Debate

‘Latões’: o cubículo da morte que transporta detentos e carne

por: Vitor Paiva

Com a terceira maior população carceraria do planeta, o Brasil é também um dos países que menos investe nas prisões e principalmente na reabilitação desses presos – e pior: os coloca em condições desumanas, insalubres e análogas à tortura. Uma reportagem da BBC News Brasil denunciou que essas condições não se restringem às prisões: em diversos presídios o transporte de prisioneiros é realizado em terríveis “latões”, pequenos veículos preparados onde os detentos são transportados em espaço minúsculo e sufocante, obrigados a defecar e urinar, viajam sem qualquer proteção ou, em muitos casos, alimentação, se ferem e até morrem.

Não é incomum, de acordo com a reportagem, que todas as pessoas transportadas cheguem ao destino – muitas vezes em viagens com mais de 10 ou 15 horas de duração – feridas, com inanição, cobertas de vômito ou fezes e em mais de um caso uma pessoa morreu no transporte, em um desses latões. A reportagem da BBC conversou com diversos funcionários ligados ao sistema penitenciário de São Paulo, e constatou a gravidade das situações de total violação dos diretos humanos ao longo de décadas – funcionários que foram condenados seguiram trabalhando por mais 13 anos após a condenação.

O interior dos “latões” que transportam presos em condições análogas à tortura

Como se não bastasse, a reportagem descobriu que os mesmos latões que eram utilizados para essas viagens insalubres logo em seguida eram também usados para o transporte de alimentos, que foram oferecidos não só para os presos como para funcionários de casas de detenção em São Paulo. As raras denuncias eram desconsideradas pelo corporativismo interno, e muitas vezes levaram à transferência do denunciante. A reportagem completa de Felipe Souza pode ser lida aqui.

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© fotos: divulgação/BBC


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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