Inspiração

Ela viveu ‘Handmaid’s Tale’ na vida real e precisamos recordar sua história

por: Vitor Paiva

Parte do sucesso de The Handmaid’s Tale venha, para além da imensa qualidade artística e narrativa da série, da mórbida semelhança que é possível reconhecer entre a distópica história da República de Gilead e a realidade de diversos países atualmente – a começar pelo próprio Brasil. Mas a evidente verdade é que foi a arte que se inspirou na vida, e o romance da autora canadense Margaret Atwood nasceu como um alarme que não só aponta para onde facilmente podemos tragicamente chegar, como também recorda realidades tão sombrias quanto a de The Handmaid’s Tale que existiam até ontem historicamente. A história da ativista francesa Marie-Madeleine Fourcade é a prova de que a série está mais para um registro histórico do que para uma ficção.

Marie-Madeleine Fourcade antes de aderir à resistência

Marie nasceu em em Marseille, na França, em 1909, no berço de uma família burguesa e conservadora, onde sua história parecia traçada para se tornar mais uma dama da sociedade francesa. Formada em uma escola católica e diplomada também em música, quando se casou com um jovem oficial francês e começou a trabalhar em um programa de rádio em Paris, seu destino apontava para o óbvio – mas o que o futuro guardava para Marie não poderia ser mais diferente do que o glamour da vida de uma socialite: ela entraria para a história como uma das mais importantes lideranças da Resistência Francesa contra a invasão nazista, e um dos mais heróicos nomes de toda a Segunda Guerra Mundial.

Carteira de Identidade de Marie. “Profissão: Secretária”

Em 1936, já separada de seu marido e vivendo a vida de uma mulher independente na capital francesa, Marie começou a trabalhar em um jornal que denunciava o início do levante nazista. Aos poucos seu trabalho foi migrando para a espionagem para uma agência britânica, e em pouco tempo ela passou a liderar “A Aliança”, um grupo clandestino que lutava contra a força nazista, que alcançou mais de 3 mil membros – 24% de mulheres – recrutados por Marie e trabalhando em rede por todo o país. Seu codinome era “Porco Espinho”, por se tratar de um animal que, quando ameaçado, ataca o inimigo com seus espinhos.

Grupos de resistência atuando na França ocupada pelos nazistas

Marie cruzou fronteiras escondida em sacas e carros para transmitir informações, e por duas vezes esteve detida nas mãos da Gestapo, a temida polícia secreta do estado nazista – e duas vezes ela conseguiu fugir. Uma delas Marie teve de se esgueirar por um minúsculo buraco em sua cela, ferindo-se profundamente para salvar seus aliados, que teriam a vida ameaçada por sua prisão. Quando Paris foi finalmente libertada da invasão nazista, em agosto de 1944, Marie tinha somente 35 anos, e havia perdido 438 de seus 3 mil agentes. Sua “Aliança”, porém, foi a mais longeva e bem sucedida de todas as redes de espionagem dentre os Aliados, e o resto de sua vida foi dedicada, até 1989, a ajudar às famílias dos que morreram e dos que sobreviveram.

Marie-Madeleine Fourcade recebeu as mais altas honrarias do governo britânico, e se tornou a primeira mulher velada no Ler Invalides, em Paris, no mesmo local onde está enterrado Napoleão. Sua vida, porém, tornou-se símbolo do quão longe o horror humano pode chegar, e de como a força de outros seres humanos podem ajudar a nos tirar das mais terríveis sombras da história – e de que muitos de seres humanos luminosos eram mulheres.

Marie-Madeleine nos anos 1980

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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