Seleção Hypeness

Seleção: 8 poemas para celebrar 100 anos de João Cabral de Melo Neto

por: Vitor Paiva

O pernambucano João Cabral de Melo Neto foi diplomata e foi poeta – mas, ainda que fosse avesso a derrames de sentimentalidade e arroubos emocionais, é justo dizer que Cabral foi um dos mais potentes motores da modernidade na poesia brasileira. Em seu centenário, completado hoje, 09 de janeiro de 2020, esses 100 anos de Cabral carregam a dimensão do século XX em que viveu e que, na poesia brasileira, ajudou a inventar. Sua certidão de nascimento dizia que havia nascido em 6 de janeiro, mas o poeta sempre insistiu que nascera três dias depois, dia 9 – e é com ele que celebramos.

Dono de poética rigorosa e concisa em modo geral, Cabral divide com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira o mais alto Olimpo da poesia nacional. Não é justo, porém, reduzi-lo ao tal rigor e à rejeição às sentimentalidades (reza a lenda que não gostava de música e que carregava uma dor de cabeça perpétua que acabou por marcar sua personalidade e sua escrita, que o obrigou a largar o futebol profissional e a tomar 6 aspirinas por dia por toda sua vida) – Cabral fez de tudo na poesia, indo de versos surreais à crítica social, debatendo conteúdo e forma, vida e morte, tempo e espaço, a criação e até amor – mesmo que esse surgisse para ‘comer’ tudo à sua volta.

A partir do pensamento, da ideia, Cabral criava uma poesia apaixonadamente sem paixão – do cérebro para o coração, feito uma fruta é passada por uma espada. Trata-se, em verdade, de muito mais do que uma poesia cerebral, mas sim de uma obra atravessada de sentimentalidades muito mais variadas e complexas do que poderíamos, desavisados, esperar.  

Cabral em sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1968

Cabral faleceu em 09 de outubro de 1999, aos 79 anos, colecionando prêmios e reconhecimento internacional (o fato de não ter recebido o Nobel de literatura é seguramente uma das grandes injustiças da academia sueca). Obras como ‘Os Três Mal-Amados’, de 1943, ‘O Cão sem Plumas’, de 1950, ‘Morte e Vida Severina’, de 1955, ‘Uma Faca Só Lâmina’, de 1955, ‘A Educação Pela Pedra’, de 1966 e tantos mais dão a dimensão não só da grandeza de um dos maiores poetas do século XX, mas da própria singularidade e imensidão da poesia e da literatura brasileira.

Para comemorar a data, uma nova antologia com a obra completa de João Cabral será organizada publicada, com organização de Antonio Carlos Secchin e a inclusão de dois livros póstumos e mais dezenas de poemas nunca publicados. Além disso, uma biografia profunda e completa trazendo em página a vida do poeta deverá ser publicada ainda no primeiro semestre desse ano, de autoria do professor de literatura Ivan Marques, da USP.

“Quem lê aquela poesia bem formalizada imagina uma pessoa em ordem consigo mesma. Mas ele era um ser à flor da pele, com muita dificuldade na vida prática. É possível que sua obra seja uma espécie de tentativa de harmonizar essa desordem interior”, diz Ivan, em entrevista ao jornal O Globo.

No dia em que completaria 100 anos, isso separamos aqui 8 poemas de Cabral lembrar um dos maiores poetas da língua portuguesa em todos os tempos – como um convite irrefutável para quem quer retornar ou mergulhar pela primeira vez em uma obra da qual jamais sairemos.

‘O Fim do Mundo’

“No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.”

‘Tecendo a manhã’

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão”.

‘A educação pela pedra’

“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma”.

‘O Cão Sem Plumas (trecho)’

“A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes”.

‘Os Três Mal-Amados’

“O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,

minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.

‘Uma Faca Só Lâmina (Trecho)’

“Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente”.

‘Catar Feijão’

“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco”.

‘Fábula de um arquiteto’

“A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto”.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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