Debate

Relato de Karina Buhr sobre estupro por líder religioso reacende debate sobre assédio e religião

por: Yuri Ferreira

Era para a denúncia ter acontecido há um ano atrás, quando acendiam-se os debates sobre assédio em comunidades religiosas graças aos comportamentos de João De Deus, o suposto médium que abusou de mais de 500 mulheres devido ao seu poder no culto religioso.

Karina Buhr viu a denúncia no programa ‘Conversa com Bial’ e teve suas memórias reacendidas pelo trauma que passou por 4 anos com o babalorixá e cantor de axé Dito de Oxóssi, vocalista do grupo Afoxé Ylê Egbá. Segundo a cantora, a situação de assédio durou quatro anos e a levou a um estado de terror psicológico extremo.

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A denúncia veio apenas a morte de Dito de Oxóssi, cujo nome de certidão era Expedito de Paula Neves. Ele morreu no dia 15 de dezembro desse ano e a carta de Karina com as denúncias veio à tona há dois dias atrás. Escrita em dezembro do ano passado, logo após as denúncias do caso João de Deus, o relato forte da cantora revela a trajetória que a levou cair nas garras do babalorixá.

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A carta de Karina é pesada e grave. Além do relato de três estupros, ela conta com diversos abusos psicológicos e financeiros que Dito executou contra a cantora. A cantora já antecipa as críticas que podem surgir ao seu texto.

“Por que não denunciou quando estava vivo? Por medo de morrer, medo de machucar minha mãe. Certamente ouvirei ‘mas ele morto não pode se defender’, ao que respondo: quem não pôde se defender fui eu. Certamente ouvirei que não estou respeitando a família num momento de dor. Respeito sim. Respeito a dor de cada um deles e de todos que consideravam Dito como pai. E peço que também respeitem a minha dor, que já dura mais de 20 anos. Ele, como babalorixá, me chamava de filha e usou sua força e autoridade dentro desse contexto pra escravizar minha mente e meu corpo”, afirmou no texto.

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Karina agradeceu o apoio que tem recebido de milhares de mulheres ao redor do país no Twitter.

Confira a carta de Karina na íntegra no Medium. O domínio psicológico por parte de autoridades religiosas é um instrumento de domínio contra as mulheres que pode levar a prejuízos financeiros, traumas psicológicos e violência sexual. Em caso de experiência similar, entre em contato com o Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), movimento fundado por mulheres abusadas por João de Deus que busca denunciar e criar uma rede de apoio para esse tipo de violência específica.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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