Matéria Especial Hypeness

Você sabia que o réveillon nasceu de uma ‘crise econômica’ da Idade da Pedra?

por: Vitor Paiva

Nenhuma outra festa popular une de tal forma o planeta inteiro praticamente simultaneamente como o ano-novo  – a não ser por diferenças de fuso-horário que, animados, acompanhamos pela internet e pela TV, o fato é que todo o mundo celebra o fim do ano que passou e o começo do próximo ano na virada do dia 31 de dezembro para o dia 01 de janeiro. E apesar da profunda sensação que efetivamente o réveillon é a passagem de um ciclo, objetivamente trata-se somente mais um dia e depois outro, e a simbologia e o ritual do ano-novo foram inventadas por nós. Mas de onde veio essa invenção? Quando e como começamos a celebrar com tanta veemência e emoção a passagem dos anos?

O início dessa história retorna a um longínquo passado – e bota longe nisso: mais de 11 mil anos atrás, em plena Idade da Pedra, mais precisamente no período Mesolítico – e, como não poderia deixar de ser, os tempos eram de crise. Viver de caça, alimentando-se somente de animais capturados sempre nos últimos tempos (não havia, afinal, qualquer refrigeração controlada) e da descoberta de plantas e vegetais comestíveis não era fácil nem sustentável a longo prazo, e o fim de mais uma Era Glacial dizimou muitos animais e reduziu ainda mais o cardápio da humanidade de então. As tribos eram pequenas, com não mais do que cerca de 100 pessoas, e a solução encontrada para toda essa crise – que naturalmente não aconteceu da noite para o dia, mas sim ao longo de centenas e milhares de anos – foi uma das mais engenhosas, transformadoras e importantes da história do ser humano: a agricultura. Foi o cultivo de sementes que nos levou a celebrar o ano-novo.

O desenvolvimento da agricultura naturalmente levou à invenção de outra ferramenta que mudaria para sempre a história e a trajetória da humanidade: o calendário. Observar o céu, para relacionar a posição das estrelas, da lua e o caminho do sol foi o que permitiu que a agricultura fosse efetivamente dominada, para se descobrir quando determinado vegetal crescia mais e melhor. Naturalmente que os céus e astros e os próprios ciclos do tempo foram tratados como divindades, que mereceram nossas maiores celebrações. A observação do céu nos fez perceber que, no período de um ano, completava-se o mais longo ciclo, que seria futuramente compreendido como de volta do planeta ao redor do sol. E o deus-sol representava também não só o fim do frio, como também o período de melhores colheitas – e assim começa a nascer a festa do ano-novo.

No hemisfério norte, o fim desse ciclo é celebrado junto do fim do período mais frio do ano – tanto Natal quanto o Ano-novo acontecem no ponto mais alto do inverno, o que significa que, a partir daquele ponto, o frio será cada vez menor e, assim, as colheitas melhorarão. Era, portanto, um motivo incontestavelmente importante para se celebrar. Além disso, o período frio e de mais difícil colheita era quando aproveitávamos, em especial no Hemisfério Norte, a comida que havia sido guardada para enfrentar justamente essa época mais difícil do ano – era, portanto, momento de eventuais banquetes.

Estátua do imperador Júlio Cesar

Acredita-se que os primeiros povos a celebrarem o marco eram da mesopotâmia, mas em 46 a.C, o imperador Júlio César, ao perceber que as festas romanas agendada para março, que então era o primeiro mês do ano, estavam acontecendo durante o inverno, decidiu por reformar a maneira com que os meses eram contados – e assim nasceu o calendário Juliano, alinhado pelas estações do ano e a movimentação do sol. Esse novo calendário tinha enfim 356 dias e 6 horas por ano, com 12 meses e com o primeiro dia do ano em 01 de janeiro – e estabelecendo esse como o “dia do ano-novo” por decreto do Imperador. Como uma sociedade politeísta, janeiro era dedicado a Jano, o deus dos portões – e por isso o nome do mês. Em 1582, no entanto, para corrigir uma série de erros que havia no calendário anterior, o Papa Gregório XIII reuniu especialistas e estabeleceu o Calendário Gregoriano, vigente até hoje, com o dia 01 de janeiro corretamente no reinício do ciclo do sol.

Moeda romana em celebração ao deus Jano

Para o povo judeu, porém, o calendário é próprio, e o ano novo, batizado de Rosh Hashaná é celebrado durante dois dias no primeiro dia do mês de Tishrei. Em 2020, a festa judaica começara em 18 de setembro e terminará no dia 20 – quando chegará, segundo esse calendário, o ano de 5781. E no saudável sincretismo com que muitas culturas e religiões se misturam no Brasil, diversas tradições que se tornaram lugares-comum da celebração do ano-novo, tem em verdade origem africana – mais precisamente do candomblé: como o hábito de se usar branco na data, prática herdada dos praticamente de candomblé que, nas praias de todo o país, vestiam a cor para simbolizar a paz na virada do ano. Lançar oferendas ao mar tem a mesma origem: como presentes para Iemanjá, a Rainha do Mar, divindade africana de origem Iorubá adotada pelo candomblé e a umbanda no Brasil.

Usar branco e lançar oferendas para Iemanjá: heranças das religiões africanas no ano-novo

Trata-se, portanto, de uma história tão ancestral e plural quanto importante que, sob a perspectiva do início do período mais quente do ano e da chegada de melhores colheitas, efetivamente tinha importância para os povos antigos – como segue tendo para nós hoje. Se atualmente tão significado tornou-se mais simbólico, trata-se, no entanto, de uma celebração justa, e como a cultura é tão forte quanto possível, crer que um novo ciclo se inicia pode sim significar um estimulo importante para efetivamente realizarmos mudanças em nossa vidas. O ano-novo, dessa forma, ganha significado concreto, e merece a imensa festa que votamos a ele.

Detalhe da festa do ano-novo chinês

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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