Entrevista Hypeness

Rashid lança ‘Tão Real’ em temporadas em um mix de audiovisual e música

por: Gabriela Rassy

“Não existe mais separação entre quem eu sou e o que eu faço”. Imerso em seu maior projeto musical até hoje, o rapper, produtor e empresário paulistano Rashid expande sua música para o audiovisual. Na pegada das séries que nos viciam a cada episódio, o álbum Tão Real chega em 3 temporadas, com direito a trailers e capítulos, tudo num formato de documentário.

A produção vai do processo criativo aos enfrentamentos que o artista passa ao longo de sua jornada na música. Com participações especiais de Dada Yute, Rincón Sapiência, Duda Beat, Drik Barbosa, Luccas Carlos, Lellê, entre muitos outros, “Tão Real” transpassa o disco.

Além do documentário que acompanha cada etapa, um site foi criado unindo os lançamentos a conteúdos extras. Entre eles, um podcast onde o rapper comenta as novas composições num papo com os jornalistas Alê Santos (The Intercept e Vice BR) e Marcílio Gabriel (Programa Freestyle e ESPN). Marcílio é a voz que interage com Rashid no diálogo em “Conceito (de rua)”, que abre o disco. O site traz ainda os pôsteres oficiais do álbum em alta para download.

Na faixa “Todo Dia”, o músico faz um feat pesado com Dada Yute, um dos caras mais relevantes do reggae hoje no país, para falar sobre a vida da população preta e a violência do estado. O clipe ganhou cenas do Movimento Mães de Maio e o refrão gerou a campanha #LutoTodoDia, na intenção de reunir histórias reais de quem vive o constante embate de luto e luta.

Brincando com a mistura do rap com o pop, Rashid solta uma parceria com Nave em Apavôru, revivendo a influência do disco funk no rap. Já em “Sobrou Silêncio” ele se une à diva do pop brega Duda Beat em uma produção do trio Dogz, de Ruxell, Sérgio Santos e Pablo Bispo.

Trocamos uma ideia com Rashid para falar dessa maratona de lançamentos e do desenrolar de Tão Real. Saca só:

 

 

Hypeness | O trabalho audiovisual de Tão Real é uma superprodução. Há quanto tempo você vem trabalhando nessa ideia?

Rashid | A estrutura ainda é deficiente para que seja a superprodução que a gente deseja e que os fãs merecem, mas o esforço tem sido digno de grandes orçamentos (rs). A verdade é que a gente juntou um time de pessoas talentosas e cheias de fome, todo mundo tentando se manter na mesma energia.

Hypeness | Você normalmente mergulha fundo nos seus projetos e mexe em cada detalhe? Quando sabe que finalmente ficou pronto?

Rashid | Eu gosto, sim, de me envolver em cada detalhe mas, ao mesmo tempo, respeito muito a expertise de cada um. Primeiro eu ouço a ideia de todos, porque minhas ideias para vídeo são limitadas, afinal, eu faço música. As ideias dos diretores serão infinitamente melhores porque eles vivem pra isso. Gosto de pensar assim. A partir daí, se todos concordarmos com o caminho dos conceitos, eu começo a dar meus pitacos para ficar com a minha cara ou, em alguns casos, se a ideia for fugir do costumeiro pro Rashid, a gente parte pra ousadia. Um ambiente de criação coletivo é ótimo pra esse tipo de trabalho.

Hypeness | O Tão Real mostra como você se tornou sua própria obra já que ela fala de você e dos seus questionamentos que afinal são de muitos de nós. O que te move a seguir na caminhada e o que não te deixa cair?

Rashid | A caminhada é a arte e a arte é impulso. Eu comecei nisso só querendo rimar bem, imaginando se um dia escreveria tão bem quanto meu ídolos. Não havia perspectiva de sucesso, de grana, de fama, de viagem, etc. E além de tudo, ainda tenho os fãs, que são a coisa mais incrível disso tudo.

Resumindo, meu combustível maior é a arte, a arte de rimar e querer ser melhor a cada dia. Depois, ainda vem todo esse bônus. Então, mesmo que haja muitos problemas e pressão nesse mercado, eu tenho motivos de sobra pra me sentir estimulado.

Hypeness | O trabalho chega dividido em temporadas, como as séries que a gente ama. Você tem tempo de ver séries? Quais mais curte e por que? Alguma delas influenciou o formato desse trabalho?

Rashid | Eu curto séries. Não sou tão viciado quanto várias dos meus amigos, mas na medida do possível sempre assisto. Não tem nenhuma que me influenciou diretamente nesse trabalho, mas tem muitas séries incríveis que gosto demais. Breaking Bad, The Handmaid’s Tale, Free Meek, Dark, GOT, Dexter e por aí vai.

Hypeness | O dia de chuva do Lollapalooza foi um baque muito presente nos episódios de Tão Real. Foi uma grande frustração, mas rendeu reflexões que você emprega no seu trabalho? Como se fortalecer depois?

Rashid | A gente trouxe isso no Tão Real porque a intenção era mostrar todo esse caminho até chegar no álbum. Obviamente, esse episódio foi um poço de frustração, não só pelo acontecimento em si, mas você não consegue se desligar daquilo porque em todo canto tem uma notícia ou alguma explicação que você precisa dar. Agora já foi, mas na época era um pouco incômodo. A verdade é que o acontecimento em si já é um fortalecimento. Tipo, olha isso que rolou, irmão… Tamo preparado pra muita coisa no palco (rs).

Hypeness | A parceria com Dada Yute rendeu praticamente um mini documentário sobre o ponto de convergência entre o reggae e o rap. Como você enxerga a fusão desses estilos que têm ainda investimentos e alcances de mercado tão diferentes?

Rashid | O Reggae é um estilo lindo, riquíssimo e tem uma proximidade absurda com o Rap em suas origens e intenções. Pra mim, um tá colado com o outro. Me inspiro muito em diversos artistas de reggae, respeito demais. A fusão entre os estilos, geralmente quando acontece, sempre é natural. São gêneros irmãos. Como aqui no Brasil, onde o Rap ganhou o Samba e o Funk como irmãos também.

Hypeness | Falando em outros estilos, Tão Real chega forrado de parcerias e transitando dentro e fora do rap. Como escolheu as participações desta fase? Quais outros estilos te interessam para produzir em conjunto?

Rashid | Tudo pra mim parte da música. A música “Todo Dia” parecia pedir o Dada Yute, a “Sobrou Silêncio” me pedia a Duda Beat. Então, tudo flui a partir do clima do som e da minha sintonia com a pessoa que possa vir a participar. Eu costumava fazer músicas apenas com artistas mais chegados, mas nesse álbum, trabalhei com pessoas que só fui conhecer pessoalmente depois do som gravado, tipo a Lellê. E a energia bateu na hora. Minha concepção sobre participações envolve o fato de o “feat” estar o mais à vontade possível, dentro da sonoridade e na vivência. Muitas sonoridades me interessam, mas tudo depende do que a música pede. Se combinar e a energia bater, é nóis!

Hypeness | Os temas políticos são base do rap e no seu trabalho estão sempre muito atuais e presentes. Como você acredita que a música possa contribuir para o debate sobre os caminhos que estamos traçando?

Rashid | A música sempre fez parte desses debates, desde muito antes do Rap. Nina Simone, James Brown, Caetano, Gil, Chico. O Rap é mais uma ferramenta. A ideia é fazer com que as pessoas deixem de ser indiferentes em relação às questões do mundo. Fazê-las entender que o fato delas não vivenciarem o racismo na pele, o machismo, a homofobia, a desigualdade etc., não quer dizer que essas questões não existam e não dá o direito a elas de classificarem a luta dos outros como vitimismo ou “mimimi”.

O Rap foi classificado como música de bandido durante muitos anos, apenas pelo fato de relatar de forma crua os acontecimentos dos bairros periféricos. Imagine você colocar o filme “Cidade de Deus” na categoria “cinema de bandido”. Pois bem, esse filme fez basicamente o que o Rap vinha fazendo há anos, e ainda faz.

Isso nos mostra algumas coisas: primeiro, que as pessoas gostam dessa coisa do “safari”. De conhecer o mundo da favela, da quebrada, sem precisar pisar lá. E também que quando esse conteúdo forte, realista e pesado é produzido pelo próprio povo que mora ali, pelos pretos, pobres etc., isso nem sequer é visto como arte. Então, a música Rap já luta em várias instâncias, só pelo fato de existir e fazer sucesso.

Publicidade

Fotos: Kleber Oliveira


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
‘Bebê Yoda’ enlouqueceu a internet. Mas, afinal, do que se trata?