Em quase duas décadas, o ‘Sarau da Cooperifa’ recebeu nomes como o rapper Edi Rock, a escritora Djamila Ribeiro, entre outros. 

“Vida loka é quem estuda”, né não, Sergio Vaz? 

Endereço: R. Bartolomeu dos Santos, 797|Jardim Guarujá – São Paulo

Na rede social: @cooperifa.oficial

8- Casa Mema 

A Casa Mema com suas rodas de conversa incríveis

Por falar em acolhimento, esta casa gerida por uma mulher negra é perfeita para quem está em busca de empatia. A Casa Mema se destaca pela promoção de rodas de conversa que curam. 

São eventos repletos de afeto. As rodas de conversa falam de tudo, feminismo negro, mulherismo africano, o protagonismo de mulheres negras nas artes. Tem mais, como o afrofuturismo pode modificar a educação dentro das salas de aula e por aí vai. 

Gostou? Se você está em busca de um aconchego parecido com o café preto de uma manhã despretensiosa, a Casa Mema é satisfação garantida. 

Endereço: R. Massaranduba, 48|Vila Monte Alegre – São Paulo

Na rede social: @casa.mema

8- Instituto de Mídia Étnica 

O Mídia Étnica, em Salvador

A gente entende que a ‘Bahia deu régua e compasso’ ao conhecer o trabalho desempenhado pela equipe do Instituto de Mídia Étnica. Minha gente, são 10 anos de história e luta pela democratização da informação. Acesso e produção de conteúdo são os nortes desta plataforma fundada pelo empresário Paulo Rogério. 

O Mídia Étnica possui um portal e a TV Correio Nagô, além de um espaço de desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para a capacitação de grupos desfavorecidos socialmente. 

O enfoque, claro, é na comunidade negra que habita Salvador. Os profissionais do IME estão em todos cantos, já conversaram com Spike Lee no Pelourinho, realizaram a cobertura de aberturas de exposições e de um encontro afrofuturista promovido na capital.

A presença negra na comunicação é decisiva para o combate ao racismo e o estabelecimento de uma consciência negra independente. Que tal uma visitinha?  

Endereço: Rua Areal de Baixo, 6|Dois de Julho – Salvador

Na rede social: @midiaetnica

9- Voz das Comunidades 

O protagonismo da favela é a missão de Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades. A ideia pela descentralização da informação se tornou um alicerce para diversas comunidades do Rio de Janeiro. 

Além de jornalismo, eles realizam ações em datas comemorativas, num processo de valorização de uma gente tão violentada pelo racismo do Brasil. 

“O favelado já nasce estereotipado. Infelizmente, esse tipo de matéria não ajuda a acabar com os estereótipos, mas alcança o nosso objetivo que é informar o morador. É para ele que escrevemos sobre o novo filme que irá estrear no Cinema da Nova Brasília, por exemplo. É para ele que vão as dicas de lazer, com valores acessíveis, para não faltar para comprar uma mistura no fim do mês”, explica ao Hypeness Melissa Cannabrava, coordenadora do Portal Voz das Comunidades.

Na rede social: @vozdascomunidades

10- Casa de Cultura Negra de Ouro Preto 

Ah, Minas…a Casa de Cultura Negra de Ouro preto oferece para a comunidade programas de educação patrimonial, além de projetos que buscam dar o devido valor para manifestações artísticas negras, como o congado e as pinturas adinkra.

O lugar está ao lado da Igreja de Santa Efigênia, outrora um espaço de fé e devoção dos africanos escravizados. 

Endereço: Rua Padre Faria|Ouro Preto 

11 – Festa do Rosário da Penha 

O Largo da Penha vira uma festa só

Já que o assunto são expressões artísticas tradicionais, que tal conhecer a festa do Rosário da Penha? O evento acontece entre os meses de junho e julho e deixam o tradicional bairro da zona leste de São Paulo com ar diferente. 

Congadas, jongo, afoxé, tudo faz parte do evento que só acontece graças aos esforços da própria comunidade. Dividida entre o Largo do Rosário e o Centro Cultural da Penha, a programação oferece filmes, rodas de conversas, uma missa afro e música. 

Em 2019, os festejos foram encerrados por ninguém menos que o Ilú Obá de Min

Endereço: Largo do Rosário, s/n|Penha de França – São Paulo 

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook Oficial/foto 2: Reprodução/Instagram/foto 3: Reprodução/Instagram/foto 4: Reprodução/Naiara Barros/foto 5: Reprodução/Facebook/foto 6: Reprodução/Instagram/foto 7: Reprodução/Instagram/foto 8: Reprodução/Instagram/foto 9: Wikimedia Commons/foto 10: Reprodução/Instagram/foto 11: Reprodução/Instagram/foto 12: Reprodução/Instagram/foto 13: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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