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‘É um filme vaginal, que não é fácil de se ver no cinema brasileiro’, diz Fernanda Montenegro sobre representante do Brasil ao Oscar 2020

por: Janaina Pereira

O caminho do Brasil para o Oscar passa por Fernanda Montenegro. Única atriz brasileira indicada à estatueta dourada – em 1999, por Central do Brasil, de Walter Salles – ela brilha em uma participação especial no longa A Vida Invisível, de Karim Aïnouz (Praia do Futuro), o representante nacional ao prêmio hollywoodiano. São 93 filmes concorrendo a cinco vagas na categoria filme internacional (que já foi chamada de filme estrangeiro). A produção brasileira, premiada na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, disputa uma dessas vagas com candidatos de peso, como Parasita, do coreano Joon-ho Bong (vencedor da Palma de Ouro em Cannes), e Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar (prêmio de melhor ator para Antonio Banderas também em Cannes).

Definido pelo diretor Karim Aünouz como um “melodrama tropical”,  A Vida Invisível é baseado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha. A história se passa no Rio de Janeiro dos anos 1950, onde as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) têm uma relação muito próxima, até o dia que Guida foge de casa para viver um grande amor. A separação, repleta de situações inesperadas, transforma não apenas suas vidas, mas tudo que existe em volta delas. Eurídice, promissora pianista, larga a carreira por obrigação em se casar, e Guida se torna mãe solteira. Fernanda Montenegro interpreta a Eurídice mais velha, já com as marcas do tempo e de tudo que a distância da irmã fez com ela.

Na coletiva de lançamento do filme em São Paulo, ao lado do diretor Karim Aünouz, do produtor Rodrigo Teixeira e do elenco, a carioca Fernanda Montenegro falou sobre o longa, um dos três que vai estrelar nos próximos meses – ela participa também de O Juízo, de Andrucha Waddigton, e de Piedade, de Claudio Assis. “O filme do Karim é um folhetim. E o folhetim é um épico. Quando o filme é um folhetim tem essa dimensão trágica. Quando eu era criança no subúrbio do Rio [ela é do bairro de Campinho, zona norte da cidade] eu lia muito folhetim. Acho bonito o que ele proporciona, que é voar dentro de um sentimento humanizado”.

A Vida Invisível mostra as mulheres em uma época onde pílula anticoncepcional e divórcio não existiam. A pílula só passou a ser comercializada por aqui em 1962, e o divórcio foi legalizado apenas em 1977. Temas que até os dias de hoje fazem parte do universo feminino também estão presentes, como relações abusivas, sexo sem consentimento, e preconceitos contra mulheres que são mães solteiras, abandonam a carreira para criar os filhos ou ainda aquelas que não querem ser mãe. Fernanda Montenegro comentou sobre isso. “O filme mostra questões difíceis, como o fato de muitas mulheres naquela época não estarem preparadas para o casamento. É um filme vaginal, que não é fácil de se ver no cinema brasileiro. É sobre mulheres que estão buscando uma saída”.

A atriz também analisou os personagens masculinos, abordados como os vilões da trama. “O macho é necessário, assim como a fêmea, mas o machão é um horror. O filme não é contra o macho, e sim contra o machão”.

Fernanda destacou que a vocação de atriz fez toda a diferença em sua vida, o que não aconteceu com sua personagem. “A grande tragédia dela é que se crucificou, se suicidou diante do processo da vida. A vocação dela não foi absoluta a ponto de passar por cima. E a vocação é uma busca pela liberdade, pelo existir. A mulher veio para o trabalho muito tarde, mas quando permitiram, e a gente pode subir num palco… aí vence o melhor, não importa qual é o sexo”.

Aos 90 anos, Fernanda Montenegro mostra um entusiasmo contagiante pelo cinema, e dá seu recado. “Na minha idade ainda me convidam para fazer um filme desse! É maravilhoso. Na minha vida eu sempre trabalhei com vocação. Atuar é meu ofício. E o cinema é a melhor viagem intergaláctica que existe”.

A Vida Invisível estreia nos cinemas brasileiros no dia 21 de novembro. O Brasil teve até hoje somente quatro filmes indicados ao Oscar de filme internacional: O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte (1962); O Quatrilho, de Fábio Barreto (1996); O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto (1998) e Central do Brasil, de Walter Salles (1999). Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, recebeu quatro indicações em 2004, incluindo melhor diretor, mas ficou fora da então categoria de filme estrangeiro. Os indicados para o Oscar serão conhecidos em 13 de janeiro, e a cerimônia de premiação será em 9 de fevereiro de 2020.

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Fotos: Divulgação


Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).

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