Ciência

Antidepressivos despejados na água afetam comportamento de peixes, diz estudo

Vitor Paiva - 17/11/2019 | Atualizada em - 17/12/2019

O consumo de antidepressivos cresce no mundo de forma vertiginosa como nenhum outro medicamento – só no Brasil, nos últimos cinco anos a venda de medicamentos para a depressão saltou em 74%, tornando-nos o país mais “deprimido” de toda a América Latina. E se os males do uso desenfreado de antidepressivos pode ser perigoso sobre as pessoas, o efeito indireto de tal consumo crescente tem superado os limites da humanidade e afetado outros animais. É o que indica um novo estudo realizado por cientista da Universidade Monash, na Austrália: o descarte incorreto de medicamentos para depressão, que acabam em lagos ou rios, estão prejudicando as interações entre peixes, especialmente nos momentos de caça.

De acordo com o estudo, publicado na revista científica Biology Letters, a fluoxetina, popularmente conhecida como Prozac, vem sendo constantemente encontrada em ecossistemas aquáticos em altas dosagens – e, para além da própria presença poluente, o componente é capaz de afetar o comportamento dos animais. Se nos humanos o efeito de bloquear canais de transportes dos neurônios e absorver a serotonina pode ajudar no controle da depressão, em animais como os peixes os efeitos podem ser bastante diferentes: quando caçam os grupos, os peixes estudados expostos à fluoxetina, em um contexto de competição, demonstraram maior agressividade, como em uma corrida contra os outros animais.

“Nossos resultados sugerem que o contexto social é um fator importante, mas subestimado, e que é influenciado pelos os impactos ecológicos dos poluentes químicos na vida selvagem”, afirmou o biólogo Jake Martin – o diferencial da pesquisa foi justamente avaliar os animais em coletivo, e não isoladamente. De acordo com os cientistas envolvidos na pesquisa, novos estudos são necessários para compreender melhor o efeito da mistura dos medicamentos no meio-ambiente sobre animais expostos, isoladamente ou em grupos. De todo modo, o resultado já sugere que não só é urgente repensar o descarte de elementos especialmente poluentes como medicamentos, como também rever o próprio consumo em excesso dos antidepressivos – ao ponto de estarem afetando outros animais com os quais dividimos o planeta.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.