Matéria Especial Hypeness

Entre recordes e glórias, o adeus a Kobe Bryant, um dos maiores jogadores da história do basquete

por: Vitor Paiva

Na noite de sua despedida das quadras da NBA e de uma vida profissional como jogador dos Los Angeles Lakers, o ala-armador Kobe Bryant decidiu retribuir à altura da relação de verdadeira adoração que a torcida havia estabelecido com ele ao longo de seus 20 anos com a camisa 24 do único time que defendeu em toda sua carreira. O ano de 2016 era o pior de toda a história dos Lakers, e Bryant, aos 37 anos e após sucessivas contusões, havia anunciado no início da temporada que aquele seria seu último período como jogador.

Para a partida final contra o Utah Jazz, porém, ele decidiu lembrar a todos o motivo pelo qual é reconhecido como um dos maiores jogadores da história do basquete, e talvez o que mais se aproximou de disputar com Michael Jordan o reinado absoluto na NBA e no esporte – e naquele dia 13 de abril de 2016, Kobe marcou 60 pontos na vitória dos Lakers por 101 a 96, tornando-se o mais velho jogador a alcançar tal número, e intensificando ainda mais as lágrimas não só dos torcedores de seu time, mas de todos que amam o esporte por conta de sua despedida.

Enquanto o choro pelo adeus das quadras era de alegria e admiração, são lágrimas de espanto e incredulidade as que correm hoje diante da inacreditável morte de Bryant, na manhã do último domingo (26) aos 41 anos, em um acidente de helicóptero na cidade de Calabasas, na Califórnia, que tomou também a vida de sua filha Gianna e de mais sete pessoas presentes na aeronave. E se a dimensão da tragédia humana é universal, o impacto da morte do atleta para os EUA é um tanto inédito – pois, por mais que seja justo que a coroa de rei do basquete siga sobre a cabeça de Michael Jordan, o fato é que Kobe Bryant foi o primeiro herói da NBA em tempos de internet; ocupando justamente o hiato deixado por Jordan, Kobe foi o primeiro grande ídolo desse esporte a ter seus feitos transmitidos instantaneamente para todo o planeta.

Kobe e sua filha Gianna

E não foram poucos: para além dos 60 pontos anotados contra o Jazz em sua despedida, em outros 25 jogos Kobe marcou mais de 50 pontos em sua carreira – incluindo inacreditáveis 81 pontos marcados em um só jogo, contra o Toronto Raptors em 2006, como a segunda maior exibição de um único jogador em toda a história da liga, ficando atrás somente dos lendários 100 pontos marcados por Wilt Chamberlain em 1962. Ao longo dos 57,278 minutos em que jogou, Kobe Bryant marcou 39,283 pontos que o colocam em quarto lugar como marcador na história e que foram determinantes para os cinco títulos que conquistaria pelo Lakers na NBA – três seguidos, entre 2000 e 2002, e ainda 2009 e 2010.

Kobe jogando contra Michael Jordan

Quando um gigante da NBA se aposenta, é comum que o clube pelo qual ele fez história aposente junto sua camisa – que aquele número nunca mais possa ser usado por outro jogador do time. Foi assim com o 23 de Jordan pelos Bulls, o 32 de Magic Johnson pelo Lakers, e muitos outros. Não é por acaso, porém, que Kobe Bryant foi além: tendo sido convocado para o jogo das estrelas por 18 das 20 temporadas que disputou, ele é o único jogador da história da liga que teve dois números – 24 e também o 8, que vestiu no início de sua carreira – aposentados pelo mesmo clube. Reza a lenda que o número 24 foi escolhido justamente por Kobe ser visto como uma “continuação” do reinado de Jordan – um número depois do que o maior de todos os tempos vestia.

Pois os feitos de Kobe como jogador de basquete datam de quando ainda era um adolescente: aos 17 anos, seu talento era tão evidente que ele foi chamado para a NBA diretamente da escola, sem cumprir o caminho comum de se tornar um jogador universitário antes de profissional – Kobe era tão jovem que seus pais tiveram de assinar por ele seu contrato com o Lakers. A dinastia estabelecida entre 2000 e 2002 não se daria sem a parceria com o técnico Phil Jackson e principalmente com lendário pivô Shaquille O’Neal, que se tornaria figura central na vida e carreira de Kobe, como seu grande parceiro das quadras.

“Não há palavras para expressar a dor que estou sentindo por essa tragédia de perder minha sobrinha Gigi e meu irmão Kobe Bryant”, escreveu Shaq em seu Twitter. “Eu amo vocês e vocês jamais serão esquecidos. Minhas condolências vão para a família Bryant e para as famílias dos outros passageiros. EU ESTOU DOENTE AGORA”, concluiu.

Kobe e Shaq, em quadra e com alguns de seus tantos troféus

O último tweet de Kobe foi parabenizando justamente o jogador que mais disputou com ele a segunda colocação como maior da história – e por um motivo nobre: LeBron James, um dia antes do falecimento de Kobe, havia superado um recorde seu. “Fazendo o jogo seguir. Muito respeito, meu irmão”, Kobe escreveu depois que James, também jogando pelos Lakers, superou seu recorde de pontos durante a temporada regular.

Se nas quadras Kobe era incontestável, fora delas sua história traz uma dura mancha: em 2003 o jogador foi acusado de agressão sexual e estupro pela funcionária de um hotel onde havia se hospedado. Bryant, que já era casado, admitiu ter mantido relações fora do casamento, mas negou ter se tratado de um estupro – afirmando que o sexo teria sido consensual. No ano seguinte, as acusações foram retiradas depois que a acusadora decidiu que não iria depor. O jogador foi à público então se desculpar, afirmando que, ainda que tivesse certeza de que o encontro havia se dado com o consentimento de ambos, ele reconhecia que para a funcionária o ocorrido havia sido diferente. Um acordo foi firmado em âmbito privado entre as duas partes, mas a história macularia a reputação fora das quadras do jogador.

O acidente 

Acima, o local do acidente; abaixo, uma multidão em frente ao estádio do Lakes, em Los Angeles

O tempo estava nublado e com intenso nevoeiro na manhã de domingo, e o helicóptero que carregaria o jogador até sua academia de basquete para jovens, por um compromisso de sua filha, Gianna, só decolou depois de conseguir uma autorização especial. Instantes antes do acidente, o piloto havia pedido que controladores mantivessem contato regular e o ajudassem a controlar o voo. O impacto provocou um vasto incêndio de cerca de mil metros quadrados em uma região de geografia difícil, e nenhuma das nove pessoas a bordo sobreviveu.

Kobe e o Brasil 

Kobe Bryant mantinha uma singular relação com o Brasil: além de um grande admirador de Oscar Schmidt, recentemente o jogador vinha trabalhando em um livro que escreveria em parceria com Paulo Coelho. “Você foi mais do que um grande jogador, querido Kobe Bryant. Eu aprendi muito interagindo com você. Vou apagar o rascunho agora, esse livro perdeu sua razão de ser”, publicou o escritor, junto de um print que mostrava uma troca de mensagens do momento em que firmaram a parceria.

Além de Gianna, Kobe era pai de outras três filhas e, depois de se aposentar, havia se tornado um autor premiado e um empresário de sucesso, com direito ao ‘Oscar’ pelo curta ‘Querido Basquete’, um relato emocionante de sua aposentadoria em 2016. 

O maior legado de Kobe Bryant foi mesmo dentro das quadras, como um atletas que, mesmo jogando após Michael Jordan, ajudou a redefinir a dimensão da NBA e do que um atleta pode ser capaz de realizar.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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