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No centenário de Federico Fellini, 7 filmes para mergulhar na obra do maior diretor italiano de todos os tempos

por: Vitor Paiva

O diretor italiano Federico Fellini se dizia um mentiroso inato. “Para mim, as coisas mais reais são as que eu invento”, afirmava. E foi reinventando, na direção da imaginação e do potencial onírico que há nas coisas, a sua infância, sua realidade, a Itália à sua volta, os ícones culturais de sua época, a sexualidade e o imaginário mais profundo das sociedades de então, que Fellini se tornou um dos mais originais e emblemáticos diretores da história do cinema.

Mirando a imaginação com sua câmera, acima de tudo Fellini foi um esteta e um inventor – que completaria 100 anos hoje.

Influenciado por outros gigantes do cinema como Buñuel, Chaplin, Eisenstein, Rossellini e o humor dos Irmãos Marx – assim como pelo trabalho do psiquiatria suíço Carl Jung e até mesmo por experimentos com LSD – Fellini criou sua obra ao longo de quase cinquenta anos de trabalho sabendo que os filmes eram mais do que sequências de fotogramas: obras de arte que se desdobram como poemas e quadros em movimento.

Basta notar os espetaculares storyboards desenhados pelo diretor para perceber a maneira com que funcionava o olhar, a fotografia, a concepção de Fellini diante do mundo real: na direção do que era capaz de inventar, e que, com a ajuda da extraordinária música do gênio das trilhas sonoras Nino Rota, tornava-se ao mesmo tempo impossível e mais real que a realidade.

Acima, Giulietta Masina vivendo Cabíria; abaixo, Anita Ekberg e Marcelo Mastroianni em La Dolce Vita

Nascido em 20 de janeiro de 1920, o diretor realizou, de 1945 até 1992 – um ano antes de falecer, em 31 de outubro de 1993, aos 73 anos – uma das filmografias mais amplas e ricas da história do cinema. Do surreal ao barroco, do romântico ao fantástico, filmes como La Strada, Ensaio de Orquestra, Satyricon, Julieta dos Espíritos, A Doce Vida, 8 e 1/2, Noites de Cabíria e Amarcord, entre muitos outros, fizeram de Fellini não só o mais reconhecido diretor italiano em todos os tempos, como o maior vencedor do Oscar na categoria “Filme Estrangeiro” – e revelam um mentiroso inato capaz de tornar a realidade mais interessante e bela do que ela de fato aparenta ser, e que merece ser reconhecido, revisto e celebrado no dia de seu centenário.

Giulietta e Federico

Em Fellini, o banal se torna épico, o diminuto se agiganta, o feio se revela belo e o medo nos move ao mais denso, colorido e assombroso fundo de nosso inconsciente – tornando pouca a mera realidade: como esquecer o mar feito de plástico ou o navio pintado de E La Nave Va, ou a vida estrelada e insuperável de Marcelo Mastroianni em La Dolce Vita? E a doçura áspera e delirantemente real de Giulietta Masina, mulher de Fellini, em Noites de Cabíria? Para essa festa, selecionamos 7 filmes do diretor para quem quer conhecer ou rever sua cinematografia – com o seguinte acordo: que sigamos vendo e revendo toda sua obra pelos próximos 100 anos.

‘La Strada’ (1954)

Ainda ligado ao Neorrealismo Italiano, retratando a dureza da Itália do período do pós-guerra, La Strada conta a história de Gelsomina, vivida por Giulietta Masina, que é vendida por sua mãe a um artista de circo (um “homem forte” que exibe suas capacidades físicas, vivido por Anthony Quinn) que a leva para viver na estrada. Ingênua e simplória, Gelsomina teme por sua vida diante do personagem de Quinn – ela consegue fugir, mas a realidade a persegue até o fim. Entre o horror e o amor, La Strada se tornou um dos mais influentes filmes em todos os tempos, e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

‘Noites de Cabíria’ (1957)

O resumo de Noites de Cabíria seria simples e direto: o filme conta a história de uma prostituta em Roma que procura por um grande amor em vão – sua realidade, para além de seus sonhos, no entanto, é de constante desilusão. Como tudo na obra de Fellini, porém, Noites de Cabíria carrega sentidos e profundidades para muito além do que a mera história sugere – e é também um retrato denso da Itália no pós-guerra com sua pobreza e sua ilusão romântica diante de uma realidade dura. A interpretação de Giulietta Masina como a personagem principal ajudou o filme a ser reconhecido como uma obra-prima, vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

‘A Doce Vida’ (1960)

Marco da mudança de estilos na carreira de Fellini (do neorrealismo dos anos 1950 para o cinema simbólico que se tornaria sua marca), A Doce Vida é seguramente um dos três filmes mais importantes da carreira do diretor – e um dos maiores da história do cinema. Olhando com apreciação estética mas também com crítica ferrenha para a sociedade italiana do pós-Guerra – vista como superficial, autocentrada e decadente – o filme conta a história de um paparazzo, vivido de forma brilhante por Marcelo Mastroianni, que cobre a vida da atriz hollywoodiana Sylvia Rank – vivida também com brilhantismo por Anita Ekberg – em sua passagem por Roma. A cena dos dois personagens dentro da Fontana di Trevi também se tornou emblema do trabalho de Fellini e uma das mais celebradas de todo o cinema.

‘8 e 1/2’ (1964)

Surreal e também autobiográfico, 8 e 1/2 conta a a história de um diretor de cinema, vivido por Mastroianni, enfrentando um bloqueio de criatividade (coisa que o próprio Fellini teve de enfrentar quando do início do processo do filme) e que decide se recuperar de sua ansiedade e de seu estilo de vida em um spa de luxo – mergulhando em suas memórias, seus sonhos, na profundeza de sua própria cabeça. Influenciado pela obra de Jung e cheio de retratos oníricos em belíssima fotografia em preto-e-branco, o filme é metalinguístico e pleno em camadas – um diretor em bloqueio contando a história de um diretor em bloqueio que tem de fazer um filme e acaba fazendo um filme sobre a dificuldade de fazer um filme. 8 e 1/2 também venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

‘Satyricon’ (1969)

Livremente inspirado na obra homônima do escritor romano Petrônio, do século I, Satyricon é um dos mais loucos e oníricos filmes da obra de Fellini. Dividido em nove episódios, a obra retrata uma série de pequenas fábulas e mitos, contados em aventuras e desventuras, da cultura romana de 2 mil anos atrás. Encolpio e Ascilto, dois amigos estudantes, são os condutores da história, que trata de temas como sexualidade, rituais, moralidade, antropofagia e muito mais – retratando Roma como uma sociedade doida e decadente.

‘Amarcord’ (1973)

Passado no contexto da Itália fascista, dos anos 1930, Amarcord é possivelmente o mais belo trabalho de Fellini. Trata-se de um filme um tanto autobiográfico, contando a história de Titta, um adolescente crescendo na diminuta vila de Borgo San Giuliano. Retratando suas lembranças de infância com exagero e grandiloquência (o título é um neologismo que significa “eu me recordo”, em italiano), Amarcord debate a personalidade moral, política, ética e sexual da Itália através de uma fotografia impactante e uma beleza visual poética e profunda – que trouxe ao filme o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

‘E La Nave Va’ (1983)

Considerada a última obra-prima de Fellini, E La Nave Va acontece à bordo de um imenso navio luxuoso, feito fosse um antigo documentário, passado em 1914. A viagem se dá como uma espécie de funeral para dispersar as cinzas de uma grande cantora lírica, mas a presença de um grupo de refugiados sérvios no navio – onde também se encontra o grão-duque de Herzog – dá ao filme um caráter político que se mistura ao surrealismo que, aos poucos, toma conta da tela. O filme surpreende até seu último momento: sem spoilers, a sequência final de E La Nave Va é uma das mais emblemáticas e belas imagens já vista nas telas. 

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© fotos: reprodução/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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