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Vencedor do Oscar, “Parasita” revela as camadas do capitalismo de forma tragicômica

por: Brunella Nunes

Perturbador, ácido, perigoso, cômico, triste. Estes são alguns dos adjetivos atribuídos pela crítica ao tragicômico filme sul coreanoParasita, vencedor de Oscar’ de melhor filme. Partindo dos percalços de uma família pobre driblando o desemprego, a narrativa não romantiza e nem perdoa a luta pela sobrevivência. No final das contas, ninguém está a salvo dentro da roda das desigualdades.

O longa passou por diversos festivais, foi premiado em Cannes e agora concorre ao ‘Oscar’ de Melhor Filme, Direção, Roteiro, Filme Internacional, Montagem e Desenho de Produção. Distribuído no Brasil pela Pandora Filmes e pela Alpha Filmes, “Parasita” já teve um aumento em 80% de salas de exibição no Brasil. É também um marco para o cinema coreano, que dialoga com o mundo ao mesmo tempo que propaga o idioma e a cultura do país asiático, também influenciada pelo Ocidente a partir da globalização.

Por definição formal, um parasita é aquele que vive às custas alheias, causando algum mal. O nome da obra do diretor sul coreano Bong Joon Ho (“O Hospedeiro” e “Okja”), que também é corroteirista, faz alusão ao sistema que suga tudo e todos: o cada vez mais insustentável capitalismo, fruto de uma iminente crise mundial. “Há pessoas que esperam viver com outras de uma forma coexistente, mas isso não funciona, então elas são empurradas para uma relação parasitária. É um título irônico”, disse o aclamado cineasta.

Com base num assunto contemporâneo e oportuno, a comédia dramática tem toques de suspense e terror. Acompanhamos de perto a trajetória dos Kim, uma família do subúrbio cuja única renda é dobrar caixas de pizza no porão onde vivem. A pobreza não veio por acaso: o pai falhou nos negócios; a mãe sonhava ser atleta e nunca conseguiu; e os dois filhos tentaram entrar para a universidade diversas vezes sem sucesso. Difícil desconhecer uma história dessas vivendo no poço de desigualdade que é o Brasil.

Até que repentinamente o filho arranja, pela indicação de um amigo, um bico como professor particular de inglês da abastada família Park, na qual o pai é CEO numa empresa de TI, dando todo o sustento e conforto para a esposa, a filha e o filho pequeno. A moderna mansão onde vivem é daquelas que qualquer mortal seria capaz de sonhar um dia.

Estamos vivendo uma época em que o capitalismo é a ordem reinante e não temos alternativa. Isso no mundo inteiro. Na sociedade capitalista de hoje, existem castas que são invisíveis aos olhos. Nós tratamos as hierarquias de classe como uma relíquia do passado, mas a realidade é que ainda existem e não podem ser ultrapassadas  -  explica Bong Joon Ho

Os planos de câmera são feitos com maestria, levando o espectador a sempre olhar de baixo pra cima, notar os escombros, aquela última camada. É interessante a construção das imagens que até o final do filme vai desvendando cada vez mais o propósito de tudo isso. Destaque também para as ótimas atuações do elenco, em que cada qual desempenhou lindamente o papel.

Carente e um tanto inocente, a matriarca burguesa não se importa muito em falar sobre suas intimidades para os funcionários. Rapidamente, o jovem professor vai se aproximando e percebe que ali pode ser um terreno fértil para arranjar trabalho aos demais integrantes de sua família, indicando irmã, pai e mãe para tarefas de confiança.

Acontece que, na lei da selva, apenas sobrevivem os mais fortes. E os que trapaceiam. A família pobre se empenha para garantir seu lugar na casa dos Park, na doce ilusão de status e ascensão social. A desigualdade, por sua vez, sempre esbarra em pelo menos duas coisas: a subserviência e a insurgência.

O filme começa de maneira leve, provocando risos e olhares entre os espectadores, como quem dizem “nossa, olha que situação tosca”. Parece que vai permanecer assim ao longo de suas 2h12 minutos, mas surge uma reviravolta tão bizarra que no final estão todos em choque. E logo vem o despertar de um senso crítico e a reflexão sobre quem é o tal parasita na história toda.

“Parasita” é assim, um misto de agonia, aversão e absurdos. Uma maneira genial e “engraçadinha” de abordar o abismo entre as classes, com toques de violência em variados níveis. Mas, para o bom observador, fica fácil entender que violento não é um ou outro personagem. Violento é o sistema.

Impossível assistir ao filme e não lembrar da icônica frase do escritor alemão Bertolt Brecht: “do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

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Fotos: divulgação


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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