Entrevista Hypeness

Ana Flávia Cavalcanti estreia na novela das oito e como diretora: ‘Não quero me juntar com racista’

por: Kauê Vieira


A dramaturgia reflete as nuances da formação social do Brasil. Não se engane, as telenovelas são um retrato dos vícios e de todas as questões que envolvem a fundação brasileira. 

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Talvez você não tenha notado, mas se for negro certamente se incomodou com os papéis reservados aos irmãos de cor. Afinal, como uma atriz do tamanho de Zezé Motta pode ser resumida ao trabalho em ‘Xica da Silva’? Léa Garcia está sem trabalho e ninguém faz nada.

Calma, faz sim. Ana Flávia Cavalcanti integra uma geração de atrizes negras que sabem bem o seu lugar. E ele não é na cozinha cinematográfica. Aos 36 anos, a paulista filha de empregada doméstica celebra 10 anos de uma carreira que não abre mão da expressão artística para questionar o espaço ocupado pelo negro no Brasil atual. 

Ana Flávia Cavalcanti estreia no horário nobre da Globo

O Hypeness conversou com a atriz que vive a expectativa de estrear no horário nobre da TV Globo. Ana Flávia Cavalcanti é uma das estrelas da novela ‘Amor de Mãe’, curiosamente protagonizada por outra mulher negra, Taís Araújo.  

“Viola Davis disse que não podemos ganhar prêmios por personagens que não foram escritos. A televisão é mais um reflexo da sociedade, digo mais um, porque durante muito tempo foi praticamente o único, em termos de alcance de massas, agora temos a internet, a rede social. Nesse sentido uma coisa alimenta a outra”, reflete ela, que teve destaque em ‘Malhação’ e no seriado ‘Sob Pressão’.   

A atriz acredita que “a população negra quer assistir a novela e se ver ali, temos excelentes atores negros, ótimos roteiristas, um número enorme de diretoras negras, então essa conta fecha muito bem. E o trabalho é construído de pouco em pouco né?”

Ana Flávia insiste na inversão da ordem. Como dizem os baianos, ela não come o reggae’ – ou cai no discurso – de que faltam atores negros capacitados.  Pelo contrário, ela sabe muito bem que falta mesmo é oportunidade para a dramaturgia realizada por pessoas negras emergir. 

A gente precisa de espaço para praticar o ofício. Eu não sou a mesma atriz da primeira novela. Importante dizer que ninguém fica bom, excelente do nada. Vamos melhorando a cada desafio. E apesar de termos tido avanços nessa área ainda precisamos de mais espaço nas emissoras de TV. Para ser democrático mesmo, queremos a  metade de todos os espaços, no mínimo.

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Se você é da turma dos curta-metragens, certamente se bateu com seu rosto. Ana Flávia Cavalcanti é habitué neste tipo de produção cinematográfica. Por falar em estreia, a atriz chegou aos cinemas no último dia 30 de outubro como diretora. Ana reflete a trajetória de sua vida no curta ‘Rã’, feito em parceria com Julia Zakia. 

“Eu amo curta-metragem, considero essa linguagem muito refinada e super difícil de ser feita. Dia 30 de outubro eu estreio como diretora no curta ‘Rã’, em parceria com Julia Zakia, e posso afirmar a complexidade que existe por trás desses 17 minutos do filme. Eu fiz alguns curtas como atriz, esse mesmo, eu também atuo, e gosto muito de contar histórias em um curto espaço de tempo. O espaço dos curtas-metragens no audiovisual é muito respeitado no mundo todo, existem diversos festivais internacionais super renomados onde são lançados diversos realizadores. Eu torço e trabalho muito para que a população negra realize mais produções como essas”, conta com alegria. 

Ana também estreou seu primeiro trabalho como diretora

‘Rã’ se adequa perfeitamente no seu compromisso de enxergar a arte como espaço de reflexão política. Ana transita por diversas nuances da arte, a performance é uma delas. Por falar em performance, ‘A Babá quer Passear’ é mais uma estocada nos preconceitos da sociedade. 

Falando nisso, ‘Rã’ é inspirado em experiências pessoais da infância vivida ao lado da mãe em Eldorado, Diadema (SP). Ana trata do abandono parental, da desigualdade social e das dificuldades da vida na periferia.

“‘Rã’ é baseado em algumas vivências minha e de minha família, e não uma biografia sobre nós. Tem muita coisa lá que aconteceu e muita coisa que não aconteceu. ‘Rã’ é uma ficção e acho muito importante frisar isso, porque eu percebi, na realização desse filme, que nós podemos recontar nossas histórias com diversos finais, se é que precisa de final, e isso pra mim é uma grande liberdade. A liberdade do sonho, da expansão, do faz de conta”, destaca.  

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Falar sobre racismo e como é ser uma mulher negra no Brasil se confunde com a trajetória de Ana. A racialização é uma questão enfrentada por pessoas negras que ocupam espaços, digamos, não permitidos pela discriminação. O sistema busca limitar a atuação do negro, o convidando apenas para falar sobre racismo. 

Ela, no entanto, diz não ser racializada ou que tenha o trabalho limitado pela formação social do país. Ao contrário, Ana Flávia Cavalcanti toma posse de sua história para defender a criatividade que emana das periferias, mas sem deixar de cobrar igualdade de condições. 

As relações no Brasil são pautadas pela origem de raça e classe social. Então isso foi e é determinante em em minha construção de ser, mas de maneira nenhuma isso me restringe. O contrário, minha origem de classe e raça me potencializa demais, do bairro onde eu vim, o que não falta é história pra eu contar. O que cerceia a liberdade é a fome, a falta de escola, a miséria, a ausência dos pais, os baixos salários, a precariedade do saneamento básico e o extermínio da população jovem negra

E completa, “o Brasil viveu o processo mais traumático, violento, exacerbado, inexplicável de uma escravidão que durou quase 400 anos da qual estamos livres, em certos aspectos, há apenas 120 anos, portanto, o discurso de raça, classe, orientação sexual é presente independente da condição social atravessada pelo sujeito negro, pobre, gay, trans e mulher. Ainda é assim, mas não será assim pra sempre”. 

Falam tanto de uma nova era…

Gilberto Gil dizia que se pensa muito no futuro, mas se esquece do presente. A verdade é que como o mesmo cantor e compositor baiano gosta de dizer, a seta do tempo aponta pra frente. 

Trocando em miúdos, não há como frear a evolução dos pretos brasileiros. Lázaro Ramos, a própria Taís Araújo, Thalma de Freitas e Ana Flávia Cavalcanti – pra ficar em algumas – subvertem a ordem e até mesmo como a dramaturgia enxerga os corpos negros nas artes. 

A atriz teve passaem de sucesso em ‘Malhação’

A atriz lembra inclusive do sucesso do ‘Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul’, que contou com a presença ilustre de Angela Davis. 

Temos um cenário promissor no que diz respeito à representatividade negra em diversas frentes, falo isso dentro do recorte da minha área profissional. A demanda por realizadores negros, roteiristas, dramaturgos e assim por diante, dentro do cenário das artes visuais, é grande por uma pressão da população afro-brasileira, e isso é muito forte e não tem volta. A população negra é a maioria no Brasil. Essa demanda do povo querendo se ver mais, se reconhecer mais, reflete a democracia que buscamos. Eu fico feliz e bastante otimista. Um dia quase morro com tanta notícia ruim, no outro me encho de esperança imaginando, por exemplo, como será lindo e de suma importância os próximos dez dias durante o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul (Brasil África e Caribe) que vai acontecer no Odeon, no Rio de Janeiro. Nós negros estamos pensando muito nesses lugares importantes na arte e disputa de narrativas o tempo todo.

O otimismo de Ana é necessário, afinal o racismo adoece. A artista, que namora a roteirista e empreendedora Tati Villela, salienta que não tem medo de assumir posições, como a defesa dos direitos LGBT e que não pretende andar do lado de racista e homofóbico. 

“Isso é normal para mim, isso sou eu. Hoje eu estava no carro pensando muito sobre essa coisa do juntos, nós todos juntos, que juntos somos mais fortes, e sinceramente, eu não quero me juntar com todo mundo não. Não quero me juntar com racista, com transfóbico, com machistas, sabe? Então se ao me posicionar em relação a uma determinada pauta que eu considero inclusiva, uma parte da população não curtir e não quiser seguir, saber, assistir, tudo bem. Não é para todo mundo que eu falo mesmo. Tem gente que não vai me ouvir e eu respeito, mas não quero ter por perto. E exijo ser respeitada”.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Instagram/foto 2: Jorge Bispo/Reprodução/Instagram/foto 3: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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