Matéria Especial Hypeness

‘Não é Não’ vai distribuir 200 mil tatuagens no Carnaval: ‘dialogamos com mais mulheres’

por: Kauê Vieira

O ano de 2020 já começa desafiador para os que defendem a liberdade das mulheres. O Brasil, um dos países mais perigosos do mundo para a existência de pessoas do sexo feminino, segue com sua sinfonia machista a todo o vapor. 

Janeiro está apenas na metade e a barbárie verborrágica não dá trégua. Recentemente, Jessé Lopes, deputado estadual eleito pelo PSL em Santa Catarina, declaro que “assédio é direito da mulher no Carnaval”. 

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Estarrecedora, a fala corrobora com os números que apontam, por exemplo, aumento recorde de feminicídio em São Paulo – que registrou 154 ocorrências entre janeiro e novembro – ante os 134 de 2018. 

Por outro lado, o machismo de membros da classe política e da sociedade como um todo dão combustível para iniciativas como o ‘Não é Não’, que nasce para combater e conscientizar sobre o assédio no Carnaval. 

Em conversa com o Hypeness, as criadoras revelam que a iniciativa nasce a partir de um caso pessoal de assédio, mas, também, da determinação de cessar esta prática tão comum em nosso país.

 “A partir de um caso pessoal, conseguimos agregar e mobilizar mais mulheres que se solidarizaram com a situação e percebemos como estava latente a necessidade de uma ação de proteção entre as mulheres. Percebemos que existia espaço para falar desse assunto, que poderíamos fazer algo concreto e assertivo para ajudar a combater o assédio contra as mulheres. Infelizmente, ainda vivemos numa sociedade patriarcal e machista, seja na cidade que for e com a grande adesão das mulheres à nossa campanha, percebemos que estávamos ocupando um espaço necessário e urgente para todas nós”.

O ‘Não é Não’ se coloca como um coletivo feminista com representações em várias cidades do Brasil. Os primeiros passos foram dados em meados de 2017, no Rio de Janeiro. Foram distribuídas tatuagens gratuitas – você mesma pode ter visto – na folia carioca. 

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A recepção foi bastante positiva. A maioria das pessoas não só aprovou a ideia, como buscou refletir sobre atitudes calçadas no machismo e que (ainda são, infelizmente) tratadas com naturalidade. 

As membras do ‘Não é Não’ atestam para a evolução. “A campanha vem sendo um sucesso, ampliamos nossa rede, expandimos nosso campo de atuação, conquistamos novos espaços e hoje dialogamos com mais mulheres ao redor do Brasil, mas sempre falamos que nosso sonho seria a nossa ação não ter mais que existir”

De fato. O Carnaval segue com a tradição de objetificar o corpo feminino, de mulheres negras principalmente. O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) apontam que denúncias de violência sexual durante o Carnaval de 2019 tiveram aumento de 20%. 

“Lutamos para que um dia não seja mais necessário carregar uma frase tão óbvia em nossos corpos, lutamos para que mulheres sejam respeitadas e não precisem mais ter medo ao ocuparem espaços públicos. Esse seria nosso cenário ideal!”, salientam as integrantes. 

O movimento ‘Não é Não’ é encabeçado por mulheres, no entanto, a participação de homens é necessária. A lógica é bastante simples. O machismo e o racismo, por exemplo, só terão um fim quando os protagonistas e os reprodutores dessas violências se conscientizarem da urgência de rever posturas.  

“Sempre falamos que nossa luta é de todos, que homens são muito bem-vindos para militarem ao nosso lado, mas as tatuagens somente são entregues para mulheres – é uma forma de identificação e apoio entre nós. Acreditamos que o papel do homem é essencial, é preciso reeducar, quebrar falas e comportamentos machistas e misóginos”, pontuam. 

Brasil feminista 

Tempos bicudos exigem medidas consistentes contra o avanço do conservadorismo e tudo que ele traz consigo. O ‘Não é Não’ parece ter entendido a urgência dos tempos atuais e cresceu. 

A rede, literalmente, entra no Carnaval 2020 com muita coisa para comemorar. A teia de mulheres cresceu e alcança agora 15 estados no território nacional. Sobre o processo de expansão, o coletivo feminista destaca a eficácia do regionalismo. 

“O processo de expansão foi meio megalomaníaco, se possível abraçaríamos os mundo todo! Abrimos um diálogo em nossas redes chamando mulheres interessadas na causa e no coletivo para entrarem como embaixadoras e vimos que fazia mais sentido fazermos campanhas regionais. Esse é o nosso segundo ano nesse modelo, é muita correria, muita coisa pra gerenciar e alinhar mas seguimos fazendo um trabalho lindo e potente: já batemos a primeira meta em quase todos os estados”

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A previsão, como mostrou uma reportagem do Hypeness, é que 200 mil tatuagens sejam entregues na folia. Para se ter ideia da crescente, em 2017 foram 4 mil e 186 mil em 2019. 

“Quando abrimos diálogo entre mulheres, percebemos que todas nós temos histórias que dialogam e essa troca tem sido muito forte – é por ela que seguimos firmes e fortes. Acreditamos que fazemos um trabalho de formiguinha, um passo de cada vez, mas que estamos sim fazendo a diferença”

O abre desta matéria, como se diz no jargão jornalístico, não teve um tom apenas pessimista. A fala misógina de Jessé Lopes ou a postura sexista de outros líderes do cenário político atual precisam ser evidenciadas, principalmente em um contexto onde o contraponto se coloque como maré inevitável contra o retrocesso. Os tempos são outros. Aceita que dói menos. 

A fala do deputado só reafirmou a necessidade extrema de ainda existirem movimentos como o nosso. São por discursos como esses que nosso movimento ainda precisa existir! É extremamente triste perceber, em atitudes como esta, a persistência de uma cultura machista e misógina, que continua a perpetuar e defender o comportamento de assediadores. Para além de confundir a opinião popular sobre a atuação de coletivos como o nosso, esse tipo de manifestação ofende e desrespeita mulheres que já sofreram episódios de violência e que trabalham voluntariamente para levar informação e apoio a outras mulheres que já foram coagidas, constrangidas, invadidas ou violentadas. O Coletivo Não É Não repudia qualquer forma de expressão que agrida ou coloque em risco a vida da mulher. Somos um movimento que luta pelos nossos direitos físicos e morais, criamos uma rede de apoio e identificação e seguiremos na luta contra qualquer tipo de manifestação misógina e machista. Sem dúvidas foi mais um estímulo para seguirmos na militância!

O ‘Não é Não’ está com financiamento coletivo aberto para arrecadar fundos e viabilizar a produção das tatuagens na Bahia. Que tal ajudar? Colabore com a iniciativa que pretende colocar para jogo até 1 mil tattoos durante o Carnaval baiano.

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Fotos: foto 1: Cris Vicente/foto 2: Paula Molina e Henrique Fernandes/foto 3: Acervo Pessoal/Reprodução/foto 4: Fabiano Battaglin/foto 5: Paula Molina e Henrique Fernandes




Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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