Ciência

Movimentos antivacina contribuem para surto de sarampo e preocupam especialistas

por: Vitor Paiva

São muitas as teorias conspiratórias que, em nossa triste atualidade, tentam, sem qualquer base científica, comprovação ou mesmo responsabilidade, refutar fatos comprovados e evidentes. Mas enquanto os terraplanistas, por exemplo, provocam nada além de vergonha alheia e preocupação sobre a qualidade do ensino em nosso esférico planeta, outras tendências delirantes causam efeitos bastante graves – inclusive a morte de terceiros. É o caso do movimento antivacina, que crê e prega que as vacinas em verdade nos fazem mal – e, com sua popularização, podem provocar não só a volta de doenças controladas como efetivamente a contaminação de pessoas que nada tem a ver com essa inacreditável crença.

A medida da gravidade está na fala de uma autoridade no tema: o médico Drauzio Varella. “As vacinas foram o maior avanço da história da medicina”, disse o doutor, em entrevista para a BBC. “Quando surgiram as vacinas, houve uma queda abrupta não só das doenças, mas da mortalidade infantil. A mortalidade infantil caiu muito. No Brasil, lá pelos anos 1950, chegava a mais de 100 crianças mortas para cada mil habitantes. Praticamente 10% das crianças morriam até os primeiros cinco anos de vida”, afirma o médico.

Dr. Drauzio Varella

A perigosa teoria contra as vacinas nasceu, como não poderia deixar de ser, na internet – a partir de falsas pesquisas e charlatões comprovados. Como tudo que nasce na rede, porém, basta se popularizar para ser considerado verdade. E se presidentes incapazes são eleitos através de fake news, pessoas também deixam de vacinar seus filhos por conta do que veem na internet. Não se trata, porém, de um problema discreto: segundo a Organização Mundial de Saúde, a “hesitação em vacinar” é, em 2019, uma das dez maiores ameaças globais à saúde.

E essa preocupante tendência mundial já afeita o Brasil: segundo o Ministério da Saúde, todas as vacinas destinadas às crianças registram queda na aplicação desde 2011 – e a volta do sarampo, que estava eliminado entre a população brasileira, é uma perfeita ilustração do que pode acontecer a partir do movimento, que acaba por afetar a todos . Trata-se, portanto, não de uma decisão pessoal, mas sim de uma responsabilidade social. É por isso que Dr. Drauzio Varella é categórico ao definir o movimento: trata-se de algo “criminoso” – e algo que desafia a lógica e as evidências mais explicitas.

“A expectativa de vida dobrou ente 1900 e o ano 2000”, lembra o médico. “O que causou essa revolução? Não foi a medicina que a gente pratica no dia a dia. Controle da pressão, tratamento do câncer… Não foi isso, porque essas doenças atingem a população mais idosa. Agora, quando você tem uma criança que morreria aos dois anos de idade por uma doença infecciosa, e essa criança vai morrer aos 80 anos, essa puxa a expectativa de vida lá para cima. A grande responsável por esse aumento da expectativa de vida foi a vacinação”, afirma.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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