Debate

Novo tiroteio em escola no Brasil reforça urgência de debate sobre saúde mental

por: Yuri Ferreira

Hoje, em Icaraí (MG), um estudante invadiu uma escola armado e atirou em alunos e professores. Duas pessoas estão hospitalizadas em situação grave, mas até agora não houve fatalidades. O fato ocorreu às 8h da manhã desta quinta-feira (7).

Segundo o diretor da escola, o aluno do 2º ano invadiu o local com uma garrucha e um facão, e atirou contra estudantes dentro de uma sala. João Nazareno Chaves, professor de matemática escola, afrima que vidas foram salvas pela docente Sandra Borges, que segurou a porta da sala de aula em que o aluno iria cometer os crimes. Ele atirou duas vezes em direção aos estudantes escondidos atrás da professora. Os feridos foram encaminhados para um hospital de uma cidade vizinha. O atirador foi detido. Outro estudante também foi detido, mas não está clara sua participação no crime até então.

De acordo com a direção da unidade, os dois tiros foram disparados por um aluno da instituição que não estava presente hoje às aulas, pulou o muro da escola armado e efetuou os disparos. A direção da escola acionou a Polícia Militar imediatamente e os dois alunos feridos foram levados para o hospital. Representantes da SRE acompanham a situação dos alunos no hospital. A direção da escola esclarece que todas as informações necessárias estão sendo passadas para os órgãos competentes que farão a investigação e apuração do caso“, afirmou a Superintendência Regional de Educação de Teófilo Otoni, responsável peal escola.

Saúde mental nas escolas 

Esse não é o primeiro caso de atiradores dentro de escolas no Brasil. Em 2010 vimos o massacre de Realengo, que levou 13 vidas (incluindo a do atirador), e nesse ano vimos o tiroteio em uma escola de Suzano, comandado por dois jovens com distúrbios mentais.

– O massacre de Suzano não pode ser colocado na conta dos videogames

Enquanto muitos tentam colocar o problema somente em caixinhas como ‘saúde mental‘ ou ‘jogos violentos‘, a percepção dos especialistas difere acerca das causas. Esses atentados tem motivações complexas e não podem ser tratados de maneira simples. Em uma geração com números altíssimos de depressão e um modelo de educação que não incentiva inclusão de jovens, esse processo é, além de tudo, um efeito colateral que o sistema fez.

O psicólogo Almerson Cerqueira Passos conversou com o Hypeness em março desse ano sobre os atentados de Suzano. Para ele, não é possível apontar uma causa única – como bullying – para tratar desse tipo de ataque.

“Quando entendemos tudo como bullying, acabamos invisibilizando alguns aspectos graves no processo de criação. Se eu penso que chamar um aluno ou aluna de macaca é bullying, invisibilizo o racismo. Parece que tendemos,  com perspectiva do bullying, a suavizar um pouco o crime, no caso o racismo”, disse o especialista.

– Bullying, abandono e saúde mental: os verdadeiros responsáveis pela tragédia de Suzano

“Há uma emergência de políticas públicas e de saúde para estudante envolvidos em episódios de bullying escolar. A saúde deve ser pensada enquanto conceito que abarca o bem estar bio-psíquico-espiritual das pessoas. Pensar que a violência se manifesta de inúmeras formas, sutil, velada ou explícita e sob a lógica de sistemas opressores como machismo, racismo, lgbtfobia, é pensar que intimidação e a vitimização são dinâmicas complexas que se produzem nas relações sociais. Principalmente nas escolas, aparelhos ideológicos do Estado”, adicionou Almerson, que é mestrando em psicologia na Universidade Federal da Bahia.

Políticas públicas para inclusão das pessoas no sistema escolar são essenciais no nosso país, especialmente em escolas de baixa renda. A escola em que o atentado aconteceu em Icaraí é rural e – como a maioria das unidades de ensino brasileiras – não tem estrutura para lidar com esse tipo de problema.

Não é só no Brasil. No Quênia, uma jovem foi expulsa da sala após menstruar pela primeira vez. A humilhação pela qual Jackline Chepngeno passou aos seus 14 de anos de idade foi um gatilho para a adolescente, que se suicidou.

Nós já sabemos que escolas e universidades com maior diversidade podem brecar a incidência de suicídio. Resta criar maneiras de fazer um sistema de ensino que reduza esse tipo de divergência – oriunda de problemas mentais, de questões como racismo, lgbtfobia e machismo. O debate é profundo, e o atentado de Caraí, infelizmente, pode não ser o último do tipo no nosso país.

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Foto: Reprodução/Facebook


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @yurifen.

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