Matéria Especial Hypeness

A expansão do neonazismo no Brasil e como ele afeta as minorias

por: Yuri Ferreira

A internet é um lugar estranho. Você pode passar um dia inteiro vendo vídeos de gatinhos fofos e lendo fanfics do Faustão com a Selena Gomez… mas também pode encontrar conteúdo profundamente extremista que defende a exterminação de negros e judeus e a volta do mais sanguinário regime da história, o nazismo.

A reportagem do Hypeness começa com base em um estudo da antropóloga Adriana Lima, da Universidade Estadual e Campinas (UNICAMP). Segundo a pesquisadora, 334 células nazistas estão operando no Brasil. Nas cinco regiões do país, pequenos grupos de pessoas aglutinadas por endereços digitais se juntam para discutir temas como supremacia branca, implementação de um regime nazifascista no país, antissemitismo e negação do Holocausto.

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A pesquisa contínua da professora, que já existe há cerca de 10 anos, evidencia que, no período, a extrema-direita brasileira foi flertando cada vez mais com grupos de cunho nazifascista, se apropriando de sua literatura, simbologia e ideário.

“A sociedade brasileira está nazificando-se. As pessoas que tinham a ideia de supremacia guardada em si viram o recrudescimento da direita e agora estão podendo falar do assunto com certa tranquilidade. Precisamos abordar o tema para ativar o sinal de alerta. Justamente para não dar palanque a essas ideias, precisamos falar sobre criminalização de movimentos de ódio e resgatar a questão crucial: compartilhar humanidades”, afirmou a pesquisadora em uma entrevista à Deustche Welle Brasil.

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Velha farda nova

Costumamos imaginar que os nazistas se escondem em clubes fechados e se reunem em porões que cheiram a cigarro e à madeira. Mas eles parecem ser bem abertos. Em uma simples pesquisa no Google, encontrei cerca de 15 blogs que propagam conteúdos negacionistas do Holocausto. Alguns deles em domínios internacionais, mas alguns também em domínios .br, sob as leis e regulações digitais do nosso país.

Os sites mantém uma farta literatura de cunho antissemita, originada no Brasil, de um sujeito que sequer citaremos o nome. Trata-se de um dos principais negacionistas do Holocausto no país, que foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul por racismo. Outros intelectuais integralistas estampam suas figuras em camisetas, bandeiras e em todas as livrarias nazis.

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Essa negação não é nova. E ela está ligada ao direito de nós existirmos, que é a origem e o foco do nazismo”, afirma Clarisse Goldberg, do Judeus pela Democracia. “Nós vivemos em um país racista. Nós judeus somos um dos alvos principais, sempre, mas não o único.”

Outro fator confuso dessa história é que muitos desses grupos antissemitas se justificam de atitudes do Estado de Israel para a promoção do antissemitismo. “Nos tiram a humanidade, nos tiram qualquer direito. Mas não vão além disso. Não ajudam os palestinos. Mais do que um ataque direto e físico, o que tem acontecido é a negação da nossa existência, a negação da nossa história, a negação dos horrores do nazismo, justificando o Hitler por ações que vieram muito depois dele.”, complementa Clarisse.

A lei 7.716 de 1989, que estabelece os crimes de racismo, proíbe também a exibição e veiculação da suástica, símbolo principal do nazismo. Entretanto, as células nazistas não costumam utilizá-la. Esses grupos, espalhados ao redor de toda a internet e agora em todo o país, utilizam simbologias diversas para  celebrar o nazismo e propagam suas ideias violentas de maneira subterfugiada.

O terror nos olhos

Grupos extremistas de direita tem como foco diversas minorias como mulheres, judeus, negros e LGBT. A propagação desse ideário pode se refletir em violência específica contra esses grupos minoritários. Em Blumenau e em São Paulo, por exemplo, a pesquisadora Alessandra Dias encontrou células de culto à Ku Klux Klan – grupo supremacista branco dos EUA. A promoção da violência contra negros faz parte da essência central desse grupo.

Hypeness conversou com Laura Augusta, psicóloga e mestranda do Grupo de Estudos Interdisciplinares da Mulher na Universidade Federal da Bahia (UFBA) para tentar entender qual a relevância destas seitas e como elas podem impactar a existência e as condições psicológicas das populações negras e femininas.

“Quando a gente vai olhar para esses grupos supremacistas brancos, observamos que a tentativa é de aniquilação de qualquer narrativa negra de sobrevivência, de questão de saúde, de questão de ciência. Tudo que atravessa a população negra, seja a mobilidade social, seja a possibilidade de não se enxergar no lugar da pobreza, do trabalho quase escravo, tudo isso é aniquilado”, explicou Laura.

No dia da Consciência Negra, um professor universitário negro foi esfaqeuado aos gritos de ‘macaco’ no interior de São Paulo. Mais de 70% dos assassinatos no país são cometidos contra jovens negros. O feminicídio aumentou 44% no primeiro semestre de 2019 em comparação com o ano anterior. Ao menos uma pessoa é morta por ser LGBT por dia no Brasil. Esses dados podem não ter correlação direta com a expansão do nazismo no meio digital. Entretanto, o ideário busca renegar a importância dessas mortes. Ou pior, justificá-las.

Você não vai encontrar um texto dizendo que o grupo X ou Y deveria morrer. Mas, a associação constante desses grupos à violência ou ao que muitos chamam de degeneração – a subversão de valores tradicionais -, podem servir como embasamento teórico para a realização de atos de violência.

Esse grupos não somente impactam em um sofrimento psíquico. A gente tem um sofrimento intergeracional, que vem do nosso passado. Os grupos supremacistas acabam lembrando pra gente que a mobilidade não existe. Isso gera desesperança, isso gera desespero. Isso aumento os números de suicídio, os índices de automutilação, falando apenas no campo da saúde.

O algoritmo extremista

A tecnologia impulsiona esse tipo de conteúdo. Um dos primeiros casos que evidenciaram a discriminação racial dentro de meios tecnológicos foi uma câmera de reconhecimento facial da Hewlett-Packard que não identificava rostos de pessoas negras. Diversos teóricos enxergam que existe um racismo institucionalizado dentro da tecnologia, impregnado por empresas majoritariamente brancas.

A reportagem do Hypneess ouviu Sil Bahia, coordenadora do PretaLab e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que afirma que “os algoritmos são sistemas que consultam bancos de dados para resolver problemas. O problema é que esses bancos de dados são enviesados”.

Segundo dados da Rede de Observatórios da Segurança, novas tecnologias de reconhecimento de segurança implementadas no país para atuar na área de segurança pública criminalizaram 90% de pessoas negras, maioria absoluta entre os presos.

As tecnologias podem trazer mais desigualdade. Isso diz que a desigualdade, que já existe na nossa sociedade, vai ter um impacto maior. Quando a gente entende que 90% dos presos por reconhecimento, isso se relaciona com o fato de que 70% dos jovens assassinados no Brasil são negros. Isso mostra que o offline tem um impacto no online, e vice-versa. Essas ferramentas e essas tecnologias reproduzem o costumes da nossa sociedade. Se as redes sociais são espaços misóginos e racistas é porque a tecnologia intensifica muito isso. E em larga escala, e o impacto é muito maior.

Guillaume Chaslo, um ex-engenheiro da Google, informou que o algoritmo do Youtube, por exemplo, não é construído pensando na verdade dos fatos ou na qualidade das informações apresentadas. Suas técnicas colocariam em evidência vídeos com conteúdo extremista, levando em consideração volume, gesticulação e o tempo médio que os usuários passam dentro do vídeo.

O The Intercept Brasil publicou a informação que o Google, inclusive, ensinou e guiou sites de notícias falsas à alcançar mais leitores e ganhar mais dinheiro com publicidade veiculada pela empresa. Vale ressaltar, inclusive, que encontramos ao menos 10 sites de propagação nazista no Blogspot, uma plataforma de conteúdo do Google.

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Nesse ano, o Youtube tentou acabar com conteúdo extremista em sua plataforma, em especial o nazista. A plataforma apagou documentários históricos sobre o assunto, e reconheceu o erro. O controle a conteúdos desse tipo parece brando. Mark Zuckeberg, CEO do Facebook, já disse que não apagaria conteúdo que nega o holocausto de suas redes e depois se retratou.

“As plataformas precisam se responsabilizar pelos conteúdos que elas mantém. A gente sabe que tem uma série de restrições quando se posta uma foto de uma mulher sem camisa. Agora existe uma dificuldade enorme de a gente páginas nazis e declaradamente racistas. A máquina faz o seu papel, mas tem uma pessoa que avalia isso. As empresas de tecnologia precisam ter cada vez mais pessoas diversas de fato nos seus times de tecnologia. Porque um homem branco pode não se abalar com um tipo de conteúdo, pode pensar ‘isso daqui não fere a minha dignidade’. Tem que chamar mais gente para pensar na tecnologia, se não a gente está fadado a aumentar ainda mais a desigualdade no nosso país.” Sil Bahia

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Fotos: Foto 1 e 2: © Getty Images Foto 2:  Reprodução/Medium


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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