Reportagem Hypeness

Paraisópolis, DJ Rennan: O funk e a impossibilidade da existência negra

por: Kauê Vieira

Esta matéria foi construída para debater a associação entre a prisão do DJ Rennan da Penha e a criminalização do funk. A morte de nove jovens entre 14 e 23 anos causada por mais uma ação desastrada da polícia militar, que responde a acusações de tortura, agressões sem sentido e até cancelamento de pedido de resgate, reforça o que todo mundo, incluindo o personagem central da reportagem já sabe: para o Estado, o funk é música de preto, digo, bandido. Ou seriam, aos olhos do poder, a mesma coisa?

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A polícia de São Paulo, apontada pelo governador João Doria como a melhor do Brasil, sequer tinha um oficial no comando. A versão oficial da PM paulista é que acontecia uma perseguição a suspeitos de moto. 

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A corporação, no entanto, não conseguiu até aqui explicar como nove pessoas perderam a vida e os relatos de tortura em becos e vielas de uma das maiores favelas do mundo. Os 38 policiais foram afastados e cumprem funções administrativas. Em um primeiro momento o governador, que investiu pesado em propaganda e equipamentos como drones e bicicletas para combater o crime, chegou a elogiar o trabalho dos policiais. 

“A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo”, disse Doria, que garantiu que a política de segurança paulista não iria mudar. Diante das evidências de abuso de poder, o político voltou atrás. 

Aqui pra nós, por que o funk incomoda tanto a ponto de pessoas perderem a vida durante uma festa com o gênero musical como trilha sonora? Osmundo Pinho é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. O Hypeness conversou com ele, que ao lado de João Vargas, organizou o livro ‘Antinegritude – O Impossível Sujeito Negro na Formação Social Brasileira’

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Osmundo e João defendem a inviabilidade da existência plena do sujeito negro na formação atual. “Na verdade, o pressuposto embutido no argumento se localiza em um registro diaspórico e transicional, enraizado na perspectiva anti-colonial de Frantz. Fanon. Falando de uma posição de desenraizamento radical, Fanon, o afro-caribenho educado como um francês e que reencontra a si mesmo na África colonial ocupada pelo poder branco global em sua forma ‘imperial’ francesa, aponta para uma incompatibilidade essencial entre a civilização ocidental (e sua forma polícia fundamental, o Estado nacional), e o negro, justamente construído nessa relação com o ‘não-humano’”

Osmundo complementa chamando a atenção para a importante questão da desumanização de corpos negros.

A mera sombra ou reflexo distorcido da ausência de humanidade em um corpo quase humano. O sujeito colonial, nesse sentido, se aproxima do escravo, em sua dualidade essencial de coisa e pessoa. O negro no mundo colonial, assim como o escravo, estaria destinado a assumir toda a negação. Tudo que o mundo ocidental e branco reconhece como valor e fundamento de uma subjetividade racional e transcendente (espiritual) é negado ao escravo. Ou melhor, deve ser negado, para que por contraste, o reino humano da razão, da História e do progresso possa fazer sentido

Corpos de negros 

Inicialmente, o funk surge nos Estados Unidos da segregação racial entre negros e brancos. James Brown, um dos maiores artistas da história da música mundial, lotou bailes com seu ritmo suingado e que explorava todas as nuances do corpo. 

Sobretudo no Rio de Janeiro, como bem mostrou a reportagem de O Nexo, o funk encontrou o estilo do movimento Black Rio, para na década de 1980, incorporar características do Miami Bass – como sintetizadores e baterias eletrônicas. 

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Desde então, nomes como DJ Marlboro, MC Cidinho & Doca – responsáveis pelo ‘Rap da Felicidade’ e até Claudinho & Buchecha, ajudaram a popularizar o estilo pelo Brasil. Junto veio o incômodo da sociedade, que se mostrava escandalizada com a liberdade cantada por homens e mulheres negras. 

A perseguição lembrou a tentativa de criminalizar o rap. Este, diga-se, é um fenômeno comum da sociedade brasileira, principalmente pelos espaços comandados pela chamada branquitude. Há um incômodo latente quando sujeitos negros criam instrumentos para expressar a insatisfação com a desigualdade – algo comum no rap e no funk. 

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Osmundo Pinho, que também é professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia, argumenta que o chamado ‘mundo negro’ é utilizado pelo Estado apenas quando interessa. Nas palavras dele, “como pateticamente vemos na Bahia em tantos contextos, onde o corpo negro é disputado pelo mercado e pelo Estado”.

Autores contemporâneos como Frank Wilderson radicalizam e expandem essa ideia no contexto anglo-saxão. O que buscamos fazer foi discutir em termos mais empíricos, sociológicos, os desdobramentos dessa negação em contextos brasileiros, que são parte da diáspora africana, e do mundo colonial que a produziu. Então, é claro que negros e negras fazem parte da história e da cultura ‘nacionais’ no Brasil, mas o fazem como a representação de uma ausência (de dignidade pessoal, de valores civilizatórios, de autocontenção sexual ou moralidade, mesmo de direitos humanos, tragicamente) ou  como alegoria de fantasias e projeções brancas, como pateticamente vemos na Bahia em tantos contextos, onde o corpo negro é disputado pelo mercado e pelo Estado para representar por exemplo, a miscigenação, que é, nesse caso, a forma acabada de rejeição da negritude.

Gabriel Marinho trabalha com funk carioca. Ele é fundador do selo e agência musical Mondé. Ele explica ao Hypeness que o funk sofre de apropriação cultural. “É histórica, continua acontecendo e não creio que vá mudar tão cedo. 

Isso ocorre não só no funk, mas o Ocidente historicamente se apropria do que os pretos fazem, envelopam, vendem e pagam a grana. Com o passar do tempo, cria-se uma imagem da cultura preta deslocada dos pretos, tendendo ao um universalismo. Não falo aqui que brancos não podem fazer isso ou aquilo, não é isso, acho que isso nem precisa ser discutido, o lance é deixar claro que o funk é um expressão negra, assim como o rap, o samba, o jazz, o rock, o blues e diversas outras”, ressalta. 

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Polícia que mata 

Em 2014, o Racionais MC’s  – maior grupo de rap do Brasil -, lançou a música ‘A Praça’, que narra os fatos de uma operação da polícia durante show do conjunto na Praça da Sé. A letra cantada por Edi Rock dá margens para interpretações como a determinação do Estado brasileiro de acabar com o Racionais. 

“Uma faísca, uma fagulha, uma alma insegura

Uma arma na cintura, o sangue na moldura

Uma farda, uma armadura, um disfarce, uma ditadura

Um gás lacrimogênio e algema não é a cura, é luxuria.

Uma censura, tentaram e desistiram

Pularam atrás da porta, filmaram e assistiram

Pediram o nosso fim, forjaram uma lei pra mim

Tiraram o nosso foco dos bloco e o estopim

Tentaram eliminar, pensaram em manipular”

Em Paraisópolis a coisa não foi diferente. Fica a sensação de que o Estado entrou nos becos e vielas da favela que faz fronteira com o luxuoso bairro do Morumbi para exterminar. É a velha associação entre pretos e o crime. 

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Para melhor compreensão da criminalização de movimentos negros, Osmundo Pinho traça uma linha histórica entre a escravidão, definida pelo professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) como “a chaga mais brutal nesse cortejo de violações”, e o estigma violento que cercam estes espaços de, digamos, criação e posse da consciência negra. 

Um dos aspectos críticos dessa produção da negritude como negação ou ausência é o lugar estrutural da violência. Primeiro, a violência histórica, primordial, que instituiu o mundo tal qual o conhecemos, com suas fronteiras, línguas nacionais e categorias raciais. Um mundo que é fruto, dessa forma, da mais brutal violência e devastação. Como qualquer consulta a livros de História pode confirmar, a escravidão africana é a chaga mais brutal nesse cortejo de violações. Mas também, eu diria em segundo lugar, a violência em uma dimensão estrutural, simbólico-ritual (o que não quer dizer menos real). A indignidade essencial da pessoa negra autoriza ou está exatamente autorizada pela violação do corpo negro e pela violência gratuita e não imediatamente motivada. Nesse caso, também o espectro do escravo ressurge como um fantasma aterrador, como em ‘Amada’ de Tony Morrison. Ser escravo, em muitas definições significa estar socialmente morto. 

O professor e escritor Osmundo Pinho toca ainda em um ponto importante e que explica a falta de comoção social com o genocídio que persegue o povo negro há séculos. Nem diante de tragédias como a que tirou a vida de nove pessoas em Paraisópolis, há unanimidade. De maneira sádica, a sociedade busca alternativas para explicar o inexplicável. Como justificar a postura agressiva do Estado, aqui representado pela força policial que além de militarizada, tem raízes na escravidão, em um espaço de diversão de jovens, em sua vasta maioria negros e periféricos. 

“Estar socialmente morto significa que sua vida individual e a sua ‘pessoa’ não tem valor algum, ou merece nenhum respeito ou consideração, significa que o sujeito não pode se reencontrar ou reconhecer em nenhum lugar social ou genealogia legítima; significa que a violência e a brutalização de seu corpo não comove a ninguém e sua dor, tem apenas um significado social: testemunhar que você não é humano como nós e que nossa humanidade (branca) depende de seu martírio e execração. Essa é a lógica escravocrata subjacente como uma ‘economia libidinal’ que alimenta a supremacia branca com o sangue negro fresco”.

Qualquer semelhança com a escrvidão não é coincidência

 E adiciona: 

“Ora, então a violência policial e a repressão na favela, pode não ter necessariamente o objetivo consciente de matar negros (o que ameaçaria o pacto mestiço nacional), mas o ‘efeito colateral’ de uma pilha de corpos negros massacrados confirma que se a vida negra vale pouco em uma sociedade racista, a morte negra é muito valorizada como o holocausto oferecido a paz social e a ilusão de estabilidade para a sociedade”.

Gabriel Marinho trabalhou com um grupo chamado Deslocados, da favela do Fumacê, em Realengo (RJ). O produtor, que acumula viagens para a Europa com o funk,  critica o fato do funk também ser trilha sonora de festas na zona sul carioca. 

“O preconceito sempre rolou com o funk, na verdade com a cultura preta em geral. Algumas expressões culturais da diáspora ao longo dos anos conseguiram ser absorvidas pelo mercado, não de uma maneira ideal penso eu, mas absorvidas com a lógica do mercado. Outras expressões, acredito eu, ainda seguem numa linha entre o mercado e o alternativo, sinto isso no funk e no rap. Você pode sentir isso ouvindo proibidão e podcast de duas horas de ritmo louco com 150BPM, ou no funk comercial que toca nas festas da zona sul. Lembro que boa parte do que realizamos nas favelas do Rio de Janeiro foi na época das UPP’s, então tivemos diversas ações embarreiradas pela PMRJ”, assinala. 

O início desta reportagem é fundamental para entender tudo o que foi debatido até aqui. A ideia do Hypeness era relacionar a prisão do DJ Rennan da Penha com o racismo.  O DJ que agora celebra sua soltura com novo contrato e o lançamento do single ‘Você de Volta’, passou meses na cadeia por associação com o tráfico de drogas. Rennan foi considerado culpado pela Justiça por viver em uma comunidade tomada pelo tráfico de drogas. 

Nós, no entanto, fomos atropelados justamente pelo que gostaríamos de denunciar: a violência que ceifou vidas na favela que incomoda a elite paulistana. Isso mostra que, sim, queridos leitores e leitoras, o projeto do espectro político dominante do Brasil é associar o negro e o funk com o crime. Recentemente, um projeto de um morador de São Paulo, que repete a criminalização do samba, da capoeira do próprio rap, pretendeu oficializar tal máxima. 

A proposta foi enviada ao Senado Federal em janeiro de 2017 por Marcelo Alonso, webdesigner de 47 anos, morador de um bairro da zona norte de São Paulo. 

“É fato e de conhecimento dos brasileiros, difundido inclusive por diversos veículos de comunicação de mídia e internet com conteúdos podre (sic) alertando a população o poder público do crime contra a criança, o menor adolescente e a família. Crime de saúde pública desta ‘falsa cultura’ denominada funk”, justifica o autor. 

Diferente do que tentam vender por aí, a medida não tem nada polêmica: é racismo. Por mais que o autor possa não compreender, não dá pra colocar outro nome em uma tentativa de criminalização das artes negras. 

“Podemos fazer um paralelo com a criminalização do samba, do candomblé e da capoeira no início do século passado, todas essas proibições de liberdade têm viés racista institucional, esse é o país que por ano defendeu uma eugenia branca como política pública, comprovadamente”, contextualiza Osmundo Pinho. 

A criminalização de formas culturais negras, em termos de sua manifestação como a produção de lugares e territórios negros, e em termos de sua própria produção formal, como cultura expressiva negra é uma constante na história do Brasil. Tanto a roda de capoeira, como o pagode baiano. O que expressa um aparente paradoxo, o negro deve ser negado, interditado, silenciado e ao mesmo tempo é constantemente interpelado em termos raciais. Nesse sentido o samba não é cultura negra, mas os seus criadores negros originais foram primeiro desprezados e combatidos, depois expropriados e empobrecidos, mas as formas culturais que produziram, uma vez transformadas em mercadoria, podem ser agora consumidas higienicamente, em Higienópolis e em outros lugares, sem a contaminação dos corpos, sem o perigo que presença negra parece portar para aqueles que se identificam com os colonizadores e genocidas do passado. A violência é um dos dispositivos que constrói esse limite, essa fronteira, que se apropria da cultura negra, mas deixa as pessoas negras de fora. Então, funk em boates de luxo, tudo bem. Funk em Paraisópolis é uma ameaça a ordem pública. 

É preciso entender que não há equívocos na postura das polícias. Elas, na verdade, foram feitas para matar. Luiz Antonio Simas é Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fez uma linha histórica sobre a atuação da PM de São Paulo. 

“A PM foi criada para matar e morrer e nesse sentido é uma das instituições mais bem sucedidas do Brasil: mata e morre”, ressaltou em uma série de postagens feitas no Twitter. 

Osmundo Pinho não só concorda, como cita um vídeo viral de um documentário realizado pelo Le Monde Diplomatique que caberia facilmente no período da escravidão. Um grupo de pessoas, todas brancas (ao menos no Brasil), discutem ‘o que fazer’ com os moradores de Paraisópolis. Veja abaixo. 

“Sem dúvida, a instituição policial no Brasil tem uma história ligada a repressão ao povo negro, escravos, libertos, livres. Como aliás diz Orlando Paterson, e toda a historiografia, entre escravidão e manumissão existe continuidade e não ruptura.

A força letal, coloca os pretos em ‘seu lugar’ e oferece uma resposta a ‘sociedade’. Muitos viram um vídeo abominável onde ‘pessoas de bem’, moradores do Morumbi em São Paulo em uma reunião com um comandante da polícia militar parecem discutir a crise posterior a chacina do dia 1º. de dezembro. Pessoas respeitáveis pedem uma ‘ação mais forte’, para ‘limpar aquilo’; ou ‘direitos humanos, é o seguinte: você quer põe na tua casa’. A presença negra, autônoma, é sempre ameaçadora para os que se identificam com a Ordem, a Nação, as famílias de bem, etc.

E isso dá a medida do significado da negação para a negritude em contextos anti-negros. Em uma época em que as “pessoas de bem” eram senhores de escravos, o poeta baiano Castro Alves escreveu: “E vens falar de crimes ao cativo?/Então não sabes o que é ser escravo!…”.

Funk é cultura 

Mas, afinal, será que o funk não tem nenhum aspecto positivo sem o véu do embranquecimento? Vide a diferença de sucesso entre artistas negras e brancas. É claro que tem! Em São Paulo, o projeto Liga do Funk chama a atenção por se tornar um espaço de profissionalização e desenvolvimento social de inúmeros jovens como MC Kekel (que passou pelo projeto), que tentam ganhar a vida pela cultura. Pelo certo. 

“Eu já estou no funk há quase 20 anos. Em 2012, quando saí da periferia, imaginei que criando a Liga do Funk teria um braço para poder contemplar os jovens que têm pouca oportunidade dentro da periferia”, conta ao Hypeness Marcelo Galático, presidente da Liga do Funk. 

Ciente da imagem preconceituosa construída em torno do funk, Marcelo valoriza ainda mais o trabalho da Liga do Funk. “O funk atravessou muitas barreiras e está atravessando a cada dia que passa. É um movimento que vem da periferia e sempre vai incomodar a sociedade”.  

Ele complementa, “na Liga do Funk temos aulas de postura de palco, de canto, de profissionalização. Nós temos pelo menos três nomes no cenário do funk que passaram pela liga: MC João, que canta o ‘Baile de Favela’, Menor da VG e MC Kekel”. 

No livro ‘Antinegritude’, organizado por Osmundo Pinho e João Vargas, há a discussão sobre o estilo ‘vida loka’, que abrange estética, música e modo de viver – inspirados no rap, funk e no pagode baiano. Ambos, curiosamente, expressões culturais negras e contra o sistema vigente. 

Liga do Funk, projeto que reconhece a potência do funk

Embora não detecte uma relação direta entre romantismo e os bailes funk, Osmundo Pinho enxerga a presença forte da expressão das masculinidades, ainda hoje reprimidas por boa parte dos homens, sobretudo negros. O professor define o conceito de ‘vida loka’. 

O ‘vida loka’ é uma posição de sujeito ou performance, o que vale dizer que não é um tipo de pessoa, mas uma posição que o sujeito ocupa em uma rede de conexões e significados, entre a raça e a masculinidade, a classe, o Estado e o mercado. Vida loka até umas horas…Nos bailes funk contemporâneos e em suas diferentes versões históricas anteriores, como o black soul e outros, a sensibilidade está no ar. Óbvio que há afetividade, claro que há investimento emocional, mas não sei bem se romantismo. Ou que seria exatamente romantismo. O vida loka e seu estilo ‘thug life’, durão e flertando com a violência e o mundo do ‘crime’ é um estereotipo de masculinidade sedutora para muitos contextos. O baile funk pode ser arena para esse e outros estilos de masculinidade, assim como para muitas outras posições de sujeito, interseccionais, de gênero e raça. Então não acredito, ou desconheço, esse objetivo de resgate do romantismo, ao tempo em que reconheço o baile e outras formas culturais da juventude negra e periférica como usinas de produção estética, formal, e de subjetividades políticas de raça e gênero, conectadas a história cultural da diáspora africana e seus desdobramentos globais. 

Dá pra concluir que o incômodo não está propriamente no gênero nem no barulho. Afinal, um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do G1 com base nos dados do Programa Silêncio Urbano (PSIU), da prefeitura de São Paulo, mostra que Paraisópolis está na 76º posição. Ou seja, responde por apenas 0,64% do total de reclamações. A liderança é do bairro de classe média alta de Pinheiros, na zona oeste, com 345 chamados por dia

“Os setores da ‘ordem’ odeiam o funk pelos mesmos motivos nós o amamos, pelo seu significado histórico de rebeldia e criatividade indomada, por sua insolência e radicalidade, por sua conexão orgânica com a vida das comunidades. Pelo modo insurgente com que põe em discussão, torna objetivas, as contradições de nossa sociedade, principalmente e de modo mais agudo as contradições de natureza racial e sexual. Porque o sexo e a raça são os instrumentos históricos de controle e dominação da população negra, assim como os dispositivos que produzem a negritude como abjeção. A indignidade essencial associada a morte social e a negação da humanidade negra encontram na sexualidade ponto de apoio moral, o funk implode esse apoio”, conclui Osmundo Pinho.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: EBC/foto 3: EBC/foto 4: Tuca Vieira/Reprodução/foto 5: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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