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Tava sem sono e mandou mensagem pro ex | Do Amor 122

por: Jader Pires

Já estava avançando para sua terceira noite sem dormir. Nadinha de nada, nem uma sesta, nem uma piscadela mais longa. Varou duas noites seguidas entre sites pornográficos, HQs dos anos noventa e documentários monótonos da Segunda Guerra Mundial. Estava atrás de qualquer empreendimento que o levasse ao sono. Saiu para caminhar na rua, mesmo com todo o frio que fazia, e voltou mais acelerado, com o corpo todo tremendo. A coberta não ajudou a relaxar e fazer o corpo desistir. O trabalho estava exigindo muito, ainda não tinha se acostumado com a casa nova (separações sempre são dolorosas, pensou). Ligar para a mãe acarretaria não em sanar seu problema, mas criar outro, deixando a coitadinha também na vigília. 

Videogame, nada. Comprar coisas para a casa nova, nada. Ficou ainda pior quando caiu em seu colo uma reportagem sobre privação de sono e como os sites de aposta e compras online vendiam trinta por cento a mais entre dez da noite e três da manhã, faixa do dia em que a solidão aperta, a quietude grita, a mente faz uma festa de arromba dentro da cabeça já cansada. Entrou em um estado de auto-depreciação tão potente que apostou cenzinho no resultado do basquete americano e perdeu. Até aquele momento ele nem sabia que se podia converter cestas de dois e três pontos. Era isso. Tinha alcançado com a pontinha dos dedos descalços o fundo do poço imaginário e precisava sair dele. Como voltar a dormir? O que mais poderia fazer para encerrar, de uma vez por todas, essa recente maldição? Pegou o celular e, ao abrir a tela, notou que ainda tinha como wallpaper a foto dele com o namorado, ou melhor, ex-namorado. Não terminaram brigados, sequer existiu uma briga. Só chegaram junto à conclusão de que não tinha mais suco para espremer daquele limão e que seria melhores estarem juntos, mas separados, cada um com sua vida, tocando uma amizade em comum, nutrindo as sentimentalidades de carinho que sempre manteriam um pelo outro, trocando camisas quando fosse conveniente, porque ainda achavam incrível como escolher roupa para um era certeza de ficar ainda melhor no outro. 

Trocou a fotografia dos dois, ele sorrindo para a câmera, o ex de perfil lambendo-lhe a barba rala, por um urso panda dando cambalhota. Poderia funcionar no curto prazo para ressignificar a alegria de abrir o celular. Depois foi na agenda direto no M e encontrou o nome dele. E começou a matutar. Prós e contras da relação dos dois, o quão interessante era pensar em não seguir mais com ele em uma relação, mas poder tirar uma casca de quando em quando, das possibilidades, dos acasos, de como gostaria de traçar a bundinha dele naquele instante, de como gostaria que o ex o pegasse. Quando deu por si, estava decorando uma série de frases que queria dizer àquela etapa da madruga para o outro, das chances, de como haveria de dar certo, se eles mantivessem a cabeça no lugar, se tateassem e entendessem onde estavam pisando, que o combinado não sairia caro e que estavam acostumados a lidar um com o outro para poder organizar algo que servisse aos dois. Talvez rolaria. É provável que acontecesse, realizou em silêncio, mas com uma cara bem da danada iluminada pela tela do aparelho. Tomou sua decisão e mandou mensagem. Como era de costume, quando ainda eram um casal, recebeu rápida a resposta, que sim, que ele estava dormindo, mas respondeu já que tinha sono leve e qualquer notificação chamava a atenção dele. Falaram por uns minutos, ainda consideravam um ao outro as pessoas mais próximas e indicadas para falar do fim da relação, trocaram a raiva da saudade, o medo do amanhã, se aproximaram, se soltaram e ele, cheio de ar nos pulmões enquanto comprimia os olhos para ler com total atenção, cuspiu uma série de mensagens curtas e diretas, imprimindo seus pontos de vista, seus desejos, a falta que o sono e o ex lhe doíam, das oportunidades e rendimentos sexuais. Do auxilio. Fez toda uma explanação como se estivesse de terno bem cortado de gravata fina apresentando seu melhor desempenho no trabalho, valendo uma promoção, ser expatriado para Nova York, entrar para o BBB. Segundo ele mesmo, não tinha como não cair naquela labiazinha toda. Mas recebeu um não. 

“Valeu, bebê, mas acho que isso não ia dar certo, não”. Sua barriga retorcia líquidos, a cara pegando fogo, os joelhos, antes flutuando com velocidade contra o lençol agora eram duas planícies estáticas na escuridão. A falta de perspectivas o fez começar a bocejar. O papinho que se seguiu sobre séries e o dólar foi deixando-o se cobrir de enfado, os olhos pesados, o celular ganhando quilos fantasiosos entre os dedos. De repente, não queria mais conversar com o ex. 

Mandou mais duas mensagens e se despediu. Estava com um sono danado.

O amor dá umas cochiladas.

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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