Debate

Em vídeo, grupo integralista assume ataque ao ‘Porta dos Fundos’

por: Yuri Ferreira

Um suposto grupo integralista assumiu a responsabilidade pelos ataques com coquetéis molotovs à sede do grupo humorístico ‘Porta do Fundos’ na última terça-feira (24). Em um vídeo publicado no Youtube com uma nova gravação do atentado, três homens se responsabilizam pelo ataque, que teve como motivação o filme ‘Especial de Natal: A Última Primeira de Cristo’, em que Jesus Cristo é retratado como um homem gay.

O envolvimento de um grupo integralista com o ataque não surpreenderia. O crescimento de grupos de extrema-direita (nazistas, fascistas, integralistas) ao redor do país tem se dado de maneira exponencial. A antropóloga Adriana Lima, da UNICAMP diz que o Brasil vai passando por um processo de “nazificação”, especialmente na internet.

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Em um vídeo a la Al-Qaeda, os Integralistas assumem responsabilidade pelo ataque à sede do Porta dos Fundos

“A sociedade brasileira está nazificando-se. As pessoas que tinham a ideia de supremacia guardada em si viram o recrudescimento da direita e agora estão podendo falar do assunto com certa tranquilidade. Precisamos abordar o tema para ativar o sinal de alerta. Justamente para não dar palanque a essas ideias, precisamos falar sobre criminalização de movimentos de ódio e resgatar a questão crucial: compartilhar humanidades”, afirmou Adriana Lima ao jornal alemão Deustche Welle.

Mas o que os integralistas tem a ver com isso tudo? O integralismo é um movimento assumidamente fascista brasileiro, fundado por Plínio Salgado na década de 30, com herança estética do nazismo e sobretudo com um ideário antissemita, criado por um de seus principais membros, o escritor Gustavo Barroso. Os camisas verdes, como eram conhecidos, foram trucidados em 1936 por Getúlio Vargas – ainda no período democrático – após uma tentativa de golpe fracassado. Voltaram à rua e especialmente à internet nos últimos anos.

Reunião dos Integralistas Brasileiros em 1935, em que Gustavo Barroso, o maior antissemita da história do Brasil ao lado de Plínio Salgado

A violência de extrema-direita não é novidade. Desde os ataques de Suzano, ligados ao DogolaChan, um fórum alt-right (e muito mais coisas), o assassino racista de El Paso, até a morte de Marielle Franco, uma série de ataques tem motivações políticas de direita. O diferencial desse evento é que se trata de um dos primeiros atos no Brasil cuja responsabilidade está ligada à um grupo organizado, com táticas de terror urbano e motivação fascista.

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O dito “Comando de Insurgência Popular Nacionalista” da “Família Integralista Brasileira” já havia se responsabilizado por um roubo de bandeiras antifascistas em dezembro de 2018 na UniRio também no Rio de Janeiro. Outro fato curioso é que no dia 15 de dezembro, a Frente Integralista Brasileira se reuniu em um patético vídeo no Vale do Anhangabaú, na capital paulista. Os fascistas saíram da casinha.

Após a Batalha entre a Frente Antifascista e os Integralistas em 1934, os camisas verdes foram cunhados de covardes após sumirem correndo do conflito que aconteceu na Praça da Sé, em São Paulo

Não é difícil encontrar páginas e grupos integralistas no Facebook e canais de Youtube que divulgam as ideias anti-democráticas, fundamentalistas cristãs e antissemitas do Integralismo, o que impulsiona a divulgação desse ideário criminoso no país e crimes como o supracitado. As redes sociais e as grandes empresas de tecnologia como a Google, o Facebook e o Twitter devem se responsabilizar pela propagação desse tipo de conteúdo em suas plataformas.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro já iniciou as investigações contra o suposto grupo. A impunidade com esse tipo de atentado pode marcar o início de uma terrível era no Brasil. Em um país cujo mote de muitos é “bandido bom é bandido morto”, a celeridade da justiça pode ser diferenciada para diferentes crimes.

O Facebook permite a existência de Grupos Integralistas em sua rede social

Entretanto, há um caminho. Além de o Facebook ter começado a banir pessoas de extrema-direita, muito conteúdo continua lá. Uma iniciativa interessante é a de Christian Picciolini, que iniciou uma ONG, a ‘Life After Hate’ (Vida após o ódio, em inglês). O isolamento que a cultura de ódio proporciona (combinado, é claro, com sentimento de pertencimento bastante intensos) são perigosos para o ser humano. A iniciativa de Christian busca reinserir essa população na sociedade através do amor.

“As pessoas que deixam esses grupos, sejam neonazistas ou jihadistas, precisam do apoio de outros que tenham passado pelo mesmo. Para o restante das pessoas, não é fácil entender por que caíram no extremismo”, afirma o fundador da ONG.

 

 

 

 

 

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Fotos: Foto 1: Reprodução/Youtube Foto 2: Reprodução/Jornal do Povo Foto 3: © Getty Images Foto 4: Reprodução/Facebook


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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