Arte

“Ir com calma não significa ir devagar” | Do amor #124

por: Jader Pires

“Boa noite”, ela disse enquanto se enfiava no Uber para sair do frio no cair da tarde. “Boa tarde”, ele retrucou e foi aí que, finalmente, botaram os olhos um no outro, rindo meio desconfortáveis do desacerto na comunicação. O motorista queria prestar o melhor serviço e a garota foi automaticamente se recordar da conversa que teve com a terapeuta. Estava justamente saindo de uma sessão, daquelas complexas e pesadas, uma análise do último ano como mulher separada, como pessoa autônoma, como mulher livre. Falaram da relação de dezesseis anos que ela tinha saído, e lembraram também que aqueles seriam dias de interlocuções truncadas, problemáticas, o planeta quente regendo as trapalhadas no cotidiano dela. “É o mercúrio retrógrado”comentou quase que nas gargalhadas. Ironia pouca seria bobagem. 

O Gol prata finalmente saiu do lugar e os dois deixaram o silêncio tomar um pouco de conta do pequeno ambiente, talvez querendo, inconscientemente, fazer com que a falta de fala ajudasse na construção de um melhor começo. Um recomeço. Mas a calmaria foi espatifada pela tecnologia abelhuda. A assistente do aparelho dele rompeu a tagarelar sem que ele tivesse controle. Botões eram apertados, volumes diminuídos, e a danada grulhando e matraqueando como se livre fosse, como criança empolgada em contar os feitos na escola. Depois da cena cartunesca, o rapaz finalmente conseguiu acabar com o falatório digital, ligou o rádio e pediu sinceras desculpas. Ele estava nitidamente embaraçado. Ela novamente riu e culpou o mercúrio retrógrado, aquele bufão.

E o que poderia ser decreto de fim, virou início. Puxaram, do ruído, melodia, e passaram a falar de música. Ela comentou que gostava de canções melancólicas, como um fim de tarde gelada, daquela que eles estavam, e viu o rosto do cara à sua frente, pelo retrovisor, mudar. Ele era músico, estava em ambiente seguro naquele exato contexto. Trocaram umas faixas mentais, aproximaram gostos, ele comentou que, se ela quisesse ouvir música melancólica de verdade, que escutasse “A música mais triste do ano”, do tal de Luíz Lins, “com zê no primeiro nome, e com esse no segundo”, complementou. Botou o som para escutarem, o escuro engolindo o Rio de Janeiro todo, os vidros fechados embaçando de leve, como se chorassem com o piano desgostoso e tocante, as manchas de luzes vindas lá de fora, reflexões invadindo aquelas duas cabecinhas. Nas cenas seguintes, aquilo tudo, um casal de dois dentro do carro no trânsito carioca, era uma só coisa. Unidos. Colados num pequenino padecimento estranho, porque dava uma coisa gostosa pra caralho. “Música é foda”, ela pensou já sabendo que, por óbvio, ele concordaria. Chegando no destino, parecia que um mel grudava os dois. Precisavam se separar, mas não estavam muito afim, não. E ele pediu pra ficar. Pediu para que ela ficasse. Pediu só uns minutos, ali, entre uma corrida e outra, em frente ao prédio onde ficava a casa dela. Longos minutos, ela se lembraria mais tarde, porque o encanto ao mesmo tempo lhe imprimia uma ansiedade estranha, um desejo de que ele avançasse de alguma forma, que ele pedisse o contato dela, que solicitasse uma aproximação, que ele saltasse daquele banco dianteiro e tomasse de assalto o corpo dela, as coisas dela, sua alma inteirinha. Mas tinham só a conversa e uma distância respeitosa. Ele precisava não ultrapassar esse limite. Não seria justo com ela. Nenhuma garota mereceria conversinha de motorista de aplicativo. Mas então ela perguntou o telefone dele, já que não veio o pedido do outro lado, com a desculpa de que seria “pra gente falar de trabalho, trocar músicas que podem ajudar na terapia”.

No dia seguinte ele enviou a nona para ela, em mi menor, a gravação era do Mariss Jansons, um letão muito doido, e a Orquestra Filarmônica de Oslo. De terça a domingo foram conversando por meio de sons, com músicas, por meio de melodias. No domingo, então, finalmente trocaram convites para se encontrarem e ele foi até a casa dela. Com uma amiga dela lá. “Olha, se ele for um assaltante, pelo menos eu tô aqui”, a colega comentou enquanto explicava que, se ela tinha vontade de vê-lo, que fosse vê-lo então. “Quero te ver”, ele tinha enviado minutos antes, quando um minúsculo desespero bateu nela. Com o empurrão da amiga, o chamou para subir. E ficaram, só os dois, com a terceira pessoa do singular confortavelmente hospedada no quarto, até às quatro da matina em assuntos parecidos, aproximando visões, uma sincronicidade espantosa, “cacete, como a gente pensa parecido”, ressoava na cabecinha dela enquanto acenava positivamente com a cabeça para cada afirmação dele que batia com as dela. Estavam querendo se comer, sim, e sem poder, com a amiga graciosamente empatando a foda dentro do quarto, mas, acima de tudo, estavam sendo honestos. Um com o outro.

Deixaram estar, se despediram com o diabo no corpo, um tesão da porra, mas se controlaram. Na terça seguinte, saíram juntos, agora só os dois, e puderam, enfim, parar com o carro em uma rua mais tranquila, agora não como passageira, mas como convidada, não agora como motorista, como desejado, e se pegaram loucamente, sentiram os gostos, ela esfregou o nariz nos cheiros dele, molharam-se, amassaram-se, saíram daquilo suados, lambuzados e alegres. Era o que precisavam para invadir a vida um do outro, ela se abrindo e ele adentrando nos espaços e esparramando o carisma dele, o jeitinho doce dele, as roupas e os baixos e as serenatas pra ela dormir e as trocas de… experiências que rendiam narrativas quentes para os dois lados, os Edu Lôbo e bossas até o anoitecer, sem acender as luzes do apartamento. Nos medos dela, da rapidez, dos ímpetos, ele, sereno, jogava no ar que ir com calma não é ir devagar, e que estava completamente tranquilo com as escolhas dela. E isso apaziguava o coração dela.

Os dois, assim, acalentados, ouvindo músicas tristes que deixavam-os felizes.

Obs. 1: amigos motoristas de aplicativos, não sejam babacas e não assediem mulheres que só querem ir do ponto A ao ponto B.
Obs. 2: esta é uma história real, em que uma garota se encantou pelo cara que tava levando-a do ponto A para o ponto B e eles se apaixonaram e estão morando juntos até o fechamento desta coluna. Eu escrevi a história deles pelo meu projeto Cartas de Amor, que escrevo a história das pessoas sob encomenda! Casais, pedidos de casamento, histórias de pais para filhos e de filhos ara pais, amizades e tudo o mais. Quer saber mais? Vem ver no site do Cartas de Amor como funciona.

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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