Diversidade

7 motivos para o ator Thiago Martins mudar de ideia sobre cotas

por: Karol Gomes

No ar em Amor de Mãe, o ator Thiago Martins foi criticado na web por se posicionar contra as cotas raciais em universidades. Em entrevista ao canal Na Real, do youtuber Bruno Simone, ele explicou que sente “vergonha” da Lei 12.711, chamada de Lei das Cotas, de 2012. E se você acha que não podia ficar pior, ele ainda disse que o Brasil está vivendo “na época do mimimi”

Como justificativa, o ator disse que “a cota me machuca, por exemplo, isso dói. É vergonhoso. Isso dói porque a cor da pele não muda nossa inteligência e nosso caráter, nós somos iguais. A única coisa que muda é nossa pele”, disse.

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O que Thiago não entendeu sobre as cotas é o fato de que elas não são sobre inteligência, mas sim sobre oportunidades. 

Depois de tantas críticas, Thiago Martins usou o Instagram para explicar sua posição, que agora é diferente. “Sou contra o sistema, não contra as cotas! Sou cria da Favela do Vidigal, tenho consciência da minha cor e vi de perto a discriminação. Aliás, vejo até hoje! Hoje tenho consciência do lugar de privilégio que alcancei. Acredito que o Brasil só vai pagar sua dívida histórica quando tiver políticas públicas que garantam a todos igualdade de condições e oportunidades de desenvolvimento. Cotas não são esmolas, é o mínimo que o estado pode fazer para uma reparação histórica e cultural”, disse ele.

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Mas caso ele, ou qualquer pessoa, esteja na dúvida sobre a importância das cotas raciais, aqui estão alguns motivos para refletir bastante sobre a questão: 

1 – Dívida histórica:

O Brasil foi o primeiro país a aderir e o último a abolir a escravidão. Foram 300 anos de abuso de africanos e afrobrasileiros que não tinham outra escolha, se não trabalhar. 

2 – Abolição para quem?


A Princesa Isabel concordou em assinar a lei da abolição depois de muita pressão dos movimentos negros e quilombolas. Ela o fez, mas não instaurou nenhuma política pública para os então escravos serem alocados em sociedade. 

Foi mais abolição dos ativistas no pé da Princesa do que qualquer outra coisa.

3 – O sistema não funciona:

Nossos antepassados não podiam estudar porque as escolas não aceitavam negros – e a lei não as obrigava a aceitar. Ao mesmo tempo, andar pelas cidades procurando emprego era um risco, por causa da lei da vadiagem, criada justamente para enquadrar pessoas negras caminhando sem rumo. Ou seja, adicione aí mais alguns anos sem acesso à educação e a emprego. Muitos voltavam as casas dos senhores de engenho para trabalhar por mixarias enquanto continuavam sendo tratados como escravizados. 

4 – E surgem as favelas:

Sem dinheiro para terrenos ou qualificações para empregos, começaram a se formar colônias nas margens da cidade, onde a terra era mais barata ou até mesmo de ninguém, podendo ser ocupada – e assim nasce a periferia, as favelas. De onde, inclusive, Thiago Martins vem. Ele foi criado no vidigal, no Rio de Janeiro. Ele saberia dizer todas as complicações de estudantes periféricos: o acesso a escola, a violência dos morros, o convívio com o tráfico… Para listar algumas.

O ator Thiago Martins

Ainda hoje, a população das favelas é majoritariamente preta. 

5 – Ensino público compensa?

Demorou muito para que o povo negro tivesse acesso ao ensino. Ainda hoje, educação de qualidade não vem junto com órgãos públicos – isso quando há vagas. Quem quer ingressar na faculdade precisa se esforçar o dobro e isso não inclui tirar os sábados pela manhã para fazer cursinhos super caros. Somos nós por nós mesmos. 

Não é a toa que somente 130 anos depois da abolição da escravatura, os negros finalmente se tornaram maioria nas universidades do Brasil. Apesar de positiva, esta estatística considera somente inscrições, sem contar com aqueles que desistem do curso por falta de dinheiro, por precisar trabalhar ou até por racismo dentro das instituições. 

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Em um mundo ideal, qualificar o ensino público seria o melhor caminho – inclusive o movimento negro está sempre a frente dessa demanda. Mas enquanto isso pessoas negras buscam por oportunidades e não podem ficar esperando. 

6 – Os cotistas não pioram a qualidade do ensino – eles melhoram!

Alguns estudos realizados por grandes universidades mostraram que o desempenho dos cotistas é igual (ou até superior) em relação aos estudantes vindos da ampla concorrência. 

7 – As cotas provocam separação de raças:
Mais uma vez, é o oposto. Sem elas, pessoas negras não estariam frequentando as mesmas faculdades que pessoas brancas.

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Foto: Instagram / Reprodução


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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