Inspiração

A história do goleiro que montou time de padeiros e venceu nazistas na 2ª Guerra

por: Yuri Ferreira

O futebol é um evento popular e, por consequência, seria difícil dissociar de movimentações políticas. E se durante a mais terrível época da história humana, Segunda Guerra Mundial, as copas do mundo foram suspensas, o esporte bretão continuou a ser jogado.  E uma partida em especial foi decisiva: o ‘Jogo da Morte‘. Há 77 anos aconteceu uma dos mais importantes e mitológicos confrontos da história.

As tropas nazistas invadiram a União Soviética em 1941. Nesse ano, Josef Ivanovic Kordic era jogador do Dínamo de Kiev. Com o acirramento do conflito, o jogador ucraniano ingressou nas linhas do exército soviético para combater as forças de Hitler, aguardando ser chamado para o conflito. Boa parte dos jogadores dos grandes clubes ucranianos abandonaram os gramados e entraram em postos de trabalho simples, como Kordic, que virou padeiro.

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Mykola Trosevich, de camisa listrada, em um jogo pelas linhas do Dínamo de Odessa

Josef avistou Mykola Trosevich, e o reconheceu de primeira. Tratava-se de um dois maiores goleiros da história do futebol soviético, ao seu tempo. Manco, magro e com a barba a fazer, havia sido recentemente liberto de um campo de concentração e morava na rua. Kordic o avistou, e lhe convidou para formar um time com os outros trabalhadores da padaria, quase todos ex-atletas do Dínamo de Kiev.

Assim foi formado o FC Start. Kordic pediu a Trosevich que saísse a procura de outros atletas que moravam em Kiev para a formação da equipe. A esquadra era qualificadíssima e Kordic, um aficionado pelo esporte – cujas competições oficias estavam suspensas -, queria que o time jogasse contra outras equipes no contexto da guerra.

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Em junho de 1942 chegou a hora de entrar em campo. O FC Start goleou 7 times em sequência após o primeiro apito que lhe foi dado. Primeiro bateram o time da Guarnição Húngara de Kiev. Depois, a Guarnição Romena (pelo singelo placar de 11 a 0). O time dos operários das estradas de ferro foi o próximo. Uma primeira esquadra alemã foi batida, depois duas surras foram dadas em outra tropa húngara. O agregado total dos jogos foi de 45 gols pró e 6 gols contra.

Eles estavam, como já diria nosso querido atacante Bruno Henrique, em ‘ôto patamá’.

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O último time a ser enfrentado pelo Start era o Flakelf. O Flakelf era composto por aviadora da Luftwaffe, força aérea do Terceiro Reich. O resultado foi justo: os nazis apanharam de 5 a 1 dos ucranianos no Estádio Zênite, em Kiev. Os defensores de Hitler saíram ressabiados de campo e exigiram uma revanche para cima dos atletas do time ucraniano.

Cartas divulgando a partido história entre Flakelf e FC Start

O ‘Jogo da Morte‘ foi o último do histórico time. De um lado, FC Start. Do outro, Flakelf. A revanche não acabou bem para a equipe nazista. 5 a 3 para os ucranianos. No agregado, 10 a 4 contra o time dos invasores alemães. Reza a lenda que no vestiário, prestes ao início da partida, oficiais da SS pediram à equipe ucraniana que fizesse a saudação nazista antes do apito. O pedido se repetiu no intervalo. Nenhum jogador acatou a ordem.

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Aqui, as versões da história se dividem. A escassez de documentos e testemunhos históricos pode desviar os fatos. Alguns dizem que os jogadores do Start foram capturados e assassinados logo depois da partida. Outros registros, mais razoáveis indicam que 8 dos jogadores do Kiev foram capturados posteriormente e assassinados pelo Exército Alemão. Um deles era Mykola Trosevich, morto em 1943.

Em Futebol e Guerra, livro do autor Andy Dougan, uma versão dos fatos mais fidedigna aparece.

“Trusevich, Klimenko e Kuzmenko foram executados pelos nazistas no campo de concentração de Siretz, aproximadamente seis meses depois do jogo. Nikolai Korotkykh, que foi exposto como um agente do NKVD, o Ministério do Interior soviético, foi torturado e morto no interrogatório semanas depois da partida”.

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Segundo registros, essa se trata de uma foto com jogadores do FC Start com os oficiais da Luftwaffe. Os jogadores de preto são, certamente, os ucranianos. Resta a dúvida sobre a outra equipe.

A história influenciou dezenas de livros e hoje é um dos mitos que circundam o futebol ucraniano. Em frente ao Dínamo de Kiev, clube que tem se associado cada vez mais a grupos extremistas de direita e supremacistas raciais – que contradição! -, encontram-se as inscrições: “Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista” em uma estátua em homenagem às vítimas.

O filme seria material base para um clássico do cinema, o filme ‘Fuga para a Vitória’, que conta com Michael Caine, Sylvester Stallone e claro, por que não, Edson Arantes do Nascimento. A narrativa, mistificada e enviesada, somente tomou o clássico jogo como inspiração, não sendo um fiel retrato histórico do ‘Jogo da Morte’.

Mais de 100 jogos foram registrados entre tropas soviéticas e nazistas, mas o ‘Jogo da Morte‘ ganhou uma mística especial por representar uma história de resistência contra o império, mas também por se tratar de uma história de paixão pela bola. E muito mais do que o ficcional “jogo que parou uma guerra” do Santos de Pelé, o FC Start marcou o coração de um país contra a supremacia de uma ideologia perversa que perdeu em tudo: no campo, na honra, na filosofia e na guerra.

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Fotos: Reprodução/Redes Sociais


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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