Ciência

Primeira mulher negra doutora em física cita vazio provocado por racismo

por: Gabriela Glette

Se ser mulher é ter de pedir licença para estudar, se aperfeiçoar e adentrar no predominantemente masculino mercado de trabalho, para a mulher negra existir é ainda muito mais difícil. Hoje professora do ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica, uma das mais conceituadas faculdades do Brasil, a frase que Sônia Guimarães ouviu de uma professora quando ainda era estudante da faculdade de Física na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), representa um dos grandes marcos em sua trajetória de luta. “Você nunca vai usar física na vida mesmo”, foi o que ela ouviu quando teve uma bolsa de Iniciação Científica negada. Hoje, ela é a primeira mulher negra doutora em física no Brasil.

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Porém, mesmo sem a bolsa a aluna aplicada terminou a graduação, optou pela carreira acadêmica e logo ingressou no mestrado em Física Aplicada no Instituto de Física e Química de São Carlos, da USP. Depois de formada, viveu como pesquisadora na Itália, e engatou o doutorado em materiais eletrônicos, pelo Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester, na Inglaterra.

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De volta ao Brasil em 1989, Sônia já passou por diversas universidades públicas como professora até, em 1993, fazer parte do seleto grupo de professores do ITA – em São José dos Campos. Naquele ano, a instituição de tradição militar ainda não aceitava mulheres como estudantes.

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Nascida e criada em Brotas – interior de São Paulo, ela é filha de pai tapeceiro e mãe comerciante. Assim como muitas mulheres, Sônia era uma das únicas em sua escola que se destacava nas matérias de exatas, sobretudo em matemática. Isto acontece por que, de fato, as mulheres não gostam de exatas, ou acreditam que não são capazes – resposta natural a tanto desestímulo?
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Se hoje a professora se orgulha de sua história de excessão e pioneirismo, os episódios de racismo sempre a acompanharam desde a infância. Quando ainda estava no colégio, foi obrigada a sair do turno da manhã, horário em que estudavam os melhores alunos, e mudar para a tarde, dando o lugar para outra aluna. Isto não seria um problema se o motivo não fosse o fato dela ser má aluna, mas sim, negra. “Ela era a filha da faxineira, mas era branca e, embora não fosse boa aluna, queria estudar de manhã. Então tiraram eu, a única pretinha que era uma das primeiras da sala, e me colocaram à tarde”, completa.
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Com 17 anos, Sônia se matriculou em um cursinho pré-vestibular e foi aprovada no curso de física da UFSCar. Ela era a primeira pessoa da família a entrar no ensino superior. Especialista em física moderna, a trajetória de Sônia no restrito mundo da ciência e tecnologia brasileira, a fez assumir uma luta solitária em um espaço, que todos sabemos ser, racista e machista.

A mulher negra na carreira científica

Segundo o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, dos 63.234 docentes, apenas 251 são mulheres negras, o que, em termos percentuais, representa menos de 0,4% do total. Destas, apenas 23 são da área de exatas – Sônia é uma delas.
Em sala de aula não é diferente. O número de mulheres é ainda restrito – entre os 110 aprovados em 2018, elas foram apenas sete. Já alunos negros, segundo dados do próprio instituto, são cerca de 20% atualmente e somente no vestibular deste ano foram adotadas as cotas raciais; 1.033 se inscreveram para disputar 22 vagas.

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Fotos: reprodução


Gabriela Glette
Uma jornalista e produtora de conteúdo que mora na França. Apaixonada por viagens e inquieta por natureza, ela encontrou no nomadismo digital o segredo de sua felicidade, e transforma a saudade que sente da família e amigos em combustível para escrever suas histórias. Gabriela também é fundadora do site Quokka Mag, onde fala apenas sobre coisas boas!

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