Diversidade

Black Power: Alunos negros de medicina tiram foto em frente de antiga fazenda de escravizados

por: Karol Gomes


Já dizia a militância negra brasileira: “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”. Imagina então quando, para os olhares racistas, quem deveria estar na senzala, se forma em medicina

Bom, o que importa é a representatividade para pessoas negras que este grupo de estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos representa. Eles viralizaram nas redes sociais esta foto poderosa, tirada em uma antiga fazenda de escravos em Louisiana. A imagem, segundo eles, ilustra a “resiliência ancestral”. Hoje o local hospeda um museu. 


A ideia da foto partiu de Russell Ledet, que reuniu os colegas para o clique em que todos eles aparecem usando jalecos brancos. Ele disse a revista People que a ideia dos universitários é proporcionar “a conexão entre o passado e o presente da América”, além de promover a união entre os alunos, enquanto eles seguiam uma carreira que, segundo ele, carece de diversidade.

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A  estudante Sydney Labat resumiu o sentimento do grupo em poucas, mas fortes palavras: “Somos os sonhos mais ferozes dos nossos antepassados. Como médicos em treinamento, estávamos nos degraus do que antes era o local de escravos para nossos ancestrais. Essa foi uma experiência tão poderosa e me levou às lágrimas. Para os negros que seguem uma carreira na medicina, continuem. Para toda a nossa comunidade, continuem se esforçando. A resiliência está no nosso DNA”.

O Brasil já teve um momento de orgulho parecido com este. Berço da medicina no Brasil, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) formou, na mesma colação de grau, 12 estudantes negros. O recorde não é só para a instituição, como também na história do ensino superior brasileiro. Olha a foto deles: 

Antonio Wagner/Divulgação

 

A UFRB tem o maior número de alunos negros matriculados no Brasil – de seus 8.841 estudantes de graduação, 83,4% são autodeclarados pretos ou pardos. Entre os docentes, esse índice é de 48%. Os números são coerentes com a localização geográfica da instituição, já que a Bahia é o estado com maior população negra fora da África. 

A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) repercutiu a colação de grau dos médicos e tem encontrado medidas para que os recém-formados permaneçam atendendo a população no Recôncavo. 

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É difícil de acreditar, mas esta mesma universidade testemunhou um caso de racismo lamentável no início desse mês, quando o aluno Danilo Araújo de Góis se recusou a receber uma prova das mãos de uma professora negra. Em frente a ela, ele indicava com o dedo para que o papel fosse deixado sobre a mesa, numa recusa em pegar o documento.

Esse momento foi registrado em vídeo, gravado na noite de segunda-feira (9) no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB, na cidade de Cachoeira, Recôncavo baiano, e postado no Instagram. A UFRB publicou uma nota afirmando que uma comissão foi criada para apurar as denúncias a partir do vídeo.

A professora em questão é Isabel Cristina Ferreira dos Reis, historiadora e pesquisadora de História Social que dá aulas na graduação e no Mestrado do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB, na cidade de Cachoeira, a 120 quilômetros de Salvador. Ela contou com o apoio dos alunos que testemunharam o crime. 

Racismo nas universidades brasileiras não pode passar! Pela primeira vez, negros são maioria em formações de curso superior, segundo o IBGE, que atribui esta virada histórica as cotas raciais. 

A história do país justifica a criação da Lei de Cotas para recuperar o que foi privado de gerações anteriores de afro-brasileiros. De acordo com as pesquisas do historiador Nizan Pereira Almeida, em 1824, a Constituição brasileira ditava que a educação era um direito de todos os cidadãos. Contudo, essa lei não incluía os escravizados recém libertados, muitos já nascidos no Brasil.

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Apesar de positivo, o cenário ainda levanta alguns questionamentos, principalmente com relação a fraudes no sistema de cotas e, principalmente, a permanência desses alunos negros até a graduação. Mas ainda bem que grupos como o UFRB e até mesmo o dos nossos colegas gringos existem, para encher os alunos de negros de esperança e força para concluir seus cursos. 

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Fotos: Reprodução / Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.


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