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Mão na Massa: ONGs fortalecem comunidades e veem mulheres tomando lugar de liderança

por: Gabriela Rassy

Era um novembro atípico. A chuva chegou tarde e as alterações ambientais já davam as caras, arrastando a estiagem meses para frente. Ainda que o cenário fosse de início de seca, as pessoas da comunidade de Umbu, no município de Esperança, tinham brilho nos olhos. A expectativa era para receber 11 doadores da ONG ActionAid, que destina verbas para o desenvolvimento social e agrícola daquela e de outras regiões.

Ali, em meio ao agreste paraibano, os visitantes conheceram um dos destinos para onde vão suas doações. Não só conhecer, mas de fato ajudar na finalização da obra de uma cisterna que abasteceria 34 famílias que vivem por ali. Essa foi a sétima edição da iniciativa, apelidada de Mão na Massa.

“Não sabia que aquele ínfimo valor que eu colaborei todos esses anos, tinha um impacto tão grande na comunidade”, comentou Marciana Gomes Lopes, bibliotecária aposentada e doadora do projeto. E de fato, faz uma baita diferença.

Nas duas comunidades, o grupo foi recebido com músicas de boas vindas e comidas deliciosas produzidas por ali. As crianças faziam apresentações emocionantes falando sobre o respeito às diferenças enquanto os adultos colocavam à mesa frutas, cuscuz, sucos e outras maravilhas orgânicas produzidas por suas próprias mãos. Tudo resultado também das chuvas de inverno que se prolongaram neste ano.

“É difícil para se sobreviver, mas tem saída para que os agricultores não deixem esse lugar”, explica Maria Anunciada, liderança do sindicato de trabalhadores rurais. “Precisamos ser muito fortes e estarmos muito organizados”.

A chegada das doadoras – em sua maioria mulheres – foi celebrada não à toa. Colocar a mão na massa para fazer a cisterna era um momento que a comunidade esperava ansiosa. Afinal, a possibilidade de ter um reservatório de água em um lugar onde a estiagem dura mais do que a chuva significa poder receber alunos na escola, manter uma horta e desenvolver a economia local. A chegada da água liberta.

A independência das mulheres

Numa rodada de apresentações logo na nossa chegada, uma pessoa em especial já era conhecida das funcionárias da ActionAid. “Sou a menina do vídeo”, se apresentou dona Ligória. Ela foi personagem principal de um vídeo que mostrava os resultados de uma cisterna no entorno de sua casa. Sem água, ela e sua família não tinham o que beber, quanto menos manter sua horta ativa. Na época, ela dependia dos bicos do marido como servente de obras.

“Só com a cisterna de beber, tínhamos que economizar. Era aquela água para tudo: beber, tomar banho, cozinhar”, conta Ligória. “Agora com a de 52 mil litros tenho produção de alface, tomate, cebola, beterraba. Voltei a ir para a feira com mais variedade”.

Ela não quer nunca deixar de mexer com a terra por um motivo essencial: nunca falta comida na mesa. Filha e neta de agricultores, ela tentou viver em São Paulo, Brasília, João Pessoa, mas precisava plantar. “Meu sonho era voltar para a minha comunidade e voltei”. Depois do projeto chegar com a água, mudou também sua autoestima. Nada falta em casa e, contribuindo com a renda e com a alimentação da família, Ligória se sente independente.

“Antes eu ficava esperando que o marido trouxesse um pacote de bolacha, de café. Hoje eu saio de casa com prata e volto com ouro. Eu saio com alface e coentro e volto com tudo que estiver faltando”, explica Ligória.

Nessa transição, ela descobriu também a comunidade em que vive e a necessidade que as pessoas tinham de comprar o que ela produzia. Do seu quintal sai de um tudo e nada é feito com veneno. Ela faz parte de uma das 5 mil famílias do Pólo da Borborema – que abraça ainda 13 municípios do agreste paraibano – que contam com apoio não só da ActionAid, mas também da AS-PTA, associação que atua para o fortalecimento da agricultura familiar e para a promoção do desenvolvimento rural sustentável.


O trabalho no enfrentamento à pobreza acontece a nível global e, segundo Renata Couto, gestora de Captação de Recursos da organização, as mulheres e meninas são centrais neste processo, isso porque elas têm uma capacidade de liderança e investimento sócio-produtivo nas comunidades muito grande. “Ao mesmo tempo que elas são as mais afetadas pela pobreza, elas também são as que tem maior capacidade de mudar essa realidade. Pesquisas indicam que mulheres investem 80% de sua renda na sua família e na comunidade”, explica.

Outro momento ainda do trabalho é a conscientização do papel das mulheres como protagonistas. “É muito comum a gente acompanhar meninas que param de estudar para cuidar da família e dos afazeres domésticos. Infelizmente o casamento precoce ainda é uma realidade, então são caminhos que limitam o desenvolvimento da menina”, conta Renata.

Assim, dando condições para que essas mulheres se empoderem, elas podem fazer uma revisão desses papeis sociais. Passando a produzir alimento e gerando renda, elas têm força e voz para mudar seu papel dentro de casa e da sociedade.

Da ponta do lápis para a tomada de consciência

Uma forma de tomada de consciência das mulheres sobre seu papel social aconteceu de uma forma aparentemente simples mais muito efetiva. As cadernetas ecológicas são nada mais que cadernos onde elas anotam a produção em seus quintais tanto para o consumo da família quanto para o excedente que foi vendido ou trocado com outras mulheres.

Colocando na ponta do lápis, elas percebem que o quintal não só contribui com a subsistência, mas que de fato sustenta a família. “Essa economia antes ficava completamente invisível. Com a consciência da participação na renda familiar, ela cria uma voz e começa a negociar o espaço dela. O reconhecimento do trabalho dela e dela mesma é a principal mudança a partir desses projetos”, sintetiza Renata.

Com a mudança dessas relações de poder e do lugar antes dito “da mulher”, as agricultoras passaram a se organizar. Formando lideranças, elas passaram a conversar entre si para falar sobre o reconhecimento do seu trabalho e refletirem sobre as desigualdades. Ouvindo as histórias, elas perceberam que todas passavam pelas mesmas dificuldades de comunicação com os parceiros.

Quando elas começam a se organizar politicamente, percebem que só os homens apareciam. As mulheres ficaram com os cuidados do arredor de suas casas, onde criavam os filhos e plantavam suas ervas e alimentos. Elas montam então uma comissão, passam a estudar esse ambiente no entorno das casas, espaço onde elas, assim como dona Ligória, tinham poder, mas era um lugar socialmente invisível.

“Passamos a construir uma estratégia de valorizar o conhecimento das mulheres e descobrimos uma série de agricultoras com conhecimento sobre plantas e sementes. Passamos a resgatar esses saberes e estimular as experimentações”, conta Roselita Vitor, liderança sindical do Polo da Borborema.

Um dos projetos foi o de intercâmbio para que as mulheres da região conhecessem a realidade e trocassem experiências com outras de diferentes regiões. Com a construção desta rede de mulheres experimentadoras, elas passaram a trazer temas desafiadores para o projeto, um deles foi a violência doméstica.

A marcha das mulheres

Ainda com toda a movimentação, os intercâmbios e viagens tinham um empasse: os maridos não deixavam as mulheres irem. Elas passam então a fazer uma série de encontros que passaram a funcionar como uma terapia. Dessas histórias surgem ações para levar o tema da violência para a comunidade até que elas passam a organizar uma marcha para explicitar o que acontecia dentro de casa. Na primeira foram 200 e, em 2010, elas conseguiram reunir mais de 600 camponesas.

A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia se consolidou e trouxe, cada ano com mais força, o empoderamento. Além da denúncia da violência, da coragem de falar, fortalecem a agroecologia como modelo de agricultura.

“Foi na marcha que eu me reencontrei, me redescobri como mulher. A gente descobriu que a nossa vida era murcha, sem graça. A gente conseguiu se libertar e crescer enquanto ser humano e mulher. Hoje vemos o nosso espaço familiar com outros olhos”, conta Anilda Batista Pereira, agricultora da região de Remigio. “A gente achava que ajudava em casa, mas o que a gente faz é trabalho mesmo. E a cada ano a gente se ronova mais. A marcha é libertação”, diz.

O que começou como um movimento tímido, hoje resultou num polo composto por grandes lideranças femininas. “Hoje as mulheres estão não só nas suas áreas ao redor de casa, mas são presidentes de sindicatos, gestoras de bancos de sementes e de fundos rotativos. Elas vêm assumindo papel político na construção de um projeto de agroecologia na região da Borborema. Mais do que isso: entendendo que esse projeto só é possível se ele for igual para homens e mulheres”, afirma Adriana Galvão Freire, assessora técnica do Núcleo de Saúde e Alimentação da AS-PTA.

Dona Ligória também participa da marcha e sente os efeitos positivos dessa união. “Antes eu era sozinha. Hoje eu tenho mais de 6 mil amigas”, conta. “A marcha foi o passo forte. Foi onde eu renasci, aprendi a engatinhar e hoje andar com minhas próprias pernas. Eu sou a mulher mais feliz do mundo. Tudo que eu conquistei de 10 anos para cá foi na marcha”.

A juventude e a inspiração para o futuro

Além do fortalecimento através das cisternas e das instruções técnicas com o apoio da AS-PTA, a ActionAid também atua com o apadrinhamento de crianças. As doações são destinadas às comunidades como um todo, mas funcionam como base para que as crianças tenha também uma troca de experiência com os doadores. São elas quem escrevem cartas e contam sobre o desenvolvimento local para a pessoa que apadrinha, formando um elo de ligação.

“O apadrinhamento foi base, um alicerce para desenvolver essa cultura agrícola em mim”, diz Adiles Emanuely Pereira da Silva, de 17 anos. A jovem é agricultora do Sítio Lutador e hoje estuda Administração na Universidade Federal de Campina Grande, além de estagiar no sindicado, ela também compõe o movimento de estudantes.

Na continuidade da Marcha das Mulheres, a juventude do campo vem se especializando e também se unindo para debater o fortalecimento da agroecologia. Dentro do movimento, a mulher também é a principal força.

“Sem feminismo não há agroecologia. A mulher está conseguindo se empoderar e, a partir de movimentos como esses, ter mais voz. Como o machismo é uma questão cultural, a gente precisa ir lá, fazer e colocar em pauta que a mulher é importante. Eles que aceitem”, conclui Emanuely.

Do lado das doadoras, o resultado é muito emocionante. “Saio daqui com mais força, com mais garra. É incrível ver o espírito de coletividade que elas têm e o quanto juntas elas conseguiram fazer a mudança. Volto para casa com esse sentimento de ‘é possível’. Volto impactada com a luta e com a dedicação delas”, avalia Fernanda Muffato, que foi pela primeira vez conhecer o projeto de perto.

Hoje a juventude camponesa também tem sua marcha e seu lugar dentro dos sindicatos. É um caminho sem volta e que vai deixando para trás, aos poucos, o antigo ciclo da pobreza. Enquanto vivemos momentos políticos conturbados, com a recente eliminação do Programa Um Milhão de Cisternas, entre outras não-políticas de valorização da terra e da nossa saúde, é preciso olhar com empatia para além da cidade grande.

É ver que não tem nada de pop e tech em comer veneno. E que quanto mais equidade de gêneros tivermos, mais a sociedade ganha. Para entrar nessa onda de evolução, só começar a agir. Dentro de casa, olhando para o próximo e, na próxima chance, repensando quem a gente quer governando as cidades, os Estados e, claro, o país.

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Fotos: Kalina Soares


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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