Matéria Especial Hypeness

Você sabia que a história do Natal começa 7 mil anos antes do nascimento de Jesus?

por: Vitor Paiva

A bíblia diz que no princípio era o verbo, e que o verbo estava com Deus. Mas antes da própria bíblia existir, e definitivamente antes da história de Jesus Cristo tomar o Império Romano e se tornar o mito oficial do ocidente, outros deuses explicavam os mistérios da Terra. E antes desses deuses ou qualquer outra mitologia existir, havia o sol, e é por causa dele que, há milênios, celebramos o 25 de dezembro como nossa mais importante festa popular. Sim, a festa da data na qual celebramos Natal, em sua origem, nada tem a ver com o nascimento de Jesus, mas sim com o astro-rei. 

Nada é cientificamente comprovado na história de Jesus, e menos ainda é possível saber a data de seu nascimento  – a começar pelo fato de que toda mitologia ao redor de sua figura se deu por conta de sua morte, e era essa data que pautava as celebrações entre os primeiros cristãos: o nascimento de Jesus não era considerado importante. A história da festa do dia 25 de dezembro, porém, começa mais de 7 mil anos antes de Cristo, por um motivo concretamente importante: o solstício de inverno, ou a noite mais longa do ano no hemisfério norte. Superar a madrugada do solstício de inverno significa que, a partir de então, o sol ficará mais tempo no céu até o verão, e há diversos milênios que tal fato motiva povos do norte a celebrarem.

Na Inglaterra a festa do solstício de inverno era celebrada também em Stonehenge

Em suma, o 25 de dezembro celebrava a virada das “trevas” para a “luz” – o momento em que o sol tomava o planeta e tornava os meses seguintes mais quentes, melhorando assim as colheitas por vir e, com isso, a vida dos seres humanos, que enfim dominavam a agricultura e podiam, por isso, se assentar em um só lugar. Assim, foi natural que os povos, ao longo do tempo, pegassem carona nessa celebração natural – e originalmente laica – e aproveitassem a data para celebrar também seus deuses.

Representação do deus grego Dioniso

O deus Osiris, celebrado pelos egípcios no 25 de dezembro

Os antigos gregos cultuavam Dioniso, deus do vinho, do teatro e das festas, os egípcios, na mesma data, lembravam a morte do deus Osíris. Já os romanos aproveitavam o 25 de dezembro para celebrar o deus Mitra, de origem persa e requentado pelo Império.   

O antigo deus do sol Mitra

O nascimento de Jesus só passou a ser celebrado, e em especial no dia 25 de dezembro, mais de dois séculos depois do marco zero do cristianismo – aproximadamente em 221 d.C., por conta do trabalho de um historiador, que “incluiu” o nascimento do Cristo, em momento que o cristianismo se popularizava massivamente nas franjas do império romano, no mesmo dia do nascimento e da festa de Mitra. No século IV a igreja aceitou oficialmente a proposta, transformando a Festa do Sol na celebração do nascimento de Jesus.

À mesma época, por volta do século IV, na região onde hoje é a Turquia, o bispo da cidade de Myra decidiu presentear secretamente três moças, com três sacos de ouro, para servirem de dote a fim de que as moças conseguissem se casar. O benfeitor se chamava Nicolau de Myra, e assim teria nascido a lenda do Papai Noel – que, não por acaso, é também conhecido como São Nicolau, ou Santa Claus, em diversas partes do mundo. A tradição de presentear no dia do solstício de inverno – que hoje em dia acontece por volta dos dias 21 ou 22 de dezembro – já existia em outras tradições nórdicas, assim como a mitologia de que tais presentes viriam de seres sobrenaturais.

Antiga pintura de Nicolau de Myra

Curiosamente, ainda que não seja verdade que a roupa vermelha tenha nascido a partir de uma propaganda da Coca-Cola utilizando o bom velhinho como garoto-propaganda, é fato que a figura tornou-se efetivamente global em todo o mundo, unificando a festa ao seu redor, a partir de uma campanha do gigante dos refrigerantes. Realizados em 1931, os anúncios da Coca-Cola ligando o Natal à bebida através do Papai Noel foi a “divulgação” que faltava para que a lenda de Nicolau de Myra se transformasse na própria encarnação do espírito natalino.

Detalhe da campanha da Coca-Cola que popularizou o Papai Noel

Seja como for, o fato é que a história do Natal é mais complexa e plural do que a mitologia cristã e a publicidade em geral gostam de propagandear. De todo modo, desde seu início o motivo da celebração é tão grandioso quanto a popularidade que hoje a festa possui: celebrar o triunfo da luz sobre a treva, a chegada do período de uma melhor colheita, a presença do astro-rei soberano no céu. Em suma, literalmente acima de todos, o sol merece nossa festa.

 

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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