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Depois de 14 anos em NY, Afropunk faz esquenta e se prepara para edição em Salvador

por: Gabriela Rassy

O Afropunk não é simplesmente um festival. Mais do que isso, é uma celebração da cultura negra e dos agentes por trás dessa cultura. Em suas raízes está a criação de um espaço para jovens negros recuperem seu lugar dentro do Rock & Roll. Depois de 14 anos, podemos dizer com segurança que esse encontro transformou não só a relação com a música, mas com a moda e o empreendedorismo negro.

O movimento punk surgiu com ideais igualitários e de combate ao sistema, sendo importantíssimo para a quebra de paradigmas nos anos 1980. Ainda assim, as festas e shows eram predominantemente frequentadas por pessoas brancas e a representatividade negra não encontrava espaço. Nos anos 1990, cansado de ser excluído da cena, James Spooner e amantes do estilo, começaram um movimento que se traduz até hoje em música, muito estilo e, principalmente, evolução: o afropunk.

O festival, a partir de 2005, passa a traduzir essa ideia em Nova Iorque, depois em Atlanta, Londres, Paris e Joanesburgo. Agora o Afropunk anuncia que em 28 e 29 de novembro de 2020 coloca o Brasil neste roteiro. O lugar escolhido foi justíssimo: Salvador, capital do estado mais negro do país, a Bahia. Esta será a primeira edição do evento na América do Sul e pensando na nossa potência preta e descendente africana, é uma decisão para comemorarmos.

O esquenta para a edição oficial veio em parceria e integrando o festival Feira Preta, que completa 18 anos como o maior festival de cultura negra da América Latina. Quando a idealizadora da feira, Adriana Barbosa, foi conhecer o festival no Brooklin, já sentiu a conexão. “Está em outro país, em outro contexto, mas o formato é muito parecido”, analisa.

Em 2017, a Feira Preta se transformou em festival e trouxe como um dos conteúdos o Afropunk como estética, como linguagem de festival. “Neste ano fui conhecer o festival pessoalmente e desde então estamos nesta conversa. Agora a gente começa a namorar”, conta Adriana.

As duas marcas referência dentro desta cultura anunciaram seus planos para o mercado latino-americano na festa “Black to the Future”, em São Paulo. O evento de duas noites começou no dia 19 de novembro com um line up preto, claro, mas muito baiano também, antecipando a edição marcada para 2020.

Magá Moura foi mestre de cerimônia do esquenta Afropunk, em São Paulo, ao lado de Linn da Quebrada

“To achando muito digna essa recepção com muitos artistas baianos, afinal o Afropunk oficial vai acontecer em terras baianas. Nada mais justo que ter essa energia baiana nessas noites”, comentou a estilista e dona da marca Dresscoração, Luana Nascimento. “É um presente e um privilégio ter o festival acontecendo no Brasil”, completou.

No palco, São Paulo viu pela primeira vez o show de Aya Bass, projeto com direção musical vocais de Larissa Luz, junto com Xênia França e Luedji Luna. Um show cheio de energia, misturando as melhores e mais representativas faixas das três cantoras e compositoras em novos arranjos.

Além delas, o peso do show Sul Americano, da maravilhosa Baiana System, e o show de Baco Exu do Blues completaram a programação baiana. O palco ainda recebeu Karol Conka, Rincon Sapiência, Linn da Quebrada, Batekoo, Black Pantera, o DJ de Nova York, Mike Q, e a DJ Aisha Mbikila.

Afropunk no Brasil

Salvador foi a primeira escolha dos idealizadores quando pensaram em um local no Brasil para o evento. Aproximadamente 5 milhões de africanos e africanas escravizadas(os) chegaram ao Brasil entre 1501 e 1866 e, desde então, a população brasileira cresceu a ponto de ser a segunda maior população de pessoas Negras fora da África.

“A Bahia é nosso lar”., diz Matthew Morgan, fundador do Festival. “Nossas(os) ancestrais foram trazidas(os) para Bahia como escravizadas(os). É importante referenciar seus legados na medida em que celebramos a libertação e a felicidade negra – a música, o espírito, a filosofia e a irmandade do Brasil. Uma comunidade verdadeiramente Pan Africana”.

Esta celebração de diversas expressões negras da diáspora africana, imersa em atitude e ativismo de resistência, já tem lugar e data. Agora esperamos a programação poderosa enquanto nos preparamos para o que vem por aí.

Feira Preta

Enquanto isso, a Feira Preta segue com atividades ocupando a cidade de São Paulo. No sábado, dia 23, acontece a Caminhada São Paulo Negra, no Bixiga. O evento resgata as histórias negras do bairro – que vão muito além da presença italiana.

O roteiro passa pelo ponto de venda de escravos da cidade, a Casa do Mestre Ananias, a Escola de Samba Vai Vai, a Igreja da Achiropita, que abriga a pastoral afro e finalizará na rua 13 de Maio, no evento Arte Na Rua, edição especial Feira Preta. As histórias são narradas pelo jornalista Guilherme Soares Dias, pela turismóloga Ana Carolina Nyamekie e pelo fotógrafo e produtor cultural Heitor Salatiel.

Já no domingo, dia 24, músicos de diferentes nacionalidades e estilos se unem para criar coletivamente uma apresentação no IMS Paulista. Destaque ainda para o Encontro Internacional Afro-Feminismos De Abya Yala: Uma aposta crítica para o agora – Fabiana Cozza, no show Dos Santos.

No show, a riqueza das canções inéditas entremeadas de clássicos do gênero, visita a história do povo negro, dialoga com a ancestralidade, a cultura e a diáspora africana brasileira.

Por fim, nos dias 7 e 8 de dezembro, a Feira Preta celebra 18 anos com o grande evento no Memorial da América Latina, em uma reflexão sobre o presente, passado e futuro do projeto. A programação abraça aulas de yoga, Samba da Laje e convidados, shows do Senzala Hi Tech, de Drika Barbosa + Danna Lisboa, Larissa Luz convidando Linn da Quebrada, Tyuo, Encontro dos Blocos Afros Ilu Oba, Ilu Ina, Zumbido e Umoja, além do show da banda Attooxxa.

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Fotos: Patricia Devoraes e Jef Delgado


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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