Arte

E se eu matar de amor? | Do Amor #119

por: Jader Pires

A chatice do Seu Vágner só não era maior que a paciência de sua esposa. Casado já pra lá das bodas de ouro, passou a vida todinha ocupando-se com o zelo pela casa. Era um sobradinho bem localizado, quase na esquina da Avenida Pompeia, zona oeste de São Paulo.

O Seu Vágner era todo aplicado nas tarefas do lar. Tirava o pó dos móveis todas as manhãs, lustrava cacarecos na estante, batia os tapetinhos da entrada da casa e os que ficavam ao lado da cama de casal. Varria, passava pano, organizava a louça lavada no escorredor, pedia ajuda para arrastar os sofás e passava aspirador embaixo de tudo. Sua eterna ajudante era a Dona Antônia, uma septuagenária que gostava de vestir calças verde oliva com chinelos e casacos de lã acinzentados. Todos os dias, ela acordava com o céu ainda negro e ia até a varanda para ver sua vida começar em mais um dia. As primeiras pessoas que saíam de casa para trabalhar, a brincadeira das maritacas na árvore da frente, o sol clarear tudo o que ele conseguia ver. Sorria logo cedo, dava bom dia a quem passava, ia para a cozinha para preparar o café da manhã.

Ela era um doce imensurável de pessoa e seria uma das companhias mais cobiçadas do bairro se não fosse o Seu Vágner. O problema é que o velho era só reclamação. Acordava bufando, saía do banho murmurando pragas contra o chuveiro, a toalha, o xampu, a escova de cabelos. Batia a porta do guarda-roupas ao se trocar. Babava críticas sobre a torrada, a gordura do leite, lia e relia a porção nutricional do saco de biscoitos e maldizia a comida industrializada. A Dona Antônia só fazia silêncios enquanto ele discursava sobre o lado ruim da vida.

Se dependesse das vontades dela, todos os dias seriam dias de ouvir música alta enquanto a faxina da casa era feita. Adorava Lupicínio Rodrigues e poderia passar horas escutando as lamúrias do compositor gaúcho. Mas não era permitido ligar qualquer melodia enquanto a tarefa do lar não estivesse concluída. O Seu Vágner precisava que ela tivesse ouvidos de menina enquanto cuidava da poeira da casa, das mudas de roupa, da gordura na cozinha. Era para ela ficar sempre de prontidão caso ele necessitasse de mãos mais fortes, de uma ida à casa de material de limpeza, de alguém para ouvir suas desaprovações. Sempre que era convocado, lá estava a Dona Antônia levando mais um pouco do lustra-móveis, pronta para botar aquelas pedrinhas com cheiro de pinho no vaso sanitário, torcer panos, vigiar a panela de feijão. Todos os pedidos eram acompanhados de maldizeres, comentários desgostosos sobre o estado da casa, o clima muito gelado ou abafado demais, a escadinha de alumínio de três degraus que era uma droga, a alça do balde que não foi feita para segurar, mas só para machucar as mãos.

O Seu Vágner choramingava e a Dona Antônia olhava para o céu, pela janela, através de seu reflexo no vidro do armário da cozinha. Era um cotidiano de subterfúgios repetidos para não dar de frente com as horas ranzinzas do marido. Seu momento predileto era quando lhe era ordenado varrer a calçada. O Seu Vágner não gostava mais de colocar os pés para fora de casa e essa tarefa ficava como que exclusiva da dona da casa. Era bom, porque ela tinha mais espaço para si mesma e as lástimas de seu esposo ficavam da porta para dentro. Isso até o acontecido.

Em frente à casa do casal, ao lado da portinhola de entrada, havia um abacateiro de mais de vinte metros que possuía uma bela quantidade de galhos fortes e, como haveria de ser, davam nas épocas certas muitos frutos. Abacates nasciam e caíam da árvore, levando o Seu Vágner à loucura. Um dia, um dos frutos maduros caiu em cima de um carro estacionado na frente da casa. Um barulho horrível e um amassado no teto do veículo. Ninguém se machucou, mas o trauma fora criado. Desse dia em diante, a tranquilidade na calçada acabou. Toda vez que ia para a frente de casa, era obrigada a conviver com a celeuma individual de seu marido. Era uma gritaria ininterrupta. O Seu Vágner ficava na ponta dos pés, na varanda, avisando pessoas para não pararem na frente de sua casa, para não estacionarem o carro debaixo do abacateiro, para não passarem por lá, para atravessarem a rua. Tudo isso junto com as ordens de limpeza que bradava, lá do alto, para sua mulher. Era um tal de “limpa aqui”, de “não esquece ali”, ele ordenava a maneira com que a limpeza teria de ser feita, de onde até onde, quais as partes importantes. Era pra recolher as frutas caídas, tirar do passeio todas as sementes, as folhas, os galhos, os chicletes grudados (como se ele os pudesse enxergar).

Dona Antônia fazia tudo conforme o combinado. Executava suas incumbências com uma reticência só quebrada quando, sem deixar ele perceber, pedia desculpas para as pessoas que passavam e ouviam as reclamações do velho lá de cima.

Virou sina.

O Seu Vágner se tornou vigilante da calçada, sentinela do abacateiro. Ninguém passava em frente à casa sem ser prontamente informado sobre os perigos da gravidade, carro algum podia parar sob a árvore, enfim, a senhora passava horas em sua diligência pedregosa. Sinalizava, avisava, ficava de olho. De quando em quando, entrava na sala para contar à esposa as sandices de pessoas que, mesmo sendo informadas dos perigos, se atreviam a passar pela calçada mesmo assim. E ela, assistindo televisão, apenas acenava com a cabeça, simulava concordar, aparentava escutar tudo o que ela dizia. Era um inferno.

Os lamentos se empilhavam durante o dia. Na hora do jantar, ele reclamava dos abacates. Vendo a novela, judiava os ouvidos da senhorinha repetindo histórias passadas sobre o passeio. Na cama, já de pijamas e apenas com a luz do abajur acesa, ele confabulava sobre o que deveria ser dito e feito no dia seguinte, uma vez que queria sanar esse empecilho que era ter pessoas indo e vindo em frente sua casa. Ela olhava para seu marido e via, na iluminação branda do quebra-luz, gotículas de saliva que saíam feito tiro daquela boca senil.

Era um sem fim de exigências, protestos, azedumes. O sono dele não chegava. A boca dele não cessava. E o travesseiro, então, praticamente se moveu sozinho. Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça para cima. Respirou fundo, aquela puxada de ar que busca frescor. As mãos ainda eram fortes o suficiente para manter a fronha em contato com os orifícios da narina. Sentir o tremor, o debater-se dele. Ela apenas desfrutava, concentrava seu peso nas duas mãos. A pressão, as súplicas abafadas que lhe serenavam como as mais belas canções. E, enfim, sossego. 

A mudez do quarto era como um orgasmo celestial. Tudo ficou instantaneamente mais amplo, mais agradável, mais fluido. Os segundos deslizavam, o colchão era mais macio, a temperatura mais baixa da noite era ideal. Pegou um livro para ler e ficou acordada até às duas da madrugada, coisa que não fazia há décadas.

No outro dia, tratou de ir até o quintal e foi também até a calçada recolher alguns abacates que estavam no chão. Repetiu o feito a semana toda. No domingo, em vez de ir à missa, tratou de adornar a cama onde jazia seu esposo com todos os abacates que acumulara nos dias anteriores. Era um ataúde tropical, um esquife natural. Havia abacates em volta dele, nos criados-mudos, no chão. Dias depois, era já uma tumba frutífera, mal se conseguia entrar no cômodo de tanto abacate. Uma massa verde escura estava sendo acumulada em volta do cadáver. Ela achava tudo lindo demais.

Um estalo e lá estava a Dona Antônia, tomando café com leite em um copo comum enquanto seu cônjuge, sentado ao seu lado, queixava-se dos restos de pão acumulados na toalha da mesa. Perdeu-se em pensamentos e voltou ao estado consciente com as batidas do dedo do velho na mesa.

Ela não se mexeu. Seus olhos voltaram a ter foco e miraram o Seu Vágner de sempre. Tomou um gole do pingado, respirou fundo, deixou ele falar. Matou na boca o que ainda havia no copo, pegou nas mãos dele com as suas. Beijou-as. A senhorinha então se levantou, chegou mais perto de seu benzinho e tornou a beijá-lo, dessa vez na testa, um beijo com tempo maior. Juntou os restos de pão na toalha, puxou-os para o canto da mesa e derrubou-os na mão esquerda. Jogou tudo no lixo, aproveitou para pegar a pá e a vassoura e chamou seu Vágner para ir lá fora, olhar da varanda enquanto ele varria a calçada.

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Reprodução.


Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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