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Novo vazamento da Cambridge Analytica aponta eleições manipuladas em escala ‘industrial’

por: Vitor Paiva

Depois de revelado o escândalo que envolvia a apropriação e utilização ilegal de informações de mais de 87 milhões de perfis no Facebook, a empresa de informação inglesa Cambridge Analytica encerrou suas atividades – mas seu terrível legado ainda existe, e as consequências do trabalho tóxico realizado pela empresa serão sentidas sobre as democracias do mundo ainda por muito tempo.

É isso que sugere o novo vazamento de mais de 100 mil documentos relatando o trabalho da empresa em 68 países, a fim de manipular as eleições – incluindo o Brasil. As informações gerais serão liberadas ao público em breve e revelam manipulações eleitorais em escala industrial.

Brittany Kaiser, ex-funcionária da empresa

Os documentos vieram de Brittany Kaiser, uma ex-funcionária da Cambridge Analytica que se tornou informante desde o início das investigações a respeito do envolvimento de Donald Trump e do Partido Republicano na tentativa de manipulação da Rússia sobre as eleições presidenciais nos EUA, em 2016. As primeiras informações vazadas dizem respeitos às eleições na Malásia, no Quênia e no Brasil – a decisão de Brittany de ir a público se deu após as últimas eleições no Reino Unido. “É tão abundantemente claro que nosso sistema eleitoral está escancarado para ser abusado”, disse Brittany. “Eu estou muito temerosa sobre o que irá acontecer nas próximas eleições nos EUA, no final desse ano, e acho que uma das poucas maneiras de nos protegermos é liberando a maior quantidade de informações possível”, afirmou.

Marck Zuckerberg, criador do Facebook, depondo no Congresso dos EUA

Os documentos vazados vieram de seu e-mail e de seus HDs e, ainda que tenha entregado uma parte ao parlamentos estadunidense no ano retrasado, Brittany garante que ainda possui milhares de páginas a serem entregues, capazes de revelar “a profundidade do trabalho, indo muito além do que as pessoas pensam ser o ‘escândalo da Cambridge Analytica’”. A empresa teria atuado na tentativa de manipular as últimas eleições brasileiras, trabalhando com empresas, doadores e partidos políticos, mas o esforço teria obtido sucesso menor do que, por exemplo, nas eleições dos EUA e no plebiscito pelo Brexit, no Reino Unido.

“O poder dos megadados e dos psicográficos no processo eleitoral”: Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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