Diversidade

1ª reverenda trans da América Latina convive com o medo de morrer

por: Karol Gomes

A cada três dias, uma mulher ou um homem trans é assassinado no Brasil, que é o primeiro no ranking mundial de ataques contra LGBTs, segundo a ONG Transgender Europe. Para a pastora Alexya Salvador, infelizmente, o seu posto de líder religiosa –  que se tornará a primeira reverenda trans da América Latina em uma celebração da ICM (Igreja da Comunidade Metropolitana) – não a livra de transfobia. 

“Um dia, você vai ver, estará lendo as notícias na sua timeline e, de repente: ‘Primeira reverenda trans foi morta’. Eu sei que corro risco. O ‘sistema da morte’ me ronda 24 horas por dia”, afirmou em entrevista para o Universa, do UOL.  

Por ‘sistema da morte‘, a reverenda se refere às várias ameaças carregadas de ódio que recebe diariamente. “Não é que me dizem: ‘Não concordo com o que você faz’. Escrevem coisas como ‘vou te picar no machado’, ou ‘você tem que morrer de Aids’. São pessoas que se dizem cristãs. Mas onde está Deus nisso?”

Pelo menos a ICM acaba sendo um lugar seguro para Alexya. Considerada a primeira igreja LGBT do mundo, tem unidades em mais de 100 países e afirma ser “protestante, ecumênica e inclusiva”.

Por essa premissa, Alexya mantém a porta de igreja onde prega, em São Paulo, sempre aberta para o público LGBT que pede ajuda. Muitos falam em suicídio — ela mesma já tentou se matar três vezes. A futura reverenda diz que a população LGBT é “demonizada e escrachada pelas igrejas”.

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Em 2011, Alexya foi convidada para ser diaconisa. “Na época, ainda diácono”, contou. No fim do mesmo ano, passou pela transição de gênero e lembra do marido com ternura: “Achei que Roberto fosse querer se separar, mas me falou que ficaria ao meu lado” – o casal está junto até hoje e tem três filhos: Gabriel, 14, adotado em 2015; Ana Maria, 13, adotada em 2017; e Dayse, 8, adotada em 2019. Ana Maria e Dayse são trans.

Depois da ordenação, Alexya formou-se em Teologia. Fez um curso da própria ICM, com duração de quatro anos, e apresentou seu trabalho de conclusão na área da teologia queer — o termo em inglês refere-se a áreas de estudos dedicadas a questões LGBTs. Em 2017, virou pastora.

A líder religiosa questiona o julgamento que recai sobre LGBTs com argumentos bíblicos em relação ao espaço que as mulheres vêm ocupando nas religiões. Ela também critica igrejas que se dizem inclusivas, recebendo público LGBT, somente para ‘pregar‘ uma suposta cura usando a palavra de Deus como argumento.

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Falou, tudo né? 

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Fotos: Arquivo pessoal


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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