Arte

Mundano usa lama tóxica de Brumadinho em painel inspirado em Tarsila do Amaral

28 • 01 • 2020 às 16:00
Atualizada em 28 • 01 • 2020 às 16:13
Yuri Ferreira
Yuri Ferreira   Redator É jornalista paulistano e quase-cientista social. É formado pela Escola de Jornalismo da Énois e conclui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Já publicou em veículos como The Guardian, The Intercept, UOL, Vice, Carta e hoje atua como redator aqui no Hypeness desde o ano de 2019. Também atua como produtor cultural, estuda programação e tem três gatos.

Mundando, um dos principais artistas do Brasil, acaba de inaugurar um projeto incrível para relembrar um dos maiores crimes ambientais da história recente do nosso país: a tragédia da barragem de Brumadinho.

O artista utilizou parte da lama tóxica residual do acidente para criar um incrível painel. Inspirado na obra ‘Operários’, clássico de Tarsila do Amaral e da pintura nacional, a releitura fica em um prédio em frente ao Mercado Municipal de São Paulo.

O trabalho combina a lama com tinta spray. Mundano sampleou o clássico para tratar de um tema que não deve ser esquecido: a tragédia de Brumadinho. “Era necessário criar um monumento, uma homenagem. Algo para a gente não esquecer da tragédia”, afirmou à CBN.

– Mundano aborda crise da água em SP, desastre de Mariana e refugiados em nova mostra

Painel de Mundano está localizado no centro de São Paulo

“O crime em Brumadinho completa 1 ano e, pra não cair no esquecimento e continuar cobrando justiça, resolvi me desafiar a fazer A maior obra da minha vida usando a lama tóxica da Vale como tinta. A obra final tem mais de 800m2 e é uma releitura de “Operários” de Tarsila do Amaral (1933) . Ela compõe a série #releiturasmundanas , e pode ser vista ao vivo na lateral do Edifício Minerasil, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo”, afirmou o artista em suas redes sociais.

Fazendo uma releitura de Tarsila do Amaral, o ‘artivista’  também recriou o Abaporu em tempos de lama. Com apoio de familiares da grande pintora modernista brasileira, ele criou uma obra certamente impactante. O nome da obra? ‘Abaporupeba’, relembrando o rio que foi destruído pelo acidente causado pela Vale do Rio Doce.

Abaporupeba é uma memória de um Brasil em tempos de lama

Quanto à aprovação da releitura por parte de Tarsilinha, sobrinha de Tarsila do Amaral, Mundano se sentiu lisonjeado. “Isso foi uma honra pra mim, que, desde pivete, piro com a originalidade e o artivismo de Tarsila, suas temáticas, o uso de cores e também seus cactus da resistência”, destacou.

– Pimp my carroça – Ação tuna carroças para valorizar os catadores de lixo

Mundano colheu a lama de Brumadinho nos pés do Rio Paraopeba e também recriou outro clássico da pintura brasileira. ‘Mestiço’, de Cândido Portinari, se transportou das plantações de um Brasil passado e foi parar num mar de lama no Brasil presente.

– Ideia brasileira, ‘Tinder da reciclagem’ ganha prêmio de parceira da UNESCO

“Mestiço, pra mim, é um símbolo desse artivismo e, por isso, a escolhi. Quando comecei a estudar o quadro quase desisti tal a quantidade de detalhes na paisagem. Como poderia dar certo reproduzir essa genialidade pintada a óleo pelo grande Candinho com meu traço duro de spray e lama?”, afirmou Mundano ao site Conexão Mundo.

Mundano é um dos principais artistas do Brasil e seu trabalho ganha força pela conexão com os dilemas sociais brasileiros  e por transformar a visão que muitas pessoas têm de uma arte necessariamente elitista.

Confira as postagens de Mundano no Instagram:

 

Publicidade

Fotos: Reprodução/Instagram