Debate

Universidade onde racista evitou professora formou 12 negros em turma de medicina

por: Karol Gomes

“Não estou entendendo”, disse a professora Isabel Cristina Ferreira dos Reis, quando um de seus alunos na Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), Danilo Araújo de Góis, se recusou a receber uma prova de suas mãos. O estudante, estático em frente a ela, indicava com o dedo para que ela deixasse o papel sobre a mesa, numa recusa em pegar o documento. 

Alunos do curso de Ciências Sociais da UFRB se assustaram com a atitude do aluno, que já possui histórico de racismo e homofobia, segundo relato de uma educadora para a rádio Metrópole, de Salvador. Os presentes na sala de aula não tem dúvidas e afirmam que Danilo agiu dessa forma porque a docente é negra

 

Esse momento foi registrado em vídeo, gravado na noite de segunda-feira (9) no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da UFRB, na cidade de Cachoeira, Recôncavo baiano, e postado no Instagram. A UFRB publicou uma nota afirmando que uma comissão foi criada para apurar as denúncias a partir do vídeo.

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A imagem, que circula nas redes sociais, mostra o aluno Danilo, de camisa amarela, de costas, em pé, conversando com a professora Isabel. Na gravação, a reação dela é de espanto. A dele, é de firmeza, dizendo a ela que não receberia a prova de suas mãos – a conversa é inaudível. 

Logo depois, a professora estende o braço e diz: “Tome o papel”. E o aluno responde: “Papel na mesa”. A situação causou alvoroço na sala por parte do restante da turma, que reprovava a atitude do colega de classe.

Em um segundo vídeo, a professora falava com a coordenadora do colegiado do curso de História, que precisou ser acionada para ir à sala de aula. Isabel relatou desconforto diante de toda a situação, que o acontecimento causou um tumulto na sala e por isso a permanência do aluno impossibilitaria a continuidade da aula.

A coordenadora do curso então pediu para que Danilo deixasse a sala e ele prontamente acatou. Mas o estudante não saiu sem continuar provocando protestos, sendo chamado de racista pela turma. 

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Historiadora e pesquisadora de História Social, Isabel dá aulas na graduação e no Mestrado do CAHL, do campus de Cachoeira, a 120 quilômetros de Salvador. Ela é especializada em relações familiares de descendentes de povos escravizados.

– A posição da UFRB

De acordo com o vice-diretor do CAHL, Gabriel Àvila, uma primeira suspensão está sendo encaminhada a Danilo, para mantê-lo fora de sala de aula por 15 dias. Para isso, o crime de racismo precisa ser comprovado. 

As próximas etapas consistem em ouvir ao aluno e a professora para avaliar o caso. “A direção tem um limite de atuação. Quem pode expulsar o aluno é a reitoria”, disse Àvila. 

Ainda de acordo com Àvila, esta não foi a primeira manifestação de Danilo contra a professora. Há 15 dias, o aluno já havia agido de forma agressiva. “Ele discutiu por causa de uma data de avaliação. Foi muito agressivo com as palavras e ela acabou cedendo. Ele tem uma predileção a fazer crítica a essa professora. Os outros alunos já tinham percebido o comportamento dele. A professora preferiu não levar adiante porque não chegou a ofensas com caráter racial”, comentou. 

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O vice-diretor informou ainda que nunca chegou uma denúncia em relação à conduta do aluno ao colegiado e à direção do CAHL, mas adiantou: “Apesar disso, qualquer atitude racista, homofóbica e machista não é tolerável no ambiente de ensino”

O crime também já foi registrado externamente. Isabel compareceu na Delegacia de Cachoeira na terça-feira (10) para prestar queixa. A professora e quatro testemunhas foram ouvidas e outras três pessoas intimadas para prestarem depoimento, assim como o estudante, que deve ser ouvido na quarta-feira (11).

– Atitude errada, no lugar errado  

Danilo parece não ter consciência de onde estuda. A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) tem o maior número de alunos negros matriculados no Brasil – de seus 8.841 estudantes de graduação, 83,4% são autodeclarados pretos ou pardos. Entre os docentes, esse índice é de 48%. Os números são coerentes com a localização geográfica da instituição, já que a Bahia é o estado com maior população negra fora da África. 

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Berço da medicina no Brasil, a UFRB nunca formou tantos médicos negros numa só turma como agora. Uma colação de grau, não só para a instituição, como também na história do ensino superior brasileiro, reuniu 12 estudantes negros. 

A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) repercutiu a colação de grau dos médicos e tem encontrado medidas para que os recém-formados permaneçam atendendo a população no Recôncavo. 

É importante que Danilo e outras pessoas que insistem em crenças racistas também tenham em mente que, pela primeira vez, negros são maioria nas universidades. Se agora os alunos não deixam o racismo passar, imagina daqui alguns anos, com mais profissionais negros formados – mais advogados, esperamos – e mais conscientes de seus direitos.

Leia na íntegra a nota da UFRB:

“A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) manifesta veemente repúdio às atitudes ofensivas do estudante do curso de Ciências Sociais, Danilo Araújo de Góis, para com a professora Isabel Cristina Ferreira dos Reis e outros estudantes do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), em Cachoeira. A instituição já criou uma comissão para apurar as denúncias encaminhadas por estudantes e professores do Centro, que informam ter presenciado reiteradas manifestações de preconceito racial, de gênero e de homofobia por parte do estudante. 

A UFRB informa que está tomando as medidas administrativas e jurídicas cabíveis ao caso, de modo a contribuir com a apuração dos fatos ocorridos na noite do dia 9 de dezembro, em sala de aula, no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), em Cachoeira. Após se recusar a receber uma avaliação das mãos da professora, o estudante foi denunciado pelos presentes por ato de preconceito racial, conforme vídeo veiculado em redes sociais.

Como instituição de ensino superior comprometida com os valores democráticos, o respeito à diversidade e implicada com os territórios de identidade em que está presente, a UFRB rechaça todo e qualquer ato de racismo, sexismo, LGBTfobia, intolerância e/ou violência, seja no âmbito acadêmico ou no cotidiano em geral.

A UFRB considera fundamental ao processo formativo na graduação e na pós-graduação o respeito às diferenças para constituir um ambiente de convívio saudável, sem discriminação. Ao mesmo tempo, a instituição manifesta solidariedade à professora e estudantes ofendidos no espaço da Universidade e reafirma seu compromisso em não deixar impunes atitudes desta natureza.

Cruz das Almas, 10 de dezembro de 2019.

Reitoria da UFRB”

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Foto: Antonio Wagner/Divulgação










Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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