Reportagem Hypeness

Bahia honra sangue negro e assume ponta contra elitização do futebol

por: Kauê Vieira


O desenvolvimento do futebol está associado com os movimentos da classe trabalhadora no Reino Unido. O Manchester United, maior campeão inglês de todos os tempos, foi fundado por um ferroviário. Cidades industriais como Birmingham e Newcastle também tinham forte identificação com o esporte. 

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A relação entre a classe trabalhadora e o futebol teve um ponto de inflexão em uma desgraça que marcou para sempre a forma com que os britânicos acompanhavam seus clubes do coração. O desastre de Hillsborough, que matou 96 pessoas durante uma partida do Liverpool, foi o álibi perfeito para a elitização do esporte – movimento comandado com mão de ferro por Margareth Thatcher durante o início da década de 1990. 

Thatcher é acusada de iniciar gentrificação do futebol inglês

Para se ter ideia dos efeitos da gentrificação, entre 1990 e 2008 os preços dos ingressos subiram mais de 600% – sete vezes mais do que em outras ligas importantes. Trocando em miúdos, os belos estádios, o gramado impecável e a segurança de ‘primeiro mundo’ custaram o acesso da classe trabalhadora. 

O Brasil passa por processo semelhante ao Reino Unido. Por linhas tortas, a chegada de grandes eventos como a ‘Copa do Mundo’ e os ‘Jogos Olímpicos’ reconfiguraram as arquibancadas. O Maracanã, que nem precisava ser tombado para impedir tal absurdo, foi ao chão. E com ele a famosa geral e a diversidade de público deram lugar para cadeiras estofadas e uma atmosfera digna da frieza das arenas alemãs. 

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A tal modernização que promete segurança, entregou exclusão. Diga-se, não chegamos nem perto da qualidade dos estádios britânicos. Então, o torcedor que pretende enfrentar todos os obstáculos para assistir uma partida de futebol no Brasil precisa ainda desembolsar, em média, 50 reais para ver o time do coração. 

Some-se isso ao movimento de despolitização defendido por alguns célebres amantes do sapatênis. Existe no Brasil uma corrente que, assim como o Reino Unido fez com a classe trabalhadora, fecha os olhos aos movimentos como a ‘Democracia Corintiana’, liderado por ninguém menos de Sócrates e a defesa dos direitos civis dos negros feita por Paulo César Caju. 

A gentrificação tirou negros e pobres dos estádios brasileiros

A Bahia é outra coisa 

Em meio ao marasmo das coletivas e respostas padrão dos clubes, surge o Esporte Clube Bahia. O time mais popular do estado mais negro do Brasil se destaca por posicionamentos fora da curva. Ao longo da temporada 2019, o tricolor de aço chamou a atenção por se posicionar em defesa da pluralidade. 

“Temos na raiz do clube muitas das questões que abordamos, principalmente a questão racial”, diz em entrevista ao Hypeness Lênin Franco, gerente de negócios do Bahia. 

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O executivo destaca que o clube está ciente de suas origens e da representatividade de ser de uma cidade como Salvador – a mais negra fora da África. 

“Somos um clube popular de Salvador – onde fica a maior parte da torcida do Bahia. É uma torcida e uma população negra. A gente tem isso na raiz”, ressalta Lênin que cita o apoio da gestão de presidente do clube, Guilherme Bellintani, que deu sinal verde para a criação do Núcleo de Ações Afirmativas dentro do clube. 

“O trabalho que estamos fazendo no Núcleo de Ações Afirmativas do Clube precisa de mais tempo para se consolidar. Acredito que o caminho que estamos trilhando fará com que os que entrem depois se sintam pressionados, porque a torcida vai cobrar uma atuação do clube. Pode ser sim um caminho para novas gestões futuras”

O Bahia é, acima de tudo, um clube negro e do povo

Impossível listar a quantidade de, me desculpe o clichê, golaços do Bahia. Diferente dos coleguinhas da Série de A – que insistem em fingir que homossexuais não jogam futebol – o tricolor baiano esteve na linha de frente contra a homofobia. 

A campanha #LavanteBandeira colocou as cores do arco-íris nas bandeirinhas de escanteio do estádio da Fonte Nova, publicou um manifesto e um vídeo de um torcedor destacando as ameaças do preconceito. 

Lênin explica ao Hypeness que ações deste tipo são pensadas entre os funcionários do clube. 

O Bahia tem uma preocupação muito grande de tentar abordar aquilo que causa mais dor ou esteja, digamos, na crista da onda. Que seja um tema forte e que esse grupo precise de apoio para a voz ecoar. A gente sabe que um clube com um canhão de comunicação desse tamanho possibilita que vozes ecoem.  

O gerente de negócios do clube baiano pondera que nenhuma decisão é tomada sem os protagonistas de cada história. Ou seja, a comunidade LGBT, segundo ele, é envolvida no processo. 

“Buscamos, dentro de cada público, identificar quais são os problemas e tentar ajudá-los de alguma maneira. Hoje, por exemplo, temos um funcionário trans no Bahia. É um dos exemplos. Sabemos que precisamos aumentar, principalmente em cargos de liderança, já que o Bahia identifica os erros dentro de sua estrutura. Isso leva tempo”

Ele complementa.

“Pra nós também é um aprendizado. Em cada tema que abordamos entramos em contato com lideranças de grupos, tentamos entender quais são as demandas, depois apuramos como agir, devolvemos para eles analisarem se estamos no caminho certo e fazemos. Mas, a humanização dentro do clube é perceptível. As pessoas estão preocupadas cada vez mais umas com as outras. É um reflexo bem bacana”

O futebol, você sabe, é protagonizado por atletas negros. Isso, infelizmente, não livra os atores principais do espetáculo das garras do racismo. E não vá pensando que o problema é exclusividade de quem tenta a vida no exterior. Pelo contrário, a discriminação pela cor de pele está presente de várias formas no território nacional. 

Acontece de tudo. Durante partida do Atlético Mineiro em Belo Horizonte, os torcedores Adrierre Siqueira da Silva e Natan Silva foram flagrados praticando o crime de racismo contra um membro da equipe de segurança do Mineirão. Eles ofenderam o funcionário, que também foi chamado de macaco por causa de sua cor. 

Racismo no Mineirão, em BH

Nossa reportagem conversou com Marcelo Carvalho, fundador do Observatório do Racismo – plataforma criada para fiscalizar a propor mudanças para frear a chaga da discriminação racial que insiste em permear a sociedade e, consequentemente, o mundo do futebol. 

“A estrutura do esporte, do futebol, é muito racista. Temos jogadores negros, mas é chão da fábrica. Não temos dirigentes, treinadores ou comentaristas negros. Se a grande maioria dos atletas são negros, como não temos a representatividade nas bancadas? Cito o fato de não termos jornalistas e comentaristas negros – que influencia muito na falta de mudança do cenário”, explica ao Hypeness Marcelo Carvalho.


Lênin pontua a ciência do Bahia acerca responsabilidade de lutar pela liberdade definitiva do povo negro. Ora, como já dissemos, dos 3 milhões de habitantes de Salvador, mais de 2,5 milhões são de pessoas negras. 

“Todas essas correntes, comunidades, possuem muitas feridas para se tratar. Quando falamos de racismo, não falamos só de racismo estrutural, mas também do genocídio negro.  São diversos outros assuntos que assolam nosso país dentro de um mesmo grupo”.

No Dia da Consciência Negra (20 de novembro), o Bahia lançou a campanha ‘Dedo na Ferida’, que questiona e luta contra o racismo estrutural do Brasil. O Bahia admitiu que o racismo também está dentro do próprio clube e prometeu mudanças. 

Sem combinar com ninguém, quem roubou a cena foi técnico. Roger Machado pegou o microfone falou o que todo mundo, pelo menos a maioria negra que acompanha a modalidade esportiva, queria ouvir. 

À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você (a repórter que fez a pergunta), mas quantas mulheres negras têm comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado.


O gerente de negócios do Bahia fala sobre o exemplo dado pelo clube. 

“Não sei se o Bahia abriu o caminho, mas o Bahia começou a sedimentar. Isso é muito difícil dentro das estruturas de um clube de futebol, porque o futebol ainda é um meio racista, machista e sexista. Estamos conseguindo quebrar isso. Acho que a cobrança aumenta para que os outros clubes façam também. Mas, precisa mudar a estrutura interna. De dentro para fora. Assim a coisa conseguir se sedimentar e, de fato, a gente enxergar isso como um legado”

Ele, mais uma vez, assinala que tudo é feito em equipe, o que barateia os custos para o campeão brasileiro de 1988. 

“Temos duas pessoas, Thiago César, assessor da presidência e ponte principal com o Núcleo de Ações Afirmativas, e Nelson Barros, gerente de comunicação, que nos pautam sobre o que foi conversado dentro do núcleo, que conta com pessoas de dentro e fora do clube – inclusive de grupos de setores envolvidos com questões sociais. Eles trazem isso para dentro do clube e a gente debate a quatro mãos. Eu, o presidente, o vice e Pis, diretor de fotografia. Depois do consenso, a ideia volta para o Núcleo e para, como eu disse, as lideranças dos grupos, que analisam junto ao Bahia se o caminho está correto. Thiago fica à frente das questões criativas junto com Pis no desenvolvimento de roteiro. A gente debate e mete a mão na massa. É uma produção interna, sem custos”.

Campanha do Bahia no #NovembroNegro

O caminho está sedimentado. Com cantou Gil, a Bahia deu régua e compasso, desta vez com o nome de seu clube mais popular. Resta saber se os outros clubes, sobretudo os mais endinheirados, vão cruzar os braços e reclamar ou promover a mudança. Futebol é política, sim. 

O futebol moderno está totalmente alinhado com posicionamentos sociais. O clube de futebol tem uma importância dentro da sociedade que é muito mais do que campo e bola. Então, os clubes precisam se abrir pra esse tipo de comunicação porque nós somos parte importante da sociedade. A gente costuma dizer que pra muita gente em Salvador, que possui uma renda per capita baixa, e que nossa torcida é predominantemente preta e de classe C, D e E, o Bahia é a única diversão dessas pessoas. O Bahia precisa prestar contas e a gente tem noção da nossa responsabilidade com a sociedade e esse trabalho que a gente tem feito é um pouco de devolver para a sociedade o que ela dá pra gente. 

‘Bora Bahêa Minha P*rra!’ 

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Fotos: foto 1: PA Archive/Reprodução/foto 2: Arquivo Maracanã/Reprodução/foto 3: Caique Bouzas/foto 4: Reprdodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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