Diversidade

Com ebó coletivo, grupo protesta contra cruzeiro que associou Salvador ao diabo

por: Kauê Vieira

O candomblé, mais uma vez, foi alvo do racismo religioso brasileiro. Depois da organização responsável pelo navio Logos Hope associar a fama de Salvador ao demônio, um grupo de defesa das religiões de matriz africana vai realizar um ebó coletivo próximo da embarcação. 

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O protesto é organizado pela Frente Nacional Makota Valdina, nomeada em homenagem ao legado de um dos nomes mais celebrados e importantes para o candomblé brasileiro. O ato está programado para a próxima segunda-feira (4) e foi batizado de ‘O demônio quem traz são vocês! A Bahia é de todos os Santos, encantos e Orisás!’. A manifestação ocorre das 10h às 19h no Terminal da França, próximo ao ponto onde o Logos Hopes estará atracado. 

Racismo religioso de cruzerio que associou Salvador ao demônio

Rezem por um embarque seguro e por uma navegação de dois dias direto para Salvador. Rezem por proteção, força e sabedoria para os tripulantes durante a estadia do navio em Salvador – uma cidade conhecida pela crença das pessoas em espíritos e demônios. Rezem para a equipe de eventos, que se prepara para um novo porto, e que Deus possa ser glorificado ao longo de cada um dos eventos que virão. 

O conteúdo preconceituoso foi publicado nas redes sociais da organização internacional cristã Good Books for All Ships (GBA Ships), que além de responsável pelo Logos Hopes, promove uma exposição literária no que é considerada a maior livraria flutuante do mundo. 

A repercussão negativa provocou o tradicional pedido de desculpas. Além de lamentar a postagem, a Good Books for All Ships apagou o conteúdo das redes sociais. A companhia afirmou em nota que o texto preconceituoso foi emitido na Alemanha e sem aprovação.  

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Oxumaré, no Dique do Tororó, teve o braço arrancado

A justificativa não convenceu o Ministério Público da Bahia, que confirmou abertura de investigação sobre a discriminação religiosa promovida pela instituição. A promotora Lívia Santana Vaz, do MP, deu prazo de três dias para a empresa prestar esclarecimentos. 

“O Ministério Público do Estado da Bahia, através da Promotoria de Justiça e Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, tomou conhecimento, na data de hoje [sexta, 25], de mensagens de cunho discriminatório, emitido pela Logos Hope – Livraria Flutuante. Foi instaurado o devido procedimento e a organização do navio foi notificada com recomendação para retirada da mensagem das redes sociais, bem como para prestar esclarecimentos no prazo de três dias”, salientou. 

Racismo religioso 

Não é de hoje que as religiões negras estão sob ataque. De forma velada ou agressiva, umbanda, candomblé e outros cultos baseados na influência africana na formação da cultura brasileira são alvos recorrentes da intolerância. 

O Estado pouco faz para garantir a liberdade religiosa. Especialistas dizem que o estigma que persegue as religiões de matriz africana está diretamente ligado ao racismo que equilibra a sociedade brasileira. 

Monumento de Mãe Stella de Oxóssi alvode vandalismo em Salvador

– Simone e Simaria se recusam a citar Iemanjá ao cantar música do Natiruts

Apenas no Rio de Janeiro, diz a Comissão Estadual de Combate à Intolerância Religiosa e o Racismo, 200 ataques contra terreiros foram registrados. 

“O que está por trás de toda essa ‘demonização’ dos terreiros e de seus adeptos é o racismo estrutural e estruturante, que configura mais uma face do genocídio contra a população negra. É mais uma forma de extermínio”, declarou à Rede Brasil Atual Mãe Conceição D’Lissá, da Casa do Sacerdote.

Recentemente, também em Salvador, dois símbolos do candomblé foram vandalizados. Uma escultura de quase 10 metros homenageando Mãe Stella de Oxóssi foi danificada.

Ainda na capital baiana, no Dique do Tororó, uma estátua representando o orixá Oxumaré teve um braço arrancado. O Correio da Bahia conversou com Pai Pecê, babalorixá da Casa de Oxumaré, que lamentou o fato. 

“A gente não sabe se foi vandalismo ou se foi ação do tempo. Mas temos visto muita intolerância acontecer, com os monumentos e também a nossa casa, que sofreu um ataque recente”, disse ele que teve a fachada do terreiro pichada há pouco tempo.

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Fotos: foto 1: Divulgação/foto 2: Eduardo Dias/Correio da Bahia/Reprodução/foto 3: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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