Inspiração

Laverie Vallee, a ‘Charmion’, quebrou tabus como trapezista e fisiculturista no final do século XIX

Vitor Paiva - 19/12/2019

Se hoje o suposto “papel” da mulher como delicada e indefesa responsável pelo “lar” tornou-se ideário obsoleto e símbolo da desigualdade de gênero e da opressão – ainda que lamentavelmente siga existindo quem tenha parado no tempo diante da luta pela igualdade -, no século XIX tais ideias eram lugar comum, e derruba-las era tarefa que exigia força descomunal. E era isso que Laverie Vallee possuía, para se tornar uma das mais célebres artistas do vaudeville americano da época, misturando em suas apresentações sensualidade, malabarismo, trapézio, strip-tease e demonstrações de força em plena virada para o século XX.

Sua estreia nos palcos aconteceu no natal de 1897, em Nova York, com Laverie – que tornou-se famosa pelo nome artístico de Charmion – entrando no palco devidamente coberta por um vestido vitoriano e, montada no trapézio, tirando a roupa para se revelar uma malabarista sensual. As peças de roupa eram atiradas à platéia, enquanto Charmion realizava acrobacias perigosas no trapézio, seduzindo e assombrando a todos que assistiram seus números.

Além de possuir músculos e habilidade, Charmion foi uma das artistas que melhor se aproveitou do surgimento da fotografia e do cinema para ampliar seu sucesso.

Foi assim que em 1901 o inventor Thomas Edison, que poucos anos antes havia colaborado imensamente para o desenvolvimento do cinema, das filmagens e das exibições de filmes, decidiu registrar uma apresentação de Charmion. Intitulado “Trapeze Disrobing Act” (ou “Número de trapézio tirando a roupa”, em tradução livre), o filme mostra não só parte do show de Charmion, como também dois homens da plateia aplaudindo e pegando as peças de roupa atiradas. Segundo consta, a presença dos homens no filme servia para sinalizar para as plateias que assistissem o filme de Edison que não deveriam se escandalizar, como sugeririam as conservadoras normas sociais do início do século XX. Laverie morreu em 1949, aos 73 anos, na Califórnia.

O filme de Thomas Edison sobre Charmion pode ser visto abaixo.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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