Arte

Mundano usa lama tóxica de Brumadinho em painel inspirado em Tarsila do Amaral

por: Yuri Ferreira

Mundando, um dos principais artistas do Brasil, acaba de inaugurar um projeto incrível para relembrar um dos maiores crimes ambientais da história recente do nosso país: a tragédia da barragem de Brumadinho.

O artista utilizou parte da lama tóxica residual do acidente para criar um incrível painel. Inspirado na obra ‘Operários’, clássico de Tarsila do Amaral e da pintura nacional, a releitura fica em um prédio em frente ao Mercado Municipal de São Paulo.

O trabalho combina a lama com tinta spray. Mundano sampleou o clássico para tratar de um tema que não deve ser esquecido: a tragédia de Brumadinho. “Era necessário criar um monumento, uma homenagem. Algo para a gente não esquecer da tragédia”, afirmou à CBN.

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Painel de Mundano está localizado no centro de São Paulo

“O crime em Brumadinho completa 1 ano e, pra não cair no esquecimento e continuar cobrando justiça, resolvi me desafiar a fazer A maior obra da minha vida usando a lama tóxica da Vale como tinta. A obra final tem mais de 800m2 e é uma releitura de “Operários” de Tarsila do Amaral (1933) . Ela compõe a série #releiturasmundanas , e pode ser vista ao vivo na lateral do Edifício Minerasil, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo”, afirmou o artista em suas redes sociais.

Fazendo uma releitura de Tarsila do Amaral, o ‘artivista’  também recriou o Abaporu em tempos de lama. Com apoio de familiares da grande pintora modernista brasileira, ele criou uma obra certamente impactante. O nome da obra? ‘Abaporupeba’, relembrando o rio que foi destruído pelo acidente causado pela Vale do Rio Doce.

Abaporupeba é uma memória de um Brasil em tempos de lama

Quanto à aprovação da releitura por parte de Tarsilinha, sobrinha de Tarsila do Amaral, Mundano se sentiu lisonjeado. “Isso foi uma honra pra mim, que, desde pivete, piro com a originalidade e o artivismo de Tarsila, suas temáticas, o uso de cores e também seus cactus da resistência”, destacou.

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Mundano colheu a lama de Brumadinho nos pés do Rio Paraopeba e também recriou outro clássico da pintura brasileira. ‘Mestiço’, de Cândido Portinari, se transportou das plantações de um Brasil passado e foi parar num mar de lama no Brasil presente.

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“Mestiço, pra mim, é um símbolo desse artivismo e, por isso, a escolhi. Quando comecei a estudar o quadro quase desisti tal a quantidade de detalhes na paisagem. Como poderia dar certo reproduzir essa genialidade pintada a óleo pelo grande Candinho com meu traço duro de spray e lama?”, afirmou Mundano ao site Conexão Mundo.

Mundano é um dos principais artistas do Brasil e seu trabalho ganha força pela conexão com os dilemas sociais brasileiros  e por transformar a visão que muitas pessoas têm de uma arte necessariamente elitista.

Confira as postagens de Mundano no Instagram:

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Hoje o crime em Brumadinho completa 1 ano e, pra não cair no esquecimento e continuar cobrando justiça, resolvi me desafiar a fazer A maior obra da minha vida usando a lama tóxica da Vale como tinta. A obra final tem mais de 800m2 e é uma releitura de “Operários” de Tarsila do Amaral (1933) . Ela compõe a série #releiturasmundanas , e pode ser vista ao vivo na lateral do Edifício Minerasil, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo. Um abraço caloroso em todos os atingidos e atingidas por barragens nesse dia tão difícil. E, um agradecimento a todos e todas que com muita garra construíram juntos essa obra tão desafiadora . Realização: @smculturasp Obra: “OPERÁRIOS de Brumadinho“ Artistas : @andre_firmiano @subtu @3visao @riskavicia @papelcomterra @apcgraff Produção: @nalata.art + @paredeviva Produção Executiva: @luancardoso cardoso Produção: @andreliberio @renemunizmo  MAR – Museu de Arte de Rua Direção: Andre D’Elia @cinedelia e @henrique.grise Diretor de Fotografia : @mercurio_aceso Funcionários Minerasil; Paulo Henrique Cláudio Cruz Ivonaldo Flor . Toni Hernandez Rafael Catador e a equipe de montagem e manutenção do Balancim . Alem claro da @tarsiladoamaral e @atingidosporbarragens . E todxs operárixs que passaram por lá e se identificam com a obra . #nãofoiacidente #justiça #1anodebrumadinho #tarsiladoamaral #somostodosatingidos

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Pintar uma obra dessa magnitude nesse contexto complexo de Brumadinho tiveram diversos desafios e vou falar de alguns aqui. O primeiro deles foi de fazer mais uma expedição em Brumadinho pra buscar a lama em um território dominado pela Vale . O tema é super delicado e conversar com os atingidos foi fundamental e requer uma sensibilidade enorme . Criar a própria tinta foi um outro , desde pesquisar , testar e chegar na receita final. Peneiramos e e misturaramos 270 litros de tinta, foi um desafio físico também . Pintar com a lama foi outro, cada um dos 15 tons tinta uma consistência única , cada cobertura era diferente da outra e quando secava elas mudavam muito de cor. Essa obra tem mais de 800 m2 de área e que virou uma batalha com o nosso próprio corpo pra pintar tudo. Foram 7 dias de preparação da parede que estava toda descascando e mais 6 dias de pintura. Uma verdadeira maratona que nos deixava com os músculos todos doloridos . Um tava com tornozelo doendo, o outro o braço e um com câimbra na perna rssss… Outro desafio é a altura, que pra além de trabalhar com toda segurança o tempo todo, tem sim um friozinho na barriga de estar a 50 metros de altura balançando de lá pra cá pra pintar com pincel e lama . Calor de 35 graus, chuvas a qualquer hora, frio à noite , não foi fácil, por isso até que me desliguei das redes nessas duas semanas . E essa obra só saiu porque chamei um time de artistas muito talentoso e mão na massa que eu já tinha trabalhado antes . Começando pelo @papelcomterra que fez todo o processo da tinta comigo, e dos incansáveis @subtu , @andre_firmiano e @3visao que tramparam nas alturas todos esses dias e fizeram as tintas também , e nos últimos 2 dias ainda somaram o @riskavicia e o @apcgraff pra dar um gás e terminamos na data certa . Então fica aqui registrado que sem o suor de todos esses artistas não tinha obra de lama na frente do Mercado Municipal em tão pouco tempo . Valeu essa vivência coletiva e aprendi muito com todos eles . #bRUMADINHO #lamatoxica #valeassassina #justiça Foto do mestre @henrique.grise .

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A tinta que usamos pra pintar a releitura da obra “Operários” da @tarsiladoamaral de 1933 “ é feita com a lama da Vale (@valenobrasil )que coletei em Brumadinho . Peneirei com uma imã dois litros da tinta e olha o que tinha de resíduo minério e como eles se atraem ao ima nesse teste simples. Essa magnetita é que da boa parte da cor da tinta mais escura do mural de mais de 800 metros que pintamos no Mercado Municipal de São Paulo (@mercadaosp ). Agora imagina a quantidade e a força desse metal em 11,7 milhões de m3 de lama tóxica que encobriu cerca de 300 pessoas , 4000 animais e centenas de hectares da Mata Atlântica e áreas verdes que nesse momento se dilui em incontáveis kilómetros pela águas do Rio Paraopeba até o Rio São Francisco . Enquanto isso a Vale gasta em propaganda ao invés de tirar essa lama da sua própria ganância . Justiça ! #brumadinho #releiturasmundanas #lamatoxica #1anodebrumadinho (Edit: Vale salientar que apesar do quantidade de minério a toxicidade são os químicos na água do processo de mineração , afinal o metal já está no solo em estado bruto faz milhares de anos . ) Video: @gregramon93 .

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Fotos: Reprodução/Instagram


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.


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