Reportagem Hypeness

‘O Sesc tem estrutura racista’: dados e depoimentos expõem racismo no mercado de trabalho

por: João Vieira

São 55,8 % da sociedade brasileira os cidadãos que se autodeclaram pretos ou pardos. A realidade de maioria no corpo social é quase utópica quando transferimos as divisões para espaços de poder, como o mercado de trabalho por exemplo, onde números tomam caminhos totalmente inversos. Pesquisa divulgada pelo Google nesta segunda-feira (18), o estudo ‘Consciência entre urgências: pautas e potências da população negra no Brasil’, feito em parceria com o Instituto Datafolha e a consultoria MindsetWGSN nas cinco regiões do Brasil, mostra que a inclusão no mercado de trabalho é tema de urgência prioritária pra 46% da comunidade negra.

O desemprego atinge 11,8% da população brasileira, mais de 12 milhões de pessoas, em números de setembro do IBGE. Desses, dois em cada três são negros, ou 64,3%, segundo o mesmo instituto. O desemprego entre negros, que, novamente, são maioria, atinge mais de 14%, enquanto a minoria branca tem 9,5% de sua população buscando recolocação profissional. Isso sem contar as taxas de informalidade, que, em 2019, atingiram o recorde de 41,1% da força de trabalho brasileira. Desses, 66,1% são pretos ou pardos, também de acordo com o IBGE.

Desemprego no Brasil é de 11,8% atualmente.

Hostilidade e apartheid social: o que a pessoa negra encontra ao entrar no mercado formal

Um dos motivos que leva o negro para informalidade é a falta de recepção e ascensão no mercado de trabalho. A pessoa negra, minoria nas posições formais do Brasil, ao ter a carteira assinada, se depara com um ambiente cada vez mais hostil e segregado de acordo com a evolução de seu cargo, além de estar longe de, estatisticamente, alcançar salários que sejam minimamente compatíveis com o que brancos recebem para fazer a mesma função.

De acordo com dados do IBGE do 4º trimestre de 2017, trabalhadores negros ganham cerca de R$ 1,2 mil a menos que os brancos em média, diferença que se manteve durante os cinco anos em que o órgão se debruçou no tema, a partir de 2012. Segundo o estudo ‘O Desafio da Inclusão’, elaborado pelo Instituto Locomotiva, com dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), as mulheres negras têm a menor renda entre os trabalhadores com ensino superior.

Falta de perspectiva no trabalho acaba levando negros para mercado informal e empreendedorismo por sobrevivência

Se o homem branco com superior completo tem média salarial de R$ 6.702, o homem preto ganha em torno de R$ 4.810, 29% a menos. Já a mulher branca graduada rende em média mensal R$ 3.981, enquanto a mulher negra formada lucra R$ 2.918 mensalmente, quase R$ 4 mil a menos que o homem branco.

Presença nas grandes empresas e em cargos de liderança

Se chegar no mercado de trabalho já é um desafio gigantesco para a comunidade negra, crescer a alcançar postos de liderança é quase uma utopia. O relatório Black In, produzido pela consultoria de engajamento Santo Caos, feito com 1798 pessoas e lançado em 2018, mostra que 34% dos funcionários das maiores empresas do mercado são pessoas negras. Nos cargos de liderança, entre as pessoas que têm posições de poder no negócio, negros são apenas 10%. Se recortarmos em gênero, o número de mulheres negras executivas é de 0,4%.

Se continuar como está, a proporção racial equivalente no quadro de funcionários das grandes empresas só será realidade daqui a 150 anos.

“Se você trabalha em um lugar onde só você é negro, você tá sabendo que sempre todo mundo tá te olhando”, diz o professor Ivan Siqueira, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, que participou do relatório Black In. A falta de representatividade no ambiente pode intimidar a pessoa negra a denunciar casos de racismo quando eles acontecem. Segundo o Black In, 38% dos profissionais negros levam na brincadeira ou ignoram quando sofrem discriminação racial no trabalho; 27% conta para alguém de sua confiança; 33% responde a pessoa e apenas 16% informa o ocorrido para o RH ou canal de denúncia da companhia.

 

Essa confiança é construída nos ambientes fora da empresa, no momento em que o chefe vai jogar futebol com o funcionário, no momento que eles saem pra tomar uma cerveja, é no momento que eles vão jantar dentro de casa, convidam pra jantar na casa dos outros, e nesses ambientes, dificilmente aquele negro, que teve um desafio imenso pra entrar dentro da organização, dificilmente ele é inserido nesses ambientes

A fala é do Samuel Melo, integrante do movimento Educafro, que também participou do relatório Black In. A fala dele é traduzida em números quando olhamos para como as pessoas negras percebem os ambientes em que trabalham.

Negros que entram no mercado de trabalho acabam enfrentando barreiras racistas

80% dos entrevistados pelo estudo acreditam que há racismo nos mecanismos utilizados pelas companhias para promover profissionais. Essas pessoas enxergam ascensão apenas em áreas operacionais, reclamam da falta de referências negras para se inspirar e observam relação direta desses processos tortos com a baixa autoestima e auto-sabotagem.

Jornada do herói

Os poucos negros que ascendem e evoluem na carreira relatam, como suas principais dificuldades de continuidade na função, a sensação de ter que se provar mais que os outros, a discriminação no dia a dia, o sentimento de solidão e voz única e o fato de não se sentir respeitado pela equipe da qual é gestor. Assim, quem chega lá em cima, ao invés de se tornar um exemplo, acaba reforçando a percepção de que é preciso realizar uma jornada do herói para conseguir evoluir na carreira.

O sonho de ser pesquisadora no Sesc virou pesadelo com chefe branco, racista e sexista

SESC Belenzinho

Hypeness foi atrás de depoimentos de pessoas negras profissionais que tinham histórias de opressão racial para contar sobre sua trajetória dentro do mercado de trabalho. O primeiro deles é de Michele Silva, pesquisadora que trabalhou por mais de três anos no Centro de Produção Audiovisual do Sesc São Paulo, na Sede Administrativa, localizada no Belém, zona leste da capital paulista. Ela relata ter sido vítima de assédio moral e racismo por parte de seu líder direto, que, segundo ela, trabalha na instituição há mais de 20 anos e segue por lá nos dias de hoje. Leia abaixo:

Trabalhei por três anos e pouco, em um departamento do Sesc SP, era pesquisadora, era a única  negra da equipe até  entre 2015 e 2017, em 2018 chegou outra. Meu chefe gritava, nunca respeitou meus conhecimentos, um dia me perguntou se eu tirava informações do Wikipedia, pois para ele, o que eu dizia não fazia nenhum sentido, já que ele não era especialista na área que era chefe, mas claro que eu sou só podia estar dizendo besteira , jamais uma negra pode saber mais que um homem branco. Sempre humilhações no sentido acadêmico, porém tudo escondido, lá existe uma hierarquia absurda, não há um canal de reclamações, então eu só poderia me reportar a ele, por causa da hierarquia.

Fiquei doente, até conseguir nova oferta de trabalho e pedir demissão. O sonho de ser pesquisadora no Sesc virou pesadelo com esse chefe branco, racista e sexista.

Trabalhava no Centro de Produção Audiovisual (CPA), fica na sede administrativa no bairro Belém. Ele continua lá, tem mais de 20 anos de casa. Havia outra negra na equipe que também sofria, porém um pouco menos por causa do tempo de casa que ela tem. Ela continua no setor, porém em outra equipe.

Estrutura racista 

O Sesc possui uma estrutura racista, ninguém denuncia por medo de retaliação, além de não ter ouvidoria para fazer reclamações e denúncias. Tentei [denunciar], mas não há como, gerência sem abertura, a estrutura é assim de cima para baixo: direção, superintendência, gerência, sub gerência, coordenação, técnicos. Técnico só pode conversar com o coordenador, ele deveria reportar para sub gerente ou gerente.

Duas vezes que consegui falar com a sub gerente, ela me disse que ele era ansioso. O gerente só me perguntou no dia da minha demissão o motivo, [e deu] mesma resposta: “ele é assim mesmo, vamos conversar com ele.

‘Fiquei doente’ 

Dores de cabeça absurdas, sempre que entrava, passava o dia. Foram nos meus últimos meses. Fiz tomo[grafia] de cabeça e face, mas nunca deu nada. Nunca mais tive isso desde que saí de lá. Não mudei nada da minha rotina, não tomo remédios, apenas troquei de trabalho.

O outro depoimento é de uma profissional que não quis se identificar. Ela afirma ter trabalhado em uma multinacional de renome, que também não quis citar, e hoje está no mercado informal.

O racismo é uma coisa muito velada

Não sou uma mulher negra que nasceu no contexto humilde, também não era rica, mas sempre estudei em escola particular, minha mãe é uma vencedora pra sociedade, porque conseguiu me criar sozinha, sem meu pai, que nunca me ajudou. Fiz uma faculdade legal e entrei numa multinacional pra fazer estágio.

A unidade de negócio [que eu trabalhava] era considerada a mais chique dessa multinacional. Não tinha negros na área. Tinha eu, um gerente até e dois analistas na unidade inteira. Meu gerente, que me contratou, era branco, mas não era racista.

Mas eu me sentia muito pressionada, parecia que não podia errar, e eu tinha dificuldade, quando fui contratada, de aprender algumas coisas. Eu sentia desprezo das outras pessoas da minha equipe e passei por várias situações de errar coisas e ouvir que era por causa de cotas [que eu estava lá], de insinuarem que eu errei por causa do cabelo duro.

‘Não sou preconceituoso, até sambei com ela’

Em momentos de descontração, tinha workshops onde tocava samba, e eu tava lá, sambando e alguém falava depois ‘ah, eu não sou preconceituoso, até sambei com ela no workshop. Eu também tenho pé na favela’. Consegui ser efetivada em outra área, mas três meses depois fui demitida. Fui efetivada com uma semana de treinamento em uma área muito complexa, e acabou que deu muitos problemas.

‘Estou tentando me reerguer’

Não tinha tido o treinamento devido e isso acabou com a minha carreira. Foi muito difícil explicar porque fiquei apenas três meses com carteira assinada. Estou tentando desde então me reerguer, entrei em outro mercado, hoje em dia trabalho como pessoa jurídica, sem carteira assinada, e tô tentando desde então me reinserir no mercado. Sofri muito, mas continuei a lutar e estou lutando. Isso tudo acabou muito com minha autoestima, e demorou muito pra eu conseguir recuperar essa autoestima profissional.

Engolindo calada

[Tinha] cenas de ser humilhada, usar maquiagem escura, sujar papel e a pessoa gritar comigo, falar que aquele papel não era meu, era da equipe, que não tinha que ficar sujando, que tava um lixo, um nojo. Engoli muitas coisas calada porque era meu sonho, estudei numa faculdade boa, falo inglês, espanhol, e meu sonho agora é ser uma mulher de negócios. Eu sei que vou conseguir, mas é um caminho mais cheio de pedras.

Outro lado 

Citado na reportagem, o Sesc foi procurado pelo Hypeness para exercer seu direito de resposta. Confira a nota na íntegra enviada por Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

“O Sesc possui um Código de Conduta Ética e seus valores éticos estão presentes em nossa instituição desde a fundação na década de 40 do século passado. Entre os valores destacam-se as condutas baseadas na valorização da integridade dos relacionamentos entre as pessoas e o respeito nas relações de trabalho em que não se admite prática de qualquer forma de preconceito ou discriminação.

Além do canal em nosso portal, existem outras maneiras para comunicar alguma conduta indevida, tais como a nossa intranet, o gestor da área de atuação do empregado e até a área responsável pelo gerenciamento de pessoas.

Não há nenhum registro de queixa apresentada pela ex-funcionária. Quando há, providências imediatas são tomadas”

Publicidade

Fotos: foto 1: Agência Brasília/foto 2: Nappy/foto 3: Ravena Rosa/Agência Brasil/foto 4: SESC/Divulgação


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Livre, DJ Rennan da Penha assina com gravadora: ‘Pretos no topo’