Roteiro Hypeness

2 de fevereiro pelo olhar de fotógrafa com quase uma década de festas para Yemanjá

por: Kauê Vieira

O 2 de fevereiro é um dos pontos mais altos do chamado calendário de festas na Bahia. A reunião de pescadores na praia do Rio Vermelho para levar os presentes de Yemanjá traduz como poucas coisas a alma soteropolitana. 

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A festa é cercada de características que fazem de Salvador uma das cidades mais interessantes do mundo. O 2 de fevereiro é o encontro entre o sagrado e o profano. Mais do que isso, as homenagens ao dia de Yemanjá são prova viva de que o Candomblé corre nas veias de Salvador. 

Amanda fotografa o 2 de fevereiro há quase 10 anos

O Hypeness resolveu falar do 2 de fevereiro de um forma diferente – dando o protagonismo para quem lhe é de direito. Portanto, convidamos a fotógrafa Amanda Oliveira, que há nove anos fotografa o 2 de fevereiro, para dividir um pouco dos sentimentos ao chegar na praia do Rio de Vermelho. 

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O trabalho fotográfico de Amanda dá um olhar especial para vida de Salvador. Suas lentes perseguem corpos, rostos e costumes dos negros que habitam a cidade mais preta fora da África.  

“Até o sol de pôr todas essas coisas se misturam e fazem o dia 2 ser o dia que é. Intenso, quente, cheio, perfumado, cantado”, Amanda Oliveira. 

Boa leitura! 

Odoyá! 

2 de fevereiro no Rio de Vermelho, em Salvador

Um olhar fotográfico sobre o dia 2 de fevereiro, dia da festa nas águas salgadas de Yemanjá na cidade de Salvador

É na madrugada do dia 2 de fevereiro que escutamos a alvorada de fogos anunciando que a grande Mãe D’Água desperta sobre o mar do Rio Vermelho; “Odoyá!” gritam todos em homenagem à essa linda festa que começa com o nascer do sol. Eu sempre fico paralisada diante de todas as cenas que estão ao meu redor nesse momento. Velas acesas entre as pedras e areia, cheiro do sargaço, atabaques, cantos, palmas, flores ao mar. Tiro 2, 3 fotos, mas nada chega perto do que é ver de perto. Um céu em vários tons de vermelho esquenta o meu coração e me mostra que é hora de começar a fotografar. Vou até a beira do mar, peço a benção e começo o dia.

No barracão montado ao lado da Colônia dos Pescadores que mora na Casa de Yemanjá, diversas mãos arrumam os balaios que irão para os braços da rainha no final do dia em procissão de barcos enquanto a fila dos fiéis que querem presenteá-la começa a crescer. Nas mãos vejo rosas, sabonetes, alfazema, pedidos balaios. A fé que vem desde o pensamento fala em vários sinais. E todos aqueles que chegam até meu coração, viram fotografia. Sem esquecer das crianças que sempre estão correndo e pulando nas ondas da beira do mar: ela também olha por eles e eu estou lá fotografando com o meu olhar também.

Saio da praia em direção ao Largo da Dinha para ver o mar de cima. Lá, junto com o sol, começam as rodas de capoeira – que se prestarem bem atenção, nos ensinam em suas cantigas a golpear as desavenças da vida. Dali se vê a faixa de areia e o som das palmas e atabaques de lá se misturam ao som da roda. O que mais me encanta em tudo isso é que independente do que se fala ou se cante, religioso ou não, o dia de Yemanjá é dia de festa para todos que estão ali. Gosto de ficar observando tudo. E então o sol queimando as peles que estão ali na dança de corpos da capoeira viram foto.

Caminhar pelas ruas ou pela faixa de areia vão nos apresentando ao longo do dia um pouco de tudo. Depois de uma madrugada de festas profanas, a boemia descansa para meio dia voltar a festejar. Recomeçam os pequenos blocos que se concentram para caminhar pelo Rio Vermelho ao som de todo tipo de música. Em Salvador não existe o sagrado sem o profano: onde há fé, há dança. A religiosidade cantada e dançada faz os dias ruins ficarem em outro plano, pra outro dia. É impossível não se contagiar com a energia que se espalha. Mesmo precisando ficar atento a qualquer movimento, pois a cada minuto mais e mais pessoas chegam e transformam as ruas do Rio Vermelho num mar de pessoas.

Até o sol de pôr todas essas coisas se misturam e fazem o dia 2 ser o dia que é. Intenso, quente, cheio, perfumado, cantado. No dia de uma divindade que vem de uma religião em que os deuses também dançam, comemorar o dia da rainha do mar não poderia seria diferente. Quando o sol começa a descansar do seu reinado, todos os balaios que são arrumados no barracão descem para a faixa de areia para que assim os barcos e seus pescadores possam encontrar a Rainha do Mar e entregar os mimos à sereia.

Fogos, lágrimas, saudações, abraços e muita alegria acompanham de longe o cortejo pelas águas. Tudo isso, além de me emocionar, também me movem a fotografar o que vejo e a pedir para que Yemanjá, a mãe de todas as cabeças, me permita continuar fazendo do seu dia o meu maior motor para continuar fotografando dali adiante. Desde então, há 9 anos registro esse dia com maior prazer esperando o meu próximo encontro com a Rainha do Mar. Odoyá!

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Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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