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Com 200 anos, árvore mais antiga de SP é danificada por obra

por: Yuri Ferreira

Você conhece a Figueira das Lágrimas? Muita gente talvez não conheça a árvore de 200 anos que participou de diversos momentos no Brasil, mas é importante saber que ela foi danificada e pode deixar de existir graças à uma obra da Prefeitura de São Paulo.

A figueira se localiza na Estrada das Lágrimas, no bairro do Sacomã, e documentos históricos que datam de 1862 já a consideravam adulta, o que indica que, atualmente, ela conta com mais de 200 anos. Ela é considerada a mais antiga árvore da capital paulista.

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Registros da Figueira no início do século pássado

A prefeitura fez uma obra de revitalização no cerco da figueira, que estava bastante deteriorado. Para isso, realizou um corte transversal na principal raiz da árvore, o que, segundo especialistas, pode deixá-la suscetível à invasão de fungos e a um apodrecimento mais rápido, aumentando a chance de deterioração da figueira à longo prazo.

Esse exemplar de Ficus benjamina é chamada de Figueira das Lágrimas por dois motivos. Segundo historiadores e jornais da primeira década do século pássado, lá era o ponto em que os formados da Faculdade de Direito do Largo São Francisco abandonavam parentes e amigos antes de voltarem para suas casas no interior, sendo a Estrada das Lágrimas o ponto principal de partida para o litoral e interior do Brasil.

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Registro recente da árvore antes das obras da prefeitura

Outro motivo pelo qual assim se chama a árvore é porque, naquele ponto, as mãe se despediam dos filhos que iam para a Guerra do Paraguai, iniciada em 1865.

Debaixo de sua sombra mães carinhosas, com a alma despedaçada de dor, a soluçar, em pranto, num derradeiro amplexo de despedida, beijavam os filhos, que em defesa da pátria, ao som vibrante do clarim, marchavam para o campo de batalha, nas lutas com o Paraguay”, afirma um artigo de 1909 do jornal O Estado de São Paulo.

Ao G1, o biólogo Ricardo Cardim, dono do blog árvores de São Paulo e responsável pela mudagem da Figueira das Lágrimas – que levou uma parte dela para o Parque do Ibirapuera -, afirmou que a prefeitura cometeu um erro crasso ao danificar a raiz da planta.

“O que se percebe é que foram cortadas raízes saudáveis da Figueira das Lágrimas e que esse corte de raízes, além de servir de entrada de bactérias, fungos e doenças na árvore, podem provocar problemas e fazer falta para o ser vivo”, destacou.

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Dano causado pela prefeitura às raízes é evidente

Os registros orais, apontados pela dra. Roseli Maria Martins D’Elboux em seu artigo “Nos caminhos da história urbana, a presença das figueiras-bravas”, indicam que a árvore pode ter sido inclusive lugar de descanso do imperador D. Pedro I em seus trajetos entre Santos e o Palácio do Ipiranga.

Entretanto, se o pior acontecer e uma manutenção urgente para a proteção da Figueira das Lágrimas não for realizada, talvez iremos ver o fim dessa árvore que é um símbolo da lira paulistana e importantíssima para história do Brasil como um todo.

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Fotos: foto 1: Reprodução/G1/foto 2: Reprodução/IpirangaFeelings/foto 3: Reprodução/Elizeu Soares


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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