Pessoas que você precisa conhecer

Winnie Bueno criou o ‘Tinder dos Livros’ para democratizar leitura entre negros

por: Kauê Vieira

Ela, como adianta a descrição do Twitter, conecta pessoas através de livros. Winnie Bueno funciona como um Exu que utiliza a inteligência tecnológica cunhada pela religião nascida em África e desenvolvida no Brasil para entregar livros a quem precisa. 

Bacharel em direito pela Universidade Federal de Pelotas, Winnie é criadora do ‘Tinder dos Livros’, uma comunidade que liga doadores com quem precisa de um livro, seja para passar no vestibular, conseguir uma sonhada vaga de emprego ou se informar sobre determinado assunto. 

– Cristiele França, a radialista que leva o candomblé e os orixás para o cotidiano de Salvador

Winnie Bueno

O Hypeness conversou com a gaúcha de Pelotas sobre o projeto sucesso no Twitter. Feminista negra alinhada com o pensamento de nomes com Sueli Carneiro, ela conta que a ideia surgiu em um 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. 

“Eu sou bem ativa no Twitter e percebi que uma série de pessoas, especialmente pessoas brancas progressistas, falavam sobre o Dia da Consciência Negra. Uma perspectiva de buscar para si mesmo o reconhecimento de um ativismo antirracista, inicia.

Eu sugeri que seria mais efetivo se comprometer a doar um livro para um acadêmico ou para uma pessoa negra que estivesse necessitando do que ficar postando no Twitter. Várias pessoas brancas me mandaram recados dizendo que se dispunham a doar. Eu organizei tudo e fui no Twitter e disse, ‘olha, eu tenho um monte gente aqui disposta a doar um livro. Me manda o nome e o endereço para mandar e eu vou passar pra pessoa e ela vai doar um livro pra vocês’.

O ‘Tinder dos Livros’ é um sucesso. O projeto já contou com doações de gente como Emicida, que enviou uma caixa do livro infantil ‘Amoras’, primeira publicação infantil de sua autoria, para Winnie. 

Não é à toa. Winnie sempre teve a literatura como uma espécie de armadura contra o mundo real. Incentivada pela mãe e especialmente pela avó, a acadêmica é prova viva do impacto provocado pela leitura. 

“Foi através da literatura que eu me protegia. Me refugiava muito na leitura, especialmente na infância e adolescência. Depois, na fase adulta, e não só na fase adulta, mas na adolescência e até na infância, os livros passaram a ser uma ferramenta muito importante pra eu entender o racismo”

Por falar em racismo, Winnie Bueno encontrou nos livros não apenas refúgio, mas inspiração para entender os significados de ser uma mulher negra do Rio Grande do Sul.  

“Para além da experiência que eu vivia por ser uma mulher negra no Rio Grande do Sul, era através dos livros que eu compreendia que essas coisas, essas violências não eram minha culpa. Elas estavam organizadas em um sistema de dominação que é articulado hierarquicamente por raça”, salienta. 

Portanto, para não perder o fio da meada, o ‘Tinder dos Livros’ de Winnie Bueno é, de fato, uma das coias mais importantes para a luta antirracista. Ao propor que pessoas brancas participem efetivamente da luta antirracista, ela dá régua e compasso para que homens e mulheres negras protagonizem suas vivências. 

“Eu realmente acredito que os livros são uma ferramenta importante de emancipação. A leitura é uma ferramenta importante de emancipação. Isso pesou muito pra definir que essa seria uma ação mais interessante de combate ao racismo praticada por pessoas brancas do que postar coisas em redes sociais. Então, a centralidade dos livros na minha implicou no projeto nesse sentido”, resume. 

Quem lê?

Basta fazer uma rápida pesquisa no perfil de Winnie no Twitter para encontrar rostos e idades distintas de doadores e receptores. Tem de tudo, como ‘Ganhadores – A Greve Negra de 1857 na Bahia’, de João José Reis. 

Ou relatos lindos de morrer como este de Iasmin Miranda. 

Winnie diz que o retorno é positivo. A Bacharel em Direito se recorda de um caso específico de uma mãe que transformou a relação com o filho autista a por causa de uma doação do ‘Tinder dos Livros’

“As pessoas mandam mensagens agradecidas. Um dos momentos mais marcantes foi de uma mãe que tem um filho autista e pediu um livro que falava sobre a vivência de pessoas autistas. O livro era bem caro e o doador mandou ele para ela, que me mandou uma mensagem muito agradecida. Dizia ser uma vivência nova pra ela e que o livro ia ajudá-la a entender melhor o próprio filho. O retorno é muito bonito. Muito emocionante”, comenta orgulhosa. 

Transgressão 

Direto ao ponto, o processo de estruturação do Brasil como uma República escravagista à custa de sangue negro se mantém pelo domínio do sistema de educação, passando, claro pelos livros. 

Enquanto homens e mulheres de pele preta lideram índices de assassinatos e violência em um país que não se abala com imagens como a um jovem negro de 17 anos sendo chicoteado em um supermercado, o índice de afro-brasileiros em outro mercado, o literário, é ínfimo. 

Conceição Evaristo, ignorada pela branca academia brasileira de letras (escrevo em letra em minúscula propositalmente), que o diga. Apenas 10% dos livros publicados entre 1964 e 2015 no Brasil foram escritos por pessoas negras, diz pesquisa da Universidade de Brasília (UnB). 

Não terem políticas públicas efetivas de acesso à leitura e aos livros ainda é uma coisa que promove, então, essa distância, esse pouco acesso à leitura. Livro é um produto caro, talvez para pessoas que o acessam, R$ 40 ou R$ 50 não seja muito caro, mas a média de um preço de um livro hoje é essa, 40 reais. E, 40 reais para uma população onde sua ampla maioria vive em condição de pobreza, é muito dinheiro.

A escritora Conceição Evaristo

Ler, portanto, é um ato de transgressão diante uma sociedade racista como a brasileira. Afinal, quais são os autores e autoras inspiradores para uma ávida consumidora de livros como Winnie Bueno? 

“As escritoras que mais me influenciaram foram a Patricia Hill Collins – uma influência mais recente, que estudei no mestrado e continuo desenvolvendo um trabalho sobre o pensamento dela no doutorado”

Trata-se de uma pergunta difícil e até covarde. A Bacharel em Direito, por sua vez, foi gentil o bastante para confidenciar mais alguns nomes. 

“No decorrer da minha vida, fui muito influenciada pelas escritas de Sueli Carneiro, Lúcia Xavier, Jurema Werneck, Maria Conceição Fontoura, enfim, intelectuais negras brasileiras que fazem parte da minha constituição enquanto mulher negra, ativista. Enquanto intelectual”

Esses livros me marcaram muito. As leituras e escritas dos ativistas do movimento negro me marcaram. São os livros que mais me marcaram. A lembrança de infância que eu tenho de livro é um dos principais ativistas da história do movimento negro no Brasil, que é o Joel Rufino do Santos. Esse é o primeiro livro que eu me lembro de ter pegado na mão e lido. Se chama ‘Botija de Ouro’. Desde de muito cedo essas escritas me atravessaram e me constituíram enquanto pessoa. 

E os homens negros escritores, onde estão? Winnie Bueno, que admitiu inspiração no negro Joel Rufino dos Santos, diz que eles estão por aí produzindo. A gaúcha pondera que muitos estão associados com a academia. 

“Podemos falar de Fábio Cabral, que está escrevendo sobre afrofuturismo. Podemos pensar em toda uma escrita de masculinidades negras que está colocada neste momento. Temos vários escritores como Túlio Custódio, o Caio César, o próprio Henrique Restier, que são homens escrevendo na academia. 

Acho que as escritas dos homens estão muito informadas na academia. Temos ainda o Osmundo Pinho, o próprio Lázaro Ramos que fez uma carreira inteira como ator e agora vem para a escrita. O Emicida, que fez outra como rapper e vem para a escrita. Temos o Renato Nogueira, que é um filósofo importante escrevendo para crianças negras. O Wandersson  Nascimento, um filósofo que tem articulado uma série de traduções de filósofas africanas”

Winnie Bueno ajuda a visibilizar a mulher negra gaúcha

A criadora do ‘Tinder dos Livros’ salienta que o protagonismo feminino na escrita acontece por este ser o único espaço de expressão livre para mulheres negras. 

“Os homens também estão escrevendo bastante. Acho que existe uma circularidade melhor desses livros, inclusive porque a escrita é o único lugar onde mulheres negras podem se auto definir. Os homens negros vão ter outros espaços de inscrição da suas próprias subjetividades. Então, as mulheres negras acabam escrevendo mais e colocando suas vivências e narrativas em livros”

O futuro se escreve junto 

Movimento iniciado para fazer com que os brancos coloquem a mão na massa, o ‘Tinder dos Livros’ cresceu no rastro das redes sociais. A teia de solidariedade em prol do conhecimento em tempos de negação da ciência potencializa a força das redes e o movimento provocado por mulheres negras na sociedade. 

Invocando Exu mais uma vez, os caminhos estão abertos para a democratização do direito humano de acesso à leitura. 

“As redes sociais são muito importantes para o projeto, inclusive porque ele começa nas redes e se dá quase todo no Twitter a partir de uma determinada visibilidade que eu tenho nessa rede social. Então, ela é muito importante para circular e também, enfim, porque você consegue conectar pessoas dos mais variados locais a partir das redes. Existe a perspectiva de montar um aplicativo, mas a gente ainda está avaliando qual seria o alcance do app”, amarra Winnie.

Aliás, você deve estar se perguntando sobre os livros favoritos de Winnie Buenos, adivinhei? 

“Tenho muitos livros favoritos, então tem que escolher por área. Acadêmico, de longe é o ‘Black Feminist Taught’. E na literatura existem dois livros que eu gosto muito, ‘O Crime Atrás da Porta’, de Ganymédes José e o outro é Harry Potter”

Winnieteca 

A potência do trabalho de Winnie Bueno ecoou desde que realizamos esta entrevista. Agora, a iniciativa de doar livros para quem precisa (e todos nós precisamos) ganhou um espaço exclusivo. 

Com apoio do Portal Geledés e do Twitter, a Winniteca estreou na rede social no #NovembroNegro e promete intensificar ainda mais o trabalho do ‘Tinder dos Livros’. 

O mecanismo é simples, se você é uma pessoa negra em busca de um título específico, basta cadastrar o nome do livro que precisa. O esquema é o mesmo para os doadores, que devem pedir ou cadastrar um título para fazer a alegria de um pretinho ou pretinha.  Ah, não se esqueça de utilizar a hashtag #PedeUmLivro.

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Fotos: foto 1: George Cereça/Reprodução/Instagram/foto 2: Lis Pedreira/Facebook Oficial/foto 3: Elizabeth Thiel/Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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